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Histórias e estória de um jornalista maratonista – último

Corrida e Jornalismo

 Com a aproximação da reta final, os passos estão mais lentos, as pernas já não se sustentam e não mais obedecem a mente que, daí por diante, só espera o sinal de chegada para se desligar do corpo.

Um pouco exausto, mas já acostumado, Vicent libera as energias com uma característica sua muito conhecida entre seus colegas de treino: o grito de vitória, de missão cumprida. Engana-se quem pensa que esta comemoração só acontece em caso de medalhas. “Vencer uma corrida não é chegar em primeiro, é sentir que você se superou”.

Mesmo tendo mais de cinquenta troféus e aproximadamente 500 medalhas em sua coleção, e sendo o único jornalista que corre 10 km em 37 minutos – o que seria, em média, 1 km em menos de 4 minutos – nem sempre é possível ser o grande vencedor. Mas existem coisas na vida mais importantes que títulos e condecorações. A corrida já é em si a maior prova que Vicent pode ter até hoje. Não fosse seu compromisso com o atletismo, não teria experimentado todas as áreas do jornalismo pelas quais passou – já foi repórter, radialista, fotógrafo, cinegrafista, editor e redator. O grande prêmio que a corrida poderia lhe dar, ele já conquistou: a disciplina. Ser um bom competidor exige treinamentos metódicos e periódicos. “Ao criar uma pauta, uma matéria, um roteiro, o trabalho final de reportagem ou mesmo uma crônica, se complementa com a ordem e disciplina ao pensar e ao escrever”.

Quando se é jovem, as aventuras do jornalismo podem parecer mais atraentes e adequadas ao preparo físico. E o que dizer de um homem baixinho, magrelo e quase sem cabelo, de quarenta e poucos anos correndo entre os carros, alcançando pessoas pelas ruas, se arriscando em lugares desconhecidos e fotografando subúrbios da cidade?

– Ser repórter de rua, coisa que faço até hoje com muito amor, exige que tenhamos uma boa forma física e isso me mantém correndo. Já cai de palco, escalei montanhas, andei muitos quilômetros a pé para conseguir uma boa foto, ou um melhor enquadramento na fotografia.

Ser jornalista e maratonista é um diferencial que nem todos têm, e os que têm, talvez não unam as duas profissões como um bem social. No ano de 2009, a cobertura de uma tragédia na periferia da zona sul de São Paulo, foi a grande prova em seu caminho e a revelação de seu caráter. Na tarde de 24 de setembro, Vicent dirigia de volta para casa quando ouviu no rádio que um incêndio cobria a favela do Real Parque, no Morumbi. De repente, o telefone toca. Era um colega corredor e fotógrafo perguntando se o incêndio não se passava na rua do Nino, o carroceiro que corria entre eles. Desesperadamente muda a direção e vai ao encontro de Nino que desolado mostra as cinzas que restavam de seu barraco. Entre o que conseguira salvar das chamas estava aquilo que abalaria profundamente o experiente jornalista tantas vezes ensinado a ser forte e resistente: uma de suas medalhas suja de cinzas.

– Nino segurava sua medalha ainda quente e derretida com as mãos e roupas sujas de cinzas. A fumaça e poeira de cinza era tanta, que quando olhei no espelho retrovisor de meu carro vi a marca do caminho das lágrimas que chorei escondido lá no alto na Favela.

Após algumas fotos e depoimentos registrados, seu trabalho de fotojornalista já estaria completo, mas Vicent não estava lá simplesmente para satisfazer as exigências impessoais de seu sistema de trabalho. Ele foi além e, momentos depois, juntou seu poder de alcance como jornalista à sua popularidade como maratonista. Fez a matéria para a Contra Relógio, postou a história no blog da revista, pediu divulgações em sites de outros corredores e veículos especializados no assunto, disparou fotos pela internet, e pelas redes sociais lançou a campanha SOS Nino com o intuito de conseguir abrigo e ajuda para o carroceiro e sua família. A divulgação repercutiu em diferentes mídias e as contribuições vieram de todos os estados do país. Logo Nino estava doando boa parte do que tinha para os vizinhos da comunidade, explicando que recebera tantas doações que já era hora de compartilhar. Vicent tornara Nino o carroceiro corredor que marcaria além de sua experiência jornalística, sua consciência humana.

– Sou uma ferramenta social – se eu não conseguir atuar e ajudar a melhorar meu ambiente, o meio que vivo… de nada serve meu trabalho. O jornalista que trabalha sem ideal é meio jornalista, pois é necessário sempre ter causas para defender – causas sociais e não políticas. Sociais porque esse tipo de causa tem o objetivo único de melhorar o homem e seu ambiente.

Esta rotina de trabalho parece até bagunçar a cabeça de Vicent que já não mais se dá conta de chegar aos horários combinados e cumprir os compromissos a que se dispõe com tanta boa vontade. Agendar encontros com ele é estar disposto a esperar alguns atrasos, até mesmo de horas, e entender que a agitada correria de seus dias combina com sua pessoa e faz parte de sua natureza. Esta vida pode parecer loucura, mas é complemento daquilo que Vicent buscou como felicidade e não teve medo de seguir: o trabalho de jornalista e maratonista.

Quando chega ao encontros marcados, mesmo para seus trabalhos eventuais de fotografias para Sergio Rondino, assessor de Kassab, na Prefeitura, traz sempre uma nova história tão interessante que até esquecemos seus atrasos. Histórias, como já é de se imaginar, cheias de acontecimentos incríveis. Como todo bom contador, ele dá um tom surreal às narrativas, tanto que se torna difícil distinguir qual a verdadeira dimensão dos fatos. Talvez, para descobrir este mistério, teria que acompanhá-lo por mais tempo e, como não poderia deixar de ser, estar bem condicionada para correr longos quilômetros ao seu lado.

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História e estórias de um jornalista maratonista II

De volta ao passado jornalístico: o furo

Como sua vida rende um livro de histórias inesgotáveis, é difícil entrevistá-lo sem se deixar envolver pelos relatos que me chegam sem pausa e aumentam rapidamente. Voltei a lembrar de que deveríamos precisar mais a história da pauta em Aracajú e por inúmeras vezes pedi que contasse detalhadamente e me fizesse entender passo a passo de sua história do primeiro furo jornalístico na matéria para o Banco América do Sul. Então ele retoma o assunto e explica que sua pauta era buscar japoneses na região de Aracajú e, inesperadamente, conseguiu descobrir vinte famílias japonesas, e em uma dessas famílias uma criança acabava de nascer.

– Mas por que você considera uma missão encontrar japoneses na região. O que tinha de tão diferente nisso?

– Pensando há 20 anos, quase não existiam japoneses em Aracajú, e eu dei a sorte de encontrar uma criança que acabava de nascer e também uma senhora de 60 anos que com uns 6 anos chegou ao Brasil em um dos primeiros navios que trazia imigrantes japoneses.

Homenagem por divulgação de haikai no Japão

O destaque que torna esta reportagem o furo de sua carreira é a descoberta desta senhora que, quando criança, em meados de 1920, se perdeu da família ao trocar o local de desembarque. A história poderia ser triste, mas aparentemente teve um final feliz também para Vicent que soube aproveitar a história da criança perdida dos pais em Sergipe e foi adotada por uma família japonesa na cidade, crescendo distante de seus semelhantes.

-Esta matéria deu respaldo para mim, porque eu sentia um pouco de preconceito por não ser japonês. Então eu aproveitei a chance, já que tinham japoneses da comunicação social que não gostavam e não se interessavam pela cultura japonesa, aproveitei este território que eu tinha para explorar. Os diretores perceberam que eu realmente gostava e isso me favoreceu.

– E como você vê isso hoje?

– Foi uma parte importante da minha vida. Ensinou muito. Depois disso eu aprendi a ter coragem, que é o principal para o jornalista. Vejo muitos jornalistas profissionais formados em tantos cursos, mas que não têm isso. Ali (no BAS) também foi onde eu comecei a perceber que eu realmente gostava de jornalismo, de ser repórter. Gosto de saber. Acho que o jornalista tem que ter essa veia.

Esta matéria revelaria, além da paixão pela reportagem, o talento para o fotojornalismo. “Com a matéria para o BAS pensei: Eu posso ser mais que repórter, posso ser repórter fotográfico e vídeo-repórter. Me interessei em ser fotógrafo e cinegrafista, então paguei um curso de edição de vídeo, de cinegrafista e também fui atrás de aulas na faculdade”.

História e estórias de um jornalista maratonista I

Os participantes se preparam, conferem os últimos detalhes, alongam, se aquecem e seguem rumo à fila para então fazer parte da multidão que se aglomera a espera da largada. Em meio à diversidade de pernas, de todos os tamanhos e cores, lá está uma figura de 1.74 metros de altura. Conversador, como bom comunicador que o é, José Vicent Sobrinho está sempre em movimento. Cumprimenta os colegas de treino, conversa com todos ao redor, e de forma descontraída, mas não menos determinada, volta à concentração para os próximos quilômetros que o aguardam dali a alguns minutos. Levemente calvo e com alguns poucos cabelos brancos, mas com o físico de atleta, o sorriso estampado no rosto e agitação constante, não aparenta os 45 anos vividos.

A largada se aproxima, Vicent se prepara fisicamente e espiritualmente para, mais uma vez, enfrentar sua aventura. Cada prova é um novo desafio e como em toda competição, é um momento de ansiedade, até mesmo para os mais habituados como Vicent que já participou de mais de 600 provas e corre desde os 14 anos de idade. A seriedade com que leva seu esporte já lhe rendeu medalhas de ouro por dois anos consecutivos na categoria Imprensa da Maratona 2010 e na Meia Maratona 2011 no Rio de Janeiro.

Fora das pistas, Vicent lida com pautas e fotos. Ele é jornalista da revista Contra Relógio, especializada, é claro, em corrida, e dedica mais uma parte de seu dia a dia ao fotojornalismo. E assim sua vida se torna uma incessante prova de corrida com obstáculos imprevistos e aventuras inéditas para as quais deve estar preparado para realizar. Seu modo positivo de ver a vida e o gosto com que desenvolve seus ofícios transformam sua jornada em uma combinação de prazer e emoção.

Com mais de 30 anos nas pistas e centenas de competições, já correu tantos quilômetros que teria o equivalente a duas voltas na Terra. Não só é o jornalista mais rápido do Brasil como também um dos maratonistas mais viajados. Trabalhou como jornalista e fotógrafo na Espanha, França, Rússia e Estados Unidos, e em todos esses países aproveitou também para dar suas corridinhas. Quando perguntado sobre idiomas aprendidos, sem hesitar ele responde: “já viajei para 12 países e ainda não sei falar inglês”.

Os grandes números em sua trajetória não param por aí. Como fotojornalista Vicent soma mais de 100 mil flashes, muitos deles publicados em veículos como Jornal do Brasil, Boletim da Subprefeitura Butantã, Diário Oficial de São Paulo e Jornal Caderno SP, além de revistas institucionais como Academia Curves.

Juntamente com o esporte, o jornalismo foi a grande descoberta em sua vida. Aos 18 anos entrou na faculdade Cásper Líbero para cursar jornalismo. “Naquela época (1987) todos achavam que fazer jornalismo era para trabalhar na TV Globo“. Quando Vicent entrou na faculdade já trabalhava no escritório do banco Itaú carimbando e furando cheques. Emocionado com sua nova paixão entendeu que deveria descobrir mais sobre a nova profissão e, para isso, largou o emprego no banco.

Jovem de família humilde morava com os pais e os quatro irmãos no bairro de Itaquera, na Zona Leste de São Paulo, é o primogênito de cinco filhos. Seus pais se casaram jovens, a mãe com 19 e o pai com 20 anos. Como o irmão mais velho tem que servir de exemplo para a família, ele conta que sofreu bastante por ter sido “o primeiro teste do jovem casal”. Hoje, de forma divertida, ele lembra a reação de seu pai ao vê-lo em casa no dia seguinte ao abandono do emprego. “Eu pedi as contas e não avisei meu pai. Fiquei desempregado e meu pai ficou questionando por que eu estava em casa, falando que eu estava louco, que a gente era pobre e não dava para ficar escolhendo”. Passado o momento de tensão, seu pai logo o alertara que pagaria a faculdade por apenas mais um mês e, após este período, o filho deveria estar empregado se quisesse continuar o curso. Vicent conta que após a conversa, ou melhor, a bronca levada do pai, ficou desesperado e seguiu em busca de emprego da maneira que podia.

– E como fez para conseguir?

-Subi na mesa do professor e fiquei falando: Se ninguém me arrumar emprego vou ter que sair da faculdade, vou ter que abandonar todos vocês.

Quando menino, era ainda mais agitado e gostava de conversar com as pessoas, fazia amizade facilmente. Animado e proativo, era quase impossível passar despercebido. Com o entusiasmo de um jovem em busca de aventuras e conhecimentos no mundo, Vicent vivia o ápice de seu encanto com o jornalismo. E com toda essa vontade de desenvolver a prática, se tornava uma figura marcante entre os colegas de classe, ponto que o favoreceu para arrumar o primeiro emprego na área, logo em seu primeiro ano de faculdade, em 1987.

– Na época eu tinha cabelo, era gato, e uma colega de faculdade – uma fã minha – me arrumou um emprego, ela era japonesa e me chamou para trabalhar ao lado dela no Banco América do Sul (BAS), que é o banco da colônia japonesa, e lá aprendi a fazer o jornal do banco, que hoje seria um treinamento para twitter.

– Como twitter naquele tempo?

– Não, não. Eu usei twitter para comparar com os dias de hoje, que você tem que passar o recado em poucos caracteres. Na época, eu tinha que criar haikai, um micro poema japonês com 17 sílabas. Com isso eu aprendi a fazer manchetes, porque era para ser coisa curtinha.

A junção de arte com o jornalismo seria um ponto importante para sua trajetória. Com orgulho e empolgação em cada palavra dita, ele conta que seu poema Espelho foi publicado no Japão, em 1988, e lhe rendeu a premiação de uma bolsa de estudos de 50% por um ano, como reconhecimento por parte do presidente Fujio Tachibana, do BAS.

Nesse período, entra na faculdade, sai do Itaú e consegue seu primeiro emprego, e é principalmente nesta fase que começa grande parte de suas aventuras pelo jornalismo. O emprego no BAS foi a oportunidade de aprendizado para sua carreira. Lá teve seu primeiro grande reconhecimento e seu primeiro furo de reportagem. Quando lembra de tal experiência, o José Vicent de hoje, com o pensamento mais maduro de um jornalista já calejado, passa por suas próprias memórias vendo as cabeçadas do menino ingênuo e novato que era há 23 anos.

– Minha primeira matéria foi fora de São Paulo. Fui pautado para descobrir uma colônia japonesa em Aracajú (Sergipe), para uma matéria especial na revista do BAS – sobre a comemoração dos 80 anos da colônia japonesa. Foi até engraçado. Na época eu era moleque de tudo, sem experiência nenhuma. Era minha primeira reportagem e eu não tinha malícia de nada. Tinha aqueles medos normais de não saber direcionar a pergunta para a pessoa. E outra, eu nunca tinha saído de São Paulo, esta era a primeira vez que eu andava de avião. Fui parar em Sergipe para ficar três dias e estava totalmente despreparado. Só tinha roupa de frio na mala e lá fazia um baita calor.

– E como se achou ao chegar lá?

– Chegando lá, tinha uma equipe me esperando. Fui recepcionado pelo gerente da agência do Banco América do Sul de Aracajú-SE. Fiquei até meio envergonhado, porque para eles era importante alguém de São Paulo fazer entrevista, eles pensavam: “Ohh, é um repórter enviado de São Paulo”.

Ao contar suas histórias, ele fala tão rápido e com diversos acontecimentos ocorrendo no mesmo tempo narrado que por vezes se torna difícil acompanhar o raciocínio de forma linear, sem perder o ponto que é preciso detalhar. Seu jeito animado e inquieto, o torna um admirável contador de histórias da vida real. Vicent conta tudo de um jeito tão impressionante que a primeira coisa que se imagina é que se está ao lado de uma personalidade – há a pretensão de uma entrevista no Programa do Jô.  Enquanto conversamos a caminho dos endereços de suas pautas fotográficas, às vezes se dispersa de nosso papo e ajuda a motorista do carro a encontrar o local, e em tom de brincadeira diz:

– A senhora fique tranquila que já, já chegamos ao lugar certo, depois acaba e a senhora não vai precisar mais me aguentar no carro.

– Imagina, eu adoro ouvir pessoas inteligentes.

Vicent tem esse dom de cativar as pessoas, é um “maximizador”, consegue transformar as aventuras de sua vida em um grande livro que, mesmo sem uma página escrita, já envolve o leitor de tal maneira que não seria difícil imaginar uma fila de seus curiosos espectadores querendo adquirir sua biografia. Todo este fascínio que exerce sobre aqueles ao seu redor se explica através de seu olhar que, neste caso, transcende a fisionomia física e enxerga além de estereótipos. O olhar já treinado pela profissão de fotojornalista poderia estar defasado, mas Vicent trata cada foto como um momento único e especial. E é este o segredo que leva do trabalho para a vida. As pessoas para ele não são meros figurantes de suas fotografias. Seu olhar carrega afeição. Sua passagem pelas pessoas é marcante e transmite àqueles dos quais se aproxima a sensação de unicidade. Por mais simples e rápido que seja o contato, consegue trazer a um momento tão passageiro uma aproximação especial. Como diria Joseph Campbell em O poder do Mito: “a pessoa cheia de vitalidade exerce uma influência vitalizadora”

Pensando e se equivocando com o que é ser jornalista…

Impressões de uma universitária em fim de curso e início de carreira são apresentadas e compartilhadas pela autora do post

Por Viviane Shinzato
 

Levando em conta que a prática do jornalismo se dá no exercício de ouvir, transmitir as memórias e entender as pessoas, esta não pode ser uma prática que se resume a tradução de depoimentos. Estudar em uma faculdade de jornalismo pode, a depender do ponto de vista, ser o treino para o colhimento de informações e falas alheias, mas também pode ir além e significar a recusa desta como principal função que, apesar de ter espaço no mercado de trabalho, não representa o fazer jornalístico.

Ao entrar na faculdade, sem saber ao certo o que será estudado, os pensamentos sobre a profissão e a atuação de um jornalista são vagos, por vezes muito pontuais ou até mesmo amplos demais. Ao escolher a profissão, eu pensava em transformação do mundo ou de, pelo menos, algumas coisas erradas que acontecem. Ao longo dos meses, a percepção muda e o contato com os professores nos faz pensar mais e de forma realista, nos abrem caminhos para entender o que pode ser jornalismo e como podemos praticar. Percebi que por todos estes meses de aula, os professores, em sua maioria, nos treinavam para aprender a pensar o que hoje percebo já ser parte de mim: a vontade de conhecer o desconhecido, como Campbell ressalta em O Poder do Mito “os mitos abrem o mundo para a dimensão do mistério, para a consciência do mistério que subjaz a todas as formas”. (CAMPBELL, online, p.44)

Hoje entendo que cada passo dado durante os anos de estudo me fizeram pensar e analisar o mundo, a vida e as pessoas de forma diferente. Se o entendimento de Campbell para o mito valer a comparação com os mestres que encontrei durante as etapas da faculdade, certos professores seriam os mitos que Campbell (p.22) cita como sendo histórias sobre sabedorias de vida. Por vezes, a Universidade me dá a impressão de ser um campo do saber técnico, no entanto, muitos professores que tive contato souberam conduzir as aulas, não como acúmulo de informações e tecnologias, mas, como um caminho que, como diz Campbell, “indica os valores de vida de seus assuntos”. (CAMPBELL, online, p. 22)

Entendo que o jornalista não é apenas o generalista que deve entender as informações para repassá-las, ou aquele ser que lida com a organização de problemas a serem transmitidos em público; o jornalista precisa ser, antes de tudo, humano em sua essência. A melhor coisa, ou uma das melhores, que aprendi com o jornalismo é a prática de como ver a vida, aquela prática que só se percebe quando entramos em um lugar e deixamos que o ambiente propicie-nos a experiência. Entrar em cada lugar e sair com algo a mais, sem descartar a experiência obtida, de modo que volte ao outro lado trazendo consigo algo do outro tempo e contato vividos, é uma maneira de transformação da consciência, bem como a exemplificada por Joseph Campbell.

Apenas como exemplo: eu caminho pela Rua 51 e pela Quinta Avenida, e entro na catedral de St. Patrick. Deixei para trás uma cidade muito agitada, uma das cidades economicamente mais privilegiadas do planeta. Uma vez no interior da catedral, tudo ao meu redor fala de mistérios espirituais. O mistério da cruz – o que vem a ser, afinal? Vejo os vitrais, responsáveis por uma forte atmosfera interior. Minha consciência foi levada a outro nível, a um só tempo, e eu me encontro num patamar diferente. Depois saio e eis-me outra vez de volta ao nível da rua. Ora, posso eu reter alguma coisa da consciência que tive quando me encontrava dentro da catedral? (CAMPBELL, online, p. 29)

Show de horror: a gente vê por aqui

 

 Depois de muita crueldade transmitida em rede nacional, percebi por meio de redes sociais, que alguns brasileiros se comoveram com a prática do rodeio. Poxa, como o país evoluiu, não?Para que uma parcela da sociedade fique indignada com a prática do rodeio é preciso ver o sensacionalismo em sua pior essência, nos piores dos casos. É preciso assistir a cenas chocantes, ver e rever fotos do momento em que um peão quebra o pescoço de um bezerro, esperar os telejornais relembrarem os maus tratos corriqueiros na arena, ver a Record frisar a cena no exato momento do “acidente”, assistir o jornal da tarde mostrando que outros locais também praticam maldades com animais e, por fim, ver que já é do conhecimento de todos o que acontece nos bastidores dos rodeios. Será mesmo necessário tudo isso para que consigamos refletir sobre maus tratos a animais?

Fico indignada em ver que em pleno século XXI ainda seja necessário o uso de crueldade e brutalidade para distrair o povo, como se vivêssemos o efeito retrógado e para cada pequena evolução alcançada, voltam-se algumas décadas. Voltamos às práticas do Império Romano, mas agora de forma muito pior, pois vivemos o tempo dos homens evoluídos, mas agimos como seres da antiguidade. Devem haver estudos que revelam este lado sádico da diversão violenta que é parte da essência de alguns “humanos” (com aspas se levarmos ao sentido de racional, mas sem aspas na sua mais profunda conotação: essência podre).

Como intitular “diversão” aquilo que mais parece um show de horror? Com qual finalidade um homem – que se diz um ser pensante – precisa montar em um animal de forma violenta, repleta de ignorância, e ainda assim ser aplaudido por uma plateia que urra a cada resistência do peão montado no animal?Animal também sente dor, mas quem se importa? Se nem sua liberdade de viver é respeitada, quem dirá seus sentidos e sentimentos… O maior problema do animal é não ter como revidar a escravidão de uma classe que simplesmente inventou que Deus a fez superior.

O mais irritante é saber que o show de horror é revelado publicamente e não há providências, não existem grandes punições e, por vezes, não há ninguém que possa intervir. As Associações Protetoras dos Animais ainda são fracas e impotentes para fazer justiça em casos que movem dinheiro, estas entidades são ínfimas perto daqueles que negociam as regras do país.A verdade é que ninguém se importa. Ontem as imagens causaram impacto, hoje foram repetidas e amanhã serão simplesmente esquecidas. Infelizmente a mídia determina o tempo da nossa memória, vale ressaltar, nossa curta memória de ser humano e brasileiro. Alguns dias depois tudo volta ao normal, os mesmos artistas voltam ao palco, mais animais voltam à arena, novos ignorantes financiam o show de horror.

Será que o sertanejo universitário, bem como a música caipira, dependem exclusivamente do público do rodeio para fazer show?se assim for, está na hora de repensar a carreira….

image da campanha contra rodeio do site animais.org

Hoje me vi na necessidade de soltar a raiva que senti ao ver na tela a crueldade humana, mesma sensação que deve ter invadido o lar de outras milhares de pessoas. Só é lamentável que estas tantas pessoas horrorizadas, amanhã ou depois se transformarão em alguns poucos que ainda vão se lembrar do ocorrido. O caso do bezerro não precisa ser memorável, bastaria ser apenas significativo para uma conquista: o fim de rodeios.

O Tio que não é da família…

Os olhares de Aluísio estão atentos.  É um que entra, outro que sai; um carro que chega enquanto outro se vai.  Às sete, às  oito e às nove da noite, o vai e vem é constante, a  movimentação é grande e mais alunos chegam para a aula de inglês. Tio Aluísio, como é conhecido entre alunos e funcionários, simpático e sorridente recebe todos que por ali passam, até mesmo aqueles que, já habituados ao seu vício, se aproximam em busca de cigarro.

Vigia da escola de idiomas de um bairro periférico há cerca de quatro anos, e porteiro de um luxuoso condomínio na região central de São Paulo há quase 20 anos, o “Tio da Wizard” já viu muita gente passar por sua vida, desde artistas que visitam moradores do condomínio até ladrões vizinhos da escola, sendo que grande parte deles são seus conhecidos, já que mora há mais de vinte e cinco anos no mesmo bairro da escola.

Entre as tantas pessoas que por ele passam está seu filho Guilherme, de 16 anos, que pilota a moto do pai sem carteira de motorista e aparece sempre para lhe pedir dinheiro e pegar emprestado o celular, que coincidentemente são elementos – junto ao maço de cigarro e as balas de hortelã – que nunca faltam no bolso do pai.

Filho pedindo dinheiro e celular, mendigos pedindo cigarro, funcionários pedindo guloseimas e Seu Aluísio fazendo as vontades de todos, sem nunca ter coragem de dizer não. Por trás desta bondade e do sorriso esconde-se uma história muito similar à de tantos outros porteiros e vigias de São Paulo. A dica vem através da fala puxada e dos dialetos engraçados.  Estas histórias têm em comum o ponto de partida inicial: começam no Nordeste, mais precisamente na Paraíba. Ainda garoto e com pouca expectativa de vida, um único lugar parece ser a saída para quem não quer trabalhar com caminhão de areia e corte de cana de açúcar. Partir em busca da cidade grande foi a decisão de Aluísio, que veio morar com os primos que o chamavam para a “cidade dos empregos”. E lá se vai Aluísio, em 1985, um garoto de 18 anos de mudança para São Paulo.

Na capital, Aluísio trabalhou como faxineiro, choppeiro, bar man e, mais tarde, em 1998, foi indicado para a vaga de vigia no condomínio onde trabalha até hoje.  Em São Paulo, Aluísio descobriu os prazeres da vida que seus pais e familiares nunca tiveram condições de lhe oferecer.  O Tio da Wizard nunca foi um homem rico, mas também não tem pudores com dinheiro, gasta sem dó e agrada toda e qualquer pessoa, basta ter o mínimo de contato e ser do gênero feminino . Talvez por isso tenha tantas mulheres competindo sua atenção, que mal se importam com o fato de ser casado. Durante as horas de trabalho, sempre à noite, é que Aluísio encontra o jeito de driblar a esposa e trocar os chips do telefone para conversar com suas diversas “paqueras”.

Despojado e à vontade por me conhecer há anos, ele conta seus casos com as namoradas e as histórias mais cabeludas e engraçadas que já ouvi. Tio Aluísio é mesmo um ícone, uma figura inexplicável que sente prazer em ser bondoso, em agradar e presentear todas as mulheres. Seu dinheiro é aplicado em encomendas de Natura, lanches para quem estiver por perto, agrados para o filho e contas de celular.

“Trimmm, triiimmm, triimmm”…é assim toda vez que paro para uma conversa com Tio Aluísio. A trilha sonora de sua vida é o toque de seu celular com trocentos chips. É quase impossível encontrá-lo disponível, é preciso ficar na espera. Algumas vezes ele dispensa uma das namoradas e abre espaço para nossa conversa de cada noite, mesmo que seja simplesmente um “Oi” e casos ou novidades do bairro. Com o Tio Aluísio pratico meu “momento fofoca” e jogo conversa fora quando não temos novidades.

Seus telefonemas são constantes e as “paqueras” não desistem. Quando cansado das persistentes ligações, Tio Aluísio me passa o celular para ouvir o que se passa do outro lado da linha, geralmente não é nada demais, são apenas trocas de perguntas como num jogo de conquista, no qual o Tio Aluísio está sempre no comando. Repete perguntas como “E o que é que tu faz”, “ “tu acha o quê?”,“cumé?”, “a casa vai cair?”; e a cada repetição me coloca para ouvir as respostas da mulher que nunca sei quem é. Quando não quer atender Tio Aluísio tem uma tática certeira: “Fala você, Vivi, ela vai pensar que é a muié e vai desligar”

Wizard Arpoador, a melhor escola de todas. Aprender inglês é o de menos. Enquanto existir o porteiro simpático, alegre, barrigudo, falador e grande conquistador, esta será sempre a melhor escola da vida, onde se aprende a dar valor aos pequenos – mas não menos importantes – momentos, às histórias cotidianas e à hora da conversação, em português e sem compromisso.

 

Cachorrinha com partes do corpo queimadas precisa de ajuda

Pedimos ajuda para uma cachorrinha que encontramos na rua, perto de uma favela da região que moramos. Ele está com partes do corpo em pele viva. Ela foi queimada com alguma substância quente (óleo ou água) e está com partes do corpo com pele e carne viva, totalmente expostas. Uma colega, que também ajuda muito em causas animais, está com ela em casa, dando os primeiros socorros e vem contando com a boa vontade de um veterinário  que também se mobiliza nestas causas e faz o que pode para tratar dos animais.

Estamos sempre nos envolvendo com estes casos de retirada de animais da rua para possíveis adoções. Dias atrás ajudamos um outro cachorro de rua, que estava sem movimento nas patas traseiras. Fizemos rifa a fim de arrecadar dinheiro para o tratamento, mas, infelizmente, mesmo depois de tudo, não deu certo e ele precisou ser sacrificado. Hoje, não temos mais dinheiro para cuidar de outro animal (também em terríveis condições), não temos mais meios para arrecadar dinheiro e precisamos recorrer a ONGs e protetores que possam nos ajudar neste caso.

A ajuda pode ser até mesmo o contato com pessoas que possam assumir o caso. Alguém precisa adotar a cachorrinha e creio que, em primeiro lugar, seja necessária uma internação ou assistência em clínica veterinária que faça parte de ONGs ou que façam trabalhos de assistência.

As consultas veterinárias ajudam, mas ainda assim precisam ser frequentes, precisamos mesmo é encontrar uma clínica para interná-la, como os próprios veterinários aconselharam até o momento. A questão que dificulta neste caso é o valor cobrado por internações de veterinários. Se a internação se resumir a um valor fixo para ser pago ao fim do tratamento, tudo bem, mas as clínicas cobram por DIA e não há doação que dê conta de pagar diariamente. Recebemos algumas doações e outras ajudas com produtos e materiais usados na limpeza da cachorrinha, mas todo dia a Mirian usa a pomada na cachorrinha e a cada semana vai 2 tubinhos de pomada. Para os que puderem ajudar, seguem os meios:
Contatos:
Fones: 11 3782 5006 /11 9161 411511 / 3397 4530
e-mail: vivis.shinzato@gmail.com
ou vshinzato@prefeitura.sp.gov.br

Mirian (SP)
tel celular OI: 11 6208-6297
Vivo: 11 7235-2352
Fixo: 11 3497-3552
Do Davi: 11 6999-7799 / 11 3785-2316
Conta para quem quiser contribuir
Banco do Brasil
Ag.0637-8
C.C 804-4
Mirian da Silva Ferreira

cachorrinha queimada na parte traseira do corpo