Posts Tagged 'animais'

1 homem e 25 cachorros

Mecânico Carlos Alberto convive com os cães abandonados que abriga em sua oficina na zona oeste de São Paulo

 Por Viviane Shinzato

Maloqueira, Pé de galinha, Pé de porco, Madonna e por aí vai…a lista não para por aqui. São mais de 20 cachorros com os mais estranhos nomes. O dono de toda bicharada, o mecânico Carlos Alberto David, 47, explica que os apelidos têm fundamento. A Maloqueira assim foi chamada por sua mania de escapar em busca de saco de lixo na rua. O nome Madonna não é – como muitos imaginam – exatamente uma homenagem a cantora, e sim pelo movimento engraçado das patas que a cachorra exibe em cima dos carros da oficina de Carlos, como se estivesse dançando.

Entre broncas, abraços e carinhos, o mecânico cuida dos 25 cachorros – 20 adultos e 5 filhotes – que atualmente vivem em seu ambiente de trabalho, uma oficina no bairro Parque Ipê, na zona oeste de São Paulo. Carlos cuida de todos da maneira como pode, muitas vezes fazendo até o que não pode. Para sustentar os animais, todos de porte médio-grande, mensalmente retira cerca de 70% de sua renda na oficina para sacos de rações e eventuais medicamentos veterinários. Toda semana, relata, os cachorros comem 6 sacos de 15kg, o que resulta em um gasto mensal de R$600,00.

Dois ambientes construídos com cimento e uma parte a céu aberto cercada com alambrado. No total, são três espaços no mesmo terreno destinados a abrigar e separar os cachorros mais antigos dos mais novos.

Ao longo de 5 a 6 anos de existência, cimento, concreto e alambrado fizeram parte da construção da oficina que aos poucos ganha formas de um canil. As cifras na vida de Carlos são altas, mas infelizmente não representam lucro. Mais da metade da renda que recebe está comprometida em gastos com animais.  Em serviços de construções, inclusive de repartições dos cães, já se foram R$26.000,00; na compra de rações e medicamentos, uma impressionante dívida de seis mil reais, quitada aos poucos. Revoltado, o dono da oficina explica não ter mais condições de investir e tampouco abrigar novos cães. “Já tive que aumentar o muro da oficina para não jogarem mais crias aqui para dentro. Ninguém me ajuda, ninguém quer cachorro, pago tudo com dinheiro do meu bolso. Vendi meu palio 2002 para pagar o banco”.

Rotina

Às 7h30 da manhã Carlos entra na oficina e segue até as 9h30. Limpa a sujeira, troca a água, repõe a comida, lava o terreno e, depois disso, está pronto para iniciar o serviço de mecânico que, por vezes, se torna impossível não misturar com o ambiente dos cachorros. Por volta das 18h dá uma pausa no trabalho e volta aos cuidados animais. “Limpo, dou comida, vejo quem tá com carrapato, cuido das orelhas, dou remédio, porque um deles tem ataque epilético e toma gardenal e então começa tudo de novo. É correria”.

O trabalho de mecânico encerra entre 18h e 19h, horário em que Carlos volta para o apartamento em que mora a poucos kms da oficina, toma um banho, janta, dá uma “desmaiada no sofá” e volta para o trabalho, agora, para se dedicar aos animais. “Saio daqui todo dia meia noite, uma da manhã”.

Na véspera de Natal, Carlos, como de costume, organizou todos os detalhes, conferiu água, acomodação, limpeza deu até ração especial como presente para todos. Depois de todo ritual estava livre para voltar à ceia na companhia da esposa. Dez horas, onze horas, meia noite e… junto aos fogos de comemoração… um recado para o dono da oficina: os cachorros estão brigando. Lá se vai o sossego e o pai dos animais corre para oficina ver o que está acontecendo: “Quase de madrugada e eu aqui separando briga, até levei mordida”, lembra.

Problemas

Tanto zelo e carinho por animais por vezes prejudicam, é claro, a vida pessoal e até mesmo profissional. Atenção à esposa ele mesmo assume já não ter condições de oferecer e, em tom de brincadeira, revela: “Já viramos irmãos”. Clientes menos habituados aos cães desaparecem, talvez por não gostarem de cachorros por perto ou, como já ocorreu, por receio de algum risco no carro – mesmo que seja polido sem custos. “Alguns clientes tem nojo de cachorro, já perdi bastante gente que não volta mais”.

Se comparada a alguns anos, a oficina está com poucos habitantes da família canina. Carlos já abrigou cerca de 40 cachorros de uma só vez e conta mais de 50 entre os que por ali já passaram. “Já fiquei com 38 aqui, cuidando de todos. Houve um tempo em que todos ficaram doentes e eu quase fiquei louco, cheguei a morar aqui. Fiquei uns 30 dias morando aqui direto. Comprei uns 800 comprimidos de amoxilina. Você não imagina o quanto já gastei aqui só com cachorro”
Além dos gastos, do trabalho que tem para cuidar de tudo e entre outras questões ligadas aos animais, Carlos ainda precisa conciliar a relação com os vizinhos da oficina e moradores do bairro. Do prédio residencial na rua ao lado da oficina, a vista que se tem é dos 15 cães adultos que repartem o espaço ao ar livre, com direito a eventuais brigas e muitos latidos. Incomodados com o barulho, os moradores passaram a reclamar, denunciar e até mesmo ameaçar o dono dos animais. Carlos, que prefere não criar caso, conversa humildemente com os moradores e diz estar em busca de soluções para este problema. “Não pego mais cachorro, mas também não tem o que fazer, não vou largar na rua. Mesmo assim já cheguei a ser ameaçado, já teve cara que falou que ia passar com o carro por cima de mim.”

O amor pelos animais é visível no olhar de Carlos que abraça, beija, cheira e acaricia. Para ele, a relação que tem com os animais é algo inexplicável, tanto que não mede esforços para cuidar e defendê-los “Já fiquei sem almoçar para dar comida para os cachorros”. Em outra situação, Carlos arriscou a própria vida ao discutir com um ciclista que, irritado por ter sido derrubado por um dos cachorros, voltou armado para tirar satisfação com o dono dos animais. “Eu já tive que me meter em briga ai na porta, já tive que bater no cara porque o cara deu um chute na cachorra que tinha derrubado ele da bicicleta. Quando fui conversar, o cara já veio para cima e eu também fui com um pedaço de ferro. Então ele foi até a casa dele buscar o revólver e voltou aqui. A gente discutiu, mas ficou para lá”.

Sonhos

Carlos Alberto lembra que tudo começou quando resolveu adotar uma cadela já esperando cria que fora abandona na praça em frente à oficina. Os filhotes nasceram, mais animais foram recolhidos, outros foram abandonados na porta da oficina e desde então não parou mais. O mecânico se sente incapaz de resolver tudo sozinho, já fez dívidas no banco, no pet shop, perdeu clientes, conquistou inimigos, se ausentou da família, não fica mais em casa, gastou o que tinha e o que não tinha, e ultimamente, pensando em uma solução, gostaria de construir mais repartições no terreno para a oficina não se misturar com o canil. Infelizmente não será possível. Com ar de tristeza, Carlos lamenta a notícia de que o aluguel do espaço não mais será renovado para 2012. E enquanto o pior não acontece, sonha mudar-se com os animais para um sítio próximo de São Paulo, onde possam viver tranquilamente, sem problemas de espaço, ameaças e brigas com vizinhos. “Minha vida é uma loucura, não estou aguentando mais. É complicado. Ou eu arrumo um lugar grande, um sítio perto da cidade ou não sei o que fazer”.

Enquanto as novidades não aparecem, Carlos pede ajuda com o que puderem oferecer. “Ração é o principal, o resto eu vou me virando. Se vier medicamento, remédio para dar banho, ajuda claro”.

Serviço:

Local: DM Motors – funilaria, pintura e mecânica.

End:Rua Inácio Cervantes, 1037, Parque Ipê – Butantã/SP

Fone: 11 3782 0722

E-mail: capdavid@hotmail.com

Anúncios

Show de horror: a gente vê por aqui

 

 Depois de muita crueldade transmitida em rede nacional, percebi por meio de redes sociais, que alguns brasileiros se comoveram com a prática do rodeio. Poxa, como o país evoluiu, não?Para que uma parcela da sociedade fique indignada com a prática do rodeio é preciso ver o sensacionalismo em sua pior essência, nos piores dos casos. É preciso assistir a cenas chocantes, ver e rever fotos do momento em que um peão quebra o pescoço de um bezerro, esperar os telejornais relembrarem os maus tratos corriqueiros na arena, ver a Record frisar a cena no exato momento do “acidente”, assistir o jornal da tarde mostrando que outros locais também praticam maldades com animais e, por fim, ver que já é do conhecimento de todos o que acontece nos bastidores dos rodeios. Será mesmo necessário tudo isso para que consigamos refletir sobre maus tratos a animais?

Fico indignada em ver que em pleno século XXI ainda seja necessário o uso de crueldade e brutalidade para distrair o povo, como se vivêssemos o efeito retrógado e para cada pequena evolução alcançada, voltam-se algumas décadas. Voltamos às práticas do Império Romano, mas agora de forma muito pior, pois vivemos o tempo dos homens evoluídos, mas agimos como seres da antiguidade. Devem haver estudos que revelam este lado sádico da diversão violenta que é parte da essência de alguns “humanos” (com aspas se levarmos ao sentido de racional, mas sem aspas na sua mais profunda conotação: essência podre).

Como intitular “diversão” aquilo que mais parece um show de horror? Com qual finalidade um homem – que se diz um ser pensante – precisa montar em um animal de forma violenta, repleta de ignorância, e ainda assim ser aplaudido por uma plateia que urra a cada resistência do peão montado no animal?Animal também sente dor, mas quem se importa? Se nem sua liberdade de viver é respeitada, quem dirá seus sentidos e sentimentos… O maior problema do animal é não ter como revidar a escravidão de uma classe que simplesmente inventou que Deus a fez superior.

O mais irritante é saber que o show de horror é revelado publicamente e não há providências, não existem grandes punições e, por vezes, não há ninguém que possa intervir. As Associações Protetoras dos Animais ainda são fracas e impotentes para fazer justiça em casos que movem dinheiro, estas entidades são ínfimas perto daqueles que negociam as regras do país.A verdade é que ninguém se importa. Ontem as imagens causaram impacto, hoje foram repetidas e amanhã serão simplesmente esquecidas. Infelizmente a mídia determina o tempo da nossa memória, vale ressaltar, nossa curta memória de ser humano e brasileiro. Alguns dias depois tudo volta ao normal, os mesmos artistas voltam ao palco, mais animais voltam à arena, novos ignorantes financiam o show de horror.

Será que o sertanejo universitário, bem como a música caipira, dependem exclusivamente do público do rodeio para fazer show?se assim for, está na hora de repensar a carreira….

image da campanha contra rodeio do site animais.org

Hoje me vi na necessidade de soltar a raiva que senti ao ver na tela a crueldade humana, mesma sensação que deve ter invadido o lar de outras milhares de pessoas. Só é lamentável que estas tantas pessoas horrorizadas, amanhã ou depois se transformarão em alguns poucos que ainda vão se lembrar do ocorrido. O caso do bezerro não precisa ser memorável, bastaria ser apenas significativo para uma conquista: o fim de rodeios.