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A viagem quase perfeita

Os olhos estão cheios d’água, o arrepio percorre os braços abertos, um incontido sorriso de emoção escapa entre os lábios trêmulos divididos entre o choro e a alegria. Um grito de felicidade e a corrida para o abraço coletivo. Um momento talvez banal em tantos aeroportos e rodoviárias, mas que só sabe explicar quem vivenciou a experiência de estar, por menor tempo que seja, entre rostos e traços desconhecidos, comportamentos estranhos e olhares nunca vistos.

Após 24 dias entre trens e aviões, horas e horas sentada e sem dormir direito Flávia Martins, uma jovem de 25 anos, de volta de suas aventuras de mochileira pela Europa, lembra o sufoco que passou na companhia de sua tia Mônica Martins, 32, para conseguir embarcar de volta ao Brasil.

Depois de visitar Birmingham, Nottingham, Stratford, Liverpool, Salisbury, Londres, Irlanda e a capital Dublin, Irlanda do norte e a capital Belfast, e por fim, Escócia chegava o momento de retornar à cidade de Birmingham na Inglaterra. Enfrentar 7 horas de trem, pegar o avião rumo ao aeroporto de Amsterdã, suportar uma hora de voo, e aguardar o momento de embarcar para o Brasil era, aparentemente, o procedimento comum. Às 20h Flávia e Mônica chegam a Amsterdã e recebem a primeira surpresa da noite: deveriam esperar mais quatorze horas no aeroporto se quisessem voltar ao Brasil no próximo voo, marcado para as 10h da manhã seguinte.

O brilho da lua anuncia o cair da noite enquanto as luzes da cidade se apagam, as pessoas se recolhem e os restaurantes e comércios baixam as portas. E, para os que estão em casa, já é hora de se deitar. O cansaço tomava conta de todo o corpo há tantas horas sem dormir, os olhos fechavam lentamente enquanto fantasias e realidades se misturavam como obra do inconsciente. O relógio era ingrato, as horas demoravam a passar e, durante cada minuto que lhe parecia a eternidade, Flávia sonhava acordada com seu lar em Cotia-SP, com o abraço da família, o reencontro com o namorado e a vida que levava no Brasil. “Foi uma madrugada difícil, só ficava mentalizando a minha caminha. Por um milagre sobrevivemos ao tédio e estávamos embarcando rumo ao Brasil”.
A sensação de poder levantar da poltrona, sair do avião e finalmente pisar em solos brasileiros foi, se não o melhor, um dos melhores momentos da maratona de viagens que teve início em 29 de julho de 2011, quando Flávia concluiu a faculdade.

Retrospectiva

O entusiasmo para a tão sonhada viagem começou no início de 2011, durante as aulas de inglês que fazia com sua tia. Os laços de amizade e confiança fizeram Flávia se alegrar com a possibilidade de viajar ao lado de Mônica, que além de uma grande amiga, é professora de inglês e a ajudaria a enfrentar dificuldades relacionadas ao idioma. Terminada a faculdade e finalmente decretadas as férias de julho, chegava o momento de conhecer o mundo ou, pelo menos, algumas partes como Inglaterra e outros países da Europa. Prestes a sair do país pela primeira vez, sem saber ao certo como agir e com a mente cansada pela fase de defesa de TCC, Flávia não teve muito tempo para pesquisar mais, pensar o que fazer e como se preparar para viajar no dia seguinte.

Em suas viagens pela Europa, a jovem descobriu alguns fatores negativos em que não havia pensado: “Antes de viajar, mesmo sabendo que a nossa moeda comparada com o Euro e a Libra é bem desvalorizada, na minha inocência achava que iria conseguir conhecer todas as atrações turísticas, comprar alguns presentes mais caros, e ainda não gastar todo dinheiro que levei. Doce ilusão, porque no final da viagem se ficasse mais um dia pelo menos, a minha família iria ter que me auxiliar. Mesmo fazendo mochilão, ficando hospedada em albergues, quase não comia em restaurantes, enfim, sem gastos excessivos, não foi uma viagem muito barata”.

Dificuldades enfrentadas

Antes de partir, Flávia confessa que preparar as malas também é uma tarefa difícil, principalmente para as mulheres que têm vontade de levar o armário, e, sabendo que chegaria à época do verão, a jovem arrumou a mochila só com roupas da estação, sem imaginar que esta bolsa se tornaria um empecilho em suas caminhadas: “Tivemos que comprar blusas e cachecóis para aguentar as temperaturas baixas. E as roupas que levamos praticamente não foram usadas, porque levamos mais roupas de verão, que só serviram de peso na mala, o que acabou sendo um ponto negativo na viagem, porque como estávamos fazendo mochilão, era ruim ficar carregando peso extra para vários lugares”.

Acostumada ao verão brasileiro, Flávia sentiu o choque de temperatura logo nos primeiros dias e, durante duas semanas, ficou doente e com dor de garganta. A diferença na  temperatura foi uma surpresa traumatizante para quem pretendia descansar e aproveitar o sol em praias distantes, e em suas memórias o frio ficará guardado como um dos fatores mais marcantes da aventura. Flávia conta que nem imaginava o quanto o verão poderia ser frio e diferente do que conhecia: “Ficamos curiosas e perguntamos para algumas pessoas sobre o clima e quase todos diziam ‘o nosso clima é sempre assim, uma merda’, e respondiam literalmente com essas palavras, e também disseram que quem tem dinheiro normalmente passa o verão em outro país, como Itália, Espanha que são países mais quentes”.

Com tantas surpresas, porém infelizes, outro ponto que deveria ser lembrado como um dos melhores momentos da aventura provavelmente aconteceria no encontro com os estrangeiros hospedados no mesmo local. Situado em uma região industrial e com um clima bem jovial, colorido, o albergue escolhido parecia um ambiente interessante para jovens em busca de novas experiências. Flávia e sua tia já haviam pesquisado na internet e, pelos relatos de outros viajantes, parecia um lugar de bastante interação. Características estas que não tiveram a chance de conhecer. “Agora com tanta tecnologia, ninguém desgrudava de seu celular, notebook… até tiveram algumas pessoas confabulando no albergue, dizendo que ninguém interage mais pessoalmente, somente nas redes sociais”.

Flávia saiu de seu país ciente de que os hábitos alimentares não seriam os mesmos, que nem tão cedo comeria arroz e feijão e não veria comida com tanta facilidade. Por vezes, se adaptou aos lanches, fast food e congelados – hábitos comuns em refeições no Reino Unido – já que não tinha condições de recorrer a restaurantes de outras culinárias, geralmente com preços abusivos.

Passeios e paisagens

Um brilho no olhar em cada palavra dita, os gestos de quem busca nas palavras uma forma de expressar a emoção vivida, e a tentativa de revelar ao mundo das palavras aquilo que um dia os olhos avistaram. Fotos, diário de viagem e longas descrições. Flávia volta no tempo e abre seus sentidos para relembrar as paisagens deslumbrantes e cidades em que os pés, cansados de andar, pisaram pela primeira vez.

Paisagens, cidades turísticas, agitação, tranquilidade e monumentos históricos. Tudo nas proximidades de um só lugar, com direito a visitas em quatro cidades e enriquecedoras descobertas. A chegada em Birmingham representava economia e boa localização para as próximas experiências. A começar pela romântica terra de Shakespeare, Stratford, a primeira paixão de Flávia. Decorações turísticas e paisagens, misturas do velho e novo, belas construções e atrações encantadoras ganham destaque especial nas memórias da viajante. Durante sua passagem por Stratford, o tradicional evento River Festival reunia muitas famílias e tornava o roteiro de viagem mais especial. A cidade de Liverpool, também conhecida pelos Beatles, oferecia um ambiente jovem, mas organizado, com mais agitações.

A terra de Robin Hood também não poderia ficar para trás, Nottingham oferece a cada espaço a oportunidade de reviver o personagem, visitar seu castelo, assistir às dramatizações realizadas em meio ao publico e percorrer o tour totalmente dedicado ao herói.

Na próxima parada, em Salisbury, Flávia conhece o monumento Stonehenge, uma estrutura de pedras com aproximadamente 5 metros de altura, envolto de mistérios em sua origem e função. Para a jovem é uma sensação incrível ver de pessoalmente este monumento que ninguém sabe como foi feito. “Existem várias lendas sobre Stonehenge, lá podemos ouvi-las através de um áudio tour em diferentes línguas, mas é claro”, brinca Flávia, “menos em português”.

Chegando ao fim da maratona de viagens faltava passar pela tão esperada Londres. Com o pensamento distante de quem busca na memória a tentativa de explicar a imagem vista, ela lembra: “Quando vi o Big Ben”, prossegue com um sorriso encabulado, “dei até um grito, de tão suntuoso e diferente  que é, se compararmos com a arquitetura do nosso país”.

Mesmo com tanta euforia, a estadia de quatro dias em Londres não foi das melhores. “Acabou sendo a estadia mais cara da viagem, se levar em conta o pouco tempo que ficamos, e a pior em termos de qualidade, já que os quartos dos albergues eram minúsculos, sem ventilação, as camas pareciam de um presídio, a única coisa boa”, ressalva, “é que eu estava na região central e pude conhecer os principais pontos turísticos”. Sair de São Paulo para conhecer Londres pode não significar muitas surpresas ao viajante que espera encontrar um lugar totalmente diferente. Segundo Flávia, as diferenças não se destacam em grande escala. Por ser Londres uma cidade com turistas e imigrantes das mais diversas fronteiras, “acaba perdendo um pouco sua essência, é um pouco suja, violenta. O interessante é que Londres foi o primeiro lugar em que vimos brasileiros, e, tirando os monumentos importantes, não se difere muito de São Paulo”.

As experiências e os dias vividos longe de casa, Flávia garante, “foram momentos únicos, de felicidade, medo, insegurança, uma mistura de emoções, que sempre serão lembrados, através de fotos, vídeos e na minha própria memória, através de cheiros, paladar”. Ao refletir sobre os dias de aventura, a jovem é incisiva e deixa a mensagem que aprendeu em sua viagem quase perfeita: “Nós temos que agradecer todos os dias pela diversidade e fartura que temos em nosso país”.

 

 

 

Terreno com caçamba de lixo da Prefeitura vira ponto de descarte irregular em Ibiúna

Diariamente animais são abandonados, morrem atropelados à beira da estrada e permanecem expostos até a fase de decomposição

Por Viviane Shinzato

À beira de uma estrada movimentada na região de Ibiúna – na estrada do Verava, mais precisamente no km 56 da Bunjiro Nakao – uma caçamba de lixo comunitário da prefeitura faz do terreno ao redor um ponto vicioso de descarte irregular de entulho.

Objetos de diversas origens, tanto lixos domésticos, como entulhos, transbordam pela caçamba e ocupam as redondezas. Ali, cachorros são abandonados semanalmente e rapidamente procriam. Em condições de vida miseráveis, perambulam pelo terreno poluído, espalham e rasgam os lixos em busca de alimentos. Diariamente, animais são atropelados por veículos que passam em alta velocidade, e sem qualquer tipo de socorro, morrem no terreno à beira da estrada.

Os corpos permanecem jogados durante vários dias, por vezes, até semanas, e aos poucos entram em estado de putrefação. À distância de alguns metros, mais afastada da beira da estrada, avista-se uma casa simples, habitada por uma família, que, de forma precária, se sustenta com o material reciclável que tira do lixo e entulho jogados no mesmo quintal.

As crianças da casa andam descalças, brincam pelo terreno sujo e contaminado, e convivem entre as fezes, os corpos de animais e os restos de lixos espalhados. Os despejos vão desde utensílios domésticos, carrinhos de bebê, garrafas plásticas, materiais de construção, brinquedos, vestimentas, calçados a produtos químicos altamente poluentes, como galões com restos de óleo diesel usado, eletrônicos, pilhas, pneus e até lâmpadas fluorescentes quebradas.

Os moradores do terreno já se habituaram ao mau cheiro e aos resíduos que aumentam a cada dia. A população de Ibiúna se sente impotente diante do problema, e alguns viajantes ajudam como podem, levando mantimentos à família, rações aos animais e até mesmo, improvisando abrigos com materiais (madeiras, ferros, latas, panos) descartados. Este é o caso de Angela Migatta, 55, professora aposentada, proprietária de uma chácara nas proximidades.

Todo final de semana, a aposentada viaja com o marido e as filhas, de São Paulo à Ibiúna, e passa pelo local para dar assistência aos animais abandonados. Angela, junto à sua família, leva água, ração e levanta espécies de barracas na intenção de proteger os animais da chuva. “Fico comovida com a situação e acho que as autoridades deveriam tomar providências como recolher os animais e levá-los a abrigos de doações, fazer campanha de castração e divulgar melhor, porque as pessoas nunca estão informadas de quando vai acontecer [a castração]”.

Visitante da cidade de Ibiúna há mais de dois anos, Angela se diz indignada com o que presencia a cada viagem e acredita ser este um problema social de longa data. “Não tem como ver aquilo e não se envolver. O que eu faço ainda é o mínimo perto do que precisa ser feito, mas a verdade é que a prefeitura não se importa. Outras pessoas já falaram que tudo continua igual era antes, que isso [o terreno] sempre foi assim. Inclusive já vi pessoas atearem fogo ao lixo que sobra da caçamba e, também, restos de animal queimado, porque as pessoas sabem que ninguém virá para recolher”.

Angela lembra que já viu o fogo se propagar até a altura da pista, e diz que é perigoso o risco de incêndio, principalmente em tempos mais secos. “Não existe nenhum controle, o fogo se alastra rapidamente. Existem postes ao redor, é um terreno cercado de muito mato e restos de madeiras.”

A Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Ibiúna, em resposta por e-mail, afirma que a Secretaria do Meio Ambiente verificou a situação local e comunicou a empresa responsável pelas caçambas para recolher o lixo. A assessoria de imprensa alega que, no momento, esta é parte que cabe à Prefeitura, e, caso a empresa não apresente soluções, medidas judiciais entram em vigor.

No entanto, o problema não parece algo simples de ser resolvido. A assessoria afirma que algumas famílias vivem da reciclagem, e, ao procurar objetos na caçamba, descartam os lixos na rua e no terreno ao redor. A Prefeitura de Ibiúna diz que trabalha intensivamente com campanhas de conscientização, e destaca a questão do lixo como algo recorrente em outros pontos do município.

Cruzando as águas do mundo I

Doze dias atravessando os mares, cruzando as águas do mundo entre Itália, Espanha, Portugal e Brasil, com a mesma finalidade que atraia cerca das 1.800 pessoas que viajavam na mesma embarcação: a esperança de uma vida melhor no exterior. Em meados da década de 60, aos 20 anos de idade, Tommaso Lipari partia de sua terra natal na cidade de Alcamo, região da Sicília – Itália com malas prontas para uma grande viagem que só terminaria no Porto de Santos, São Paulo.

Jovem, corajoso e pronto para enfrentar a vida, aceitou os convites da parte da família italiana já residente no Brasil e veio para São Paulo morar com os tios e avós, a fim de descobrir o tão sonhado território brasileiro. Na década de 60 a Itália vivia o período pós-guerra e as oportunidades de emprego pareciam escassas e restritas aos trabalhos braçais em fazendas. Já no Brasil, a situação parecia diferente. Seus tios já tinham emprego e carro, os avós tinham casa própria e a vida da família no Brasil prosseguia melhor em relação a sua outra parte deixada na Itália .

Hoje, com os cabelos brancos de um senhor beirando os 70 anos de idade, Seu Tommaso relembra a vida na pequena cidade de Alcamo que ainda hoje deixa rastros em sua fala levemente carregada de um sotaque italiano. “A vida era agricultura, trabalhava na roça, na plantação de uva dos pais, de trigo, aveia, favas, milho, girassol, algodão”

A pele clara com a face rosada entrega as origens européias que acompanham sua família. Filho de italianos tradicionais e sendo o mais velho da humilde família, trabalhou na roça desde sua infância até adolescência, vendo o raiar e o por do sol durante muitos anos. “Tinha que trabalhar, quando o sol aparecia até o sol ir embora, dia a dia. Sábado até umas 15h mais ou menos, andava de charrete porque era a 30 km da cidade, descansava domingo e voltava para a plantação na segunda. Ia de volta para a cidade no sábado.”

Dos 11 aos 20 anos de idade a rotina era a mesma. Às 3h30 da madrugada de cada segunda feira já estava de pé para viajar de charrete com o pai e acompanhá-lo no serviço do campo que ficava no interior, a 30 km da cidade. Durante toda a semana, pai e filho permaneciam na fazenda enquanto a mãe cuidava do lar e dos irmãos na cidade. Aos sábados, o trabalho seguia até as 15h. Domingo era o dia que restava para descansar em casa e se divertir um pouco na cidade antes de voltar à plantação na segunda. “De manhã, no domingo, eu limpava o cavalo da família, depois ia para a missa e mais tarde ia passear na avenida. A gente se juntava com os amigos, ficava olhando as meninas de longe. Esse era o nosso passeio naqueles tempos”.

Os tempos eram difíceis, a situação financeira do país não era das melhores e não existia motivação que animasse os habitantes de Alcamo, já cientes da vida que levariam no vilarejo. “Aquele tempo não era legal financeiramente, dava para viver, mas não tinha posse, não tinha dinheiro, carro, nem nada. Tinha as terras e, fora isso, só o cavalo e a charrete. Isso era tudo quando alguém casava. Hoje é mais fácil ter as coisas”.

A diversão dos rapazes era sair para a cidade e às 22h00 já era hora de voltar. “Subir e descer a avenida era o passeio, a distração do dia. Se fizesse frio ia para o cinema, era barato – 100 liras naqueles tempos”. Essa vida era privilégio só para os meninos, as moças mal saiam de casa e quando chegavam aos 15 anos de idade a mãe levava a filha à missa por volta do meio dia, já pensando em exibi-la aos possíveis interessados. Tommaso lembra que ficar em casa era ver o pai e a mãe conversando, um ao lado do outro, sem ao menos poder assistir televisão. “A 1ª TV que eu vi foi em 1958”. Nas ruas a turma frequentava os bares da avenida. “Bar na Itália é chique, não é boteco, é tudo limpinho, envidraçado. Como a gente tinha vinho da plantação de uvas em casa, o bar era ponto de encontro para os colegas homens”

Sem grandes novidades a vida prosseguia. Estudar e brincar como toda criança e adolescente, já não eram atividades possíveis. O amadurecimento logo veio e os estudos foram interrompidos na quinta série do primário para dar lugar ao trabalho na fazenda. Os namoros também não eram possíveis, não só pela falta de tempo para sair, mas principalmente pelos costumes antigos, pela rígida educação e hábitos mais recatados dos anos 50-60. As primeiras aproximações vieram aos 16 anos. Os namoros em segredo geralmente aconteciam em festas de casamento, quando dançavam e falavam sobre futuro e interesses em ficar juntos. “O namoro era conversa e não passava disso. A gente se cruzava quando a mãe levava para a missa, quando passava pela avenida, e quando tinha festas para dançar. Se dançava mais de uma vez, já era buchicho feito, a turma desconfiava muito rápido. Esse já era o tal namoro”

Pensando e se equivocando com o que é ser jornalista…

Impressões de uma universitária em fim de curso e início de carreira são apresentadas e compartilhadas pela autora do post

Por Viviane Shinzato
 

Levando em conta que a prática do jornalismo se dá no exercício de ouvir, transmitir as memórias e entender as pessoas, esta não pode ser uma prática que se resume a tradução de depoimentos. Estudar em uma faculdade de jornalismo pode, a depender do ponto de vista, ser o treino para o colhimento de informações e falas alheias, mas também pode ir além e significar a recusa desta como principal função que, apesar de ter espaço no mercado de trabalho, não representa o fazer jornalístico.

Ao entrar na faculdade, sem saber ao certo o que será estudado, os pensamentos sobre a profissão e a atuação de um jornalista são vagos, por vezes muito pontuais ou até mesmo amplos demais. Ao escolher a profissão, eu pensava em transformação do mundo ou de, pelo menos, algumas coisas erradas que acontecem. Ao longo dos meses, a percepção muda e o contato com os professores nos faz pensar mais e de forma realista, nos abrem caminhos para entender o que pode ser jornalismo e como podemos praticar. Percebi que por todos estes meses de aula, os professores, em sua maioria, nos treinavam para aprender a pensar o que hoje percebo já ser parte de mim: a vontade de conhecer o desconhecido, como Campbell ressalta em O Poder do Mito “os mitos abrem o mundo para a dimensão do mistério, para a consciência do mistério que subjaz a todas as formas”. (CAMPBELL, online, p.44)

Hoje entendo que cada passo dado durante os anos de estudo me fizeram pensar e analisar o mundo, a vida e as pessoas de forma diferente. Se o entendimento de Campbell para o mito valer a comparação com os mestres que encontrei durante as etapas da faculdade, certos professores seriam os mitos que Campbell (p.22) cita como sendo histórias sobre sabedorias de vida. Por vezes, a Universidade me dá a impressão de ser um campo do saber técnico, no entanto, muitos professores que tive contato souberam conduzir as aulas, não como acúmulo de informações e tecnologias, mas, como um caminho que, como diz Campbell, “indica os valores de vida de seus assuntos”. (CAMPBELL, online, p. 22)

Entendo que o jornalista não é apenas o generalista que deve entender as informações para repassá-las, ou aquele ser que lida com a organização de problemas a serem transmitidos em público; o jornalista precisa ser, antes de tudo, humano em sua essência. A melhor coisa, ou uma das melhores, que aprendi com o jornalismo é a prática de como ver a vida, aquela prática que só se percebe quando entramos em um lugar e deixamos que o ambiente propicie-nos a experiência. Entrar em cada lugar e sair com algo a mais, sem descartar a experiência obtida, de modo que volte ao outro lado trazendo consigo algo do outro tempo e contato vividos, é uma maneira de transformação da consciência, bem como a exemplificada por Joseph Campbell.

Apenas como exemplo: eu caminho pela Rua 51 e pela Quinta Avenida, e entro na catedral de St. Patrick. Deixei para trás uma cidade muito agitada, uma das cidades economicamente mais privilegiadas do planeta. Uma vez no interior da catedral, tudo ao meu redor fala de mistérios espirituais. O mistério da cruz – o que vem a ser, afinal? Vejo os vitrais, responsáveis por uma forte atmosfera interior. Minha consciência foi levada a outro nível, a um só tempo, e eu me encontro num patamar diferente. Depois saio e eis-me outra vez de volta ao nível da rua. Ora, posso eu reter alguma coisa da consciência que tive quando me encontrava dentro da catedral? (CAMPBELL, online, p. 29)

O Tio que não é da família…

Os olhares de Aluísio estão atentos.  É um que entra, outro que sai; um carro que chega enquanto outro se vai.  Às sete, às  oito e às nove da noite, o vai e vem é constante, a  movimentação é grande e mais alunos chegam para a aula de inglês. Tio Aluísio, como é conhecido entre alunos e funcionários, simpático e sorridente recebe todos que por ali passam, até mesmo aqueles que, já habituados ao seu vício, se aproximam em busca de cigarro.

Vigia da escola de idiomas de um bairro periférico há cerca de quatro anos, e porteiro de um luxuoso condomínio na região central de São Paulo há quase 20 anos, o “Tio da Wizard” já viu muita gente passar por sua vida, desde artistas que visitam moradores do condomínio até ladrões vizinhos da escola, sendo que grande parte deles são seus conhecidos, já que mora há mais de vinte e cinco anos no mesmo bairro da escola.

Entre as tantas pessoas que por ele passam está seu filho Guilherme, de 16 anos, que pilota a moto do pai sem carteira de motorista e aparece sempre para lhe pedir dinheiro e pegar emprestado o celular, que coincidentemente são elementos – junto ao maço de cigarro e as balas de hortelã – que nunca faltam no bolso do pai.

Filho pedindo dinheiro e celular, mendigos pedindo cigarro, funcionários pedindo guloseimas e Seu Aluísio fazendo as vontades de todos, sem nunca ter coragem de dizer não. Por trás desta bondade e do sorriso esconde-se uma história muito similar à de tantos outros porteiros e vigias de São Paulo. A dica vem através da fala puxada e dos dialetos engraçados.  Estas histórias têm em comum o ponto de partida inicial: começam no Nordeste, mais precisamente na Paraíba. Ainda garoto e com pouca expectativa de vida, um único lugar parece ser a saída para quem não quer trabalhar com caminhão de areia e corte de cana de açúcar. Partir em busca da cidade grande foi a decisão de Aluísio, que veio morar com os primos que o chamavam para a “cidade dos empregos”. E lá se vai Aluísio, em 1985, um garoto de 18 anos de mudança para São Paulo.

Na capital, Aluísio trabalhou como faxineiro, choppeiro, bar man e, mais tarde, em 1998, foi indicado para a vaga de vigia no condomínio onde trabalha até hoje.  Em São Paulo, Aluísio descobriu os prazeres da vida que seus pais e familiares nunca tiveram condições de lhe oferecer.  O Tio da Wizard nunca foi um homem rico, mas também não tem pudores com dinheiro, gasta sem dó e agrada toda e qualquer pessoa, basta ter o mínimo de contato e ser do gênero feminino . Talvez por isso tenha tantas mulheres competindo sua atenção, que mal se importam com o fato de ser casado. Durante as horas de trabalho, sempre à noite, é que Aluísio encontra o jeito de driblar a esposa e trocar os chips do telefone para conversar com suas diversas “paqueras”.

Despojado e à vontade por me conhecer há anos, ele conta seus casos com as namoradas e as histórias mais cabeludas e engraçadas que já ouvi. Tio Aluísio é mesmo um ícone, uma figura inexplicável que sente prazer em ser bondoso, em agradar e presentear todas as mulheres. Seu dinheiro é aplicado em encomendas de Natura, lanches para quem estiver por perto, agrados para o filho e contas de celular.

“Trimmm, triiimmm, triimmm”…é assim toda vez que paro para uma conversa com Tio Aluísio. A trilha sonora de sua vida é o toque de seu celular com trocentos chips. É quase impossível encontrá-lo disponível, é preciso ficar na espera. Algumas vezes ele dispensa uma das namoradas e abre espaço para nossa conversa de cada noite, mesmo que seja simplesmente um “Oi” e casos ou novidades do bairro. Com o Tio Aluísio pratico meu “momento fofoca” e jogo conversa fora quando não temos novidades.

Seus telefonemas são constantes e as “paqueras” não desistem. Quando cansado das persistentes ligações, Tio Aluísio me passa o celular para ouvir o que se passa do outro lado da linha, geralmente não é nada demais, são apenas trocas de perguntas como num jogo de conquista, no qual o Tio Aluísio está sempre no comando. Repete perguntas como “E o que é que tu faz”, “ “tu acha o quê?”,“cumé?”, “a casa vai cair?”; e a cada repetição me coloca para ouvir as respostas da mulher que nunca sei quem é. Quando não quer atender Tio Aluísio tem uma tática certeira: “Fala você, Vivi, ela vai pensar que é a muié e vai desligar”

Wizard Arpoador, a melhor escola de todas. Aprender inglês é o de menos. Enquanto existir o porteiro simpático, alegre, barrigudo, falador e grande conquistador, esta será sempre a melhor escola da vida, onde se aprende a dar valor aos pequenos – mas não menos importantes – momentos, às histórias cotidianas e à hora da conversação, em português e sem compromisso.

 

Cachorrinha com partes do corpo queimadas precisa de ajuda

Pedimos ajuda para uma cachorrinha que encontramos na rua, perto de uma favela da região que moramos. Ele está com partes do corpo em pele viva. Ela foi queimada com alguma substância quente (óleo ou água) e está com partes do corpo com pele e carne viva, totalmente expostas. Uma colega, que também ajuda muito em causas animais, está com ela em casa, dando os primeiros socorros e vem contando com a boa vontade de um veterinário  que também se mobiliza nestas causas e faz o que pode para tratar dos animais.

Estamos sempre nos envolvendo com estes casos de retirada de animais da rua para possíveis adoções. Dias atrás ajudamos um outro cachorro de rua, que estava sem movimento nas patas traseiras. Fizemos rifa a fim de arrecadar dinheiro para o tratamento, mas, infelizmente, mesmo depois de tudo, não deu certo e ele precisou ser sacrificado. Hoje, não temos mais dinheiro para cuidar de outro animal (também em terríveis condições), não temos mais meios para arrecadar dinheiro e precisamos recorrer a ONGs e protetores que possam nos ajudar neste caso.

A ajuda pode ser até mesmo o contato com pessoas que possam assumir o caso. Alguém precisa adotar a cachorrinha e creio que, em primeiro lugar, seja necessária uma internação ou assistência em clínica veterinária que faça parte de ONGs ou que façam trabalhos de assistência.

As consultas veterinárias ajudam, mas ainda assim precisam ser frequentes, precisamos mesmo é encontrar uma clínica para interná-la, como os próprios veterinários aconselharam até o momento. A questão que dificulta neste caso é o valor cobrado por internações de veterinários. Se a internação se resumir a um valor fixo para ser pago ao fim do tratamento, tudo bem, mas as clínicas cobram por DIA e não há doação que dê conta de pagar diariamente. Recebemos algumas doações e outras ajudas com produtos e materiais usados na limpeza da cachorrinha, mas todo dia a Mirian usa a pomada na cachorrinha e a cada semana vai 2 tubinhos de pomada. Para os que puderem ajudar, seguem os meios:
Contatos:
Fones: 11 3782 5006 /11 9161 411511 / 3397 4530
e-mail: vivis.shinzato@gmail.com
ou vshinzato@prefeitura.sp.gov.br

Mirian (SP)
tel celular OI: 11 6208-6297
Vivo: 11 7235-2352
Fixo: 11 3497-3552
Do Davi: 11 6999-7799 / 11 3785-2316
Conta para quem quiser contribuir
Banco do Brasil
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C.C 804-4
Mirian da Silva Ferreira

cachorrinha queimada na parte traseira do corpo

Começo do resto do fim

É um tanto estranha a sensação de visitar um lugar no qual você já passou diversas vezes, mas, assim como todos os viajantes, nunca viu nada além daquilo que os breves olhares de dentro do carro lhe permitem ver. As rápidas passagens aos finais de semana não seriam suficientes para imaginar o cenário que ali existia. Um cenário da vida real, com personagens que se apresentam como moradores que, de tão esquecidos, se tornam meros figurantes de uma cena que aparece em todos os palcos da cidade. Esquecidos e descartados como o lixo que compõe seu próprio ambiente, os personagens que dão vida à cena, cada dia mais ganham ar de invisibilidade e se tornam indiferentes aos olhos dos visitantes e habitantes da cidade de Ibiúna.

Ruas sem movimento, quilômetros e quilômetros de vegetação e matos gigantescos que não acabam mais. Eis que surge neste meio – entre mato, terra e asfalto – um vasto e amplo terreno que confunde aqueles que tentam decifrar o que se passa ali. De um lado, uma caçamba de lixo, um toco de árvore entrelaçado por pneus e partes de um cercado de arame largados em um canto; de outro, uma espécie de barraca de madeira desmontada, montes de lixo, matos não aparados, fezes de animais e cachorros abandonados. No meio, um caminho de terra permeado de pedras, matos e restos. Restos do que parecia ser um sofá, restos de pedaços de vidro, de embalagens, brinquedos e tantos outros objetos que, devido à ação do tempo, se tornam irreconhecíveis.

Muros feitos com pedaços de madeira criam uma espécie de corredor que adentra o terreno com a casa. Um olhar de longe dá uma prévia da amplitude do espaço que se tem à frente, mas não te deixa mensurar ou sequer imaginar a diversidade, a particularidade e o mundo de coisas e detalhes que fazem parte daquele horizonte. Sem barreiras físicas que impeçam seguir adiante, a entrada se torna simbólica. Em um ambiente pouco movimentado, onde as pessoas estão sempre de passagem e suas paradas se traduzem em “lixo para as caçambas”, minha presença como observadora logo foi notada.

Desconfiado, mas interessado em descobrir quem era a estranha visita, surge – dos fundos do terreno em direção à frente – um pequeno garoto que enquanto se apresenta equilibra-se com seus pés descalços sobre uma pedra de tijolo. Caminha por entre pedras e fezes de cachorro no pequeno amontoado de lixo, em um dos lados que contorna o caminho de entrada. O garoto, que logo eu descobrira se chamar Richard, contou-me ter apenas seis anos. Perguntei por sua mãe e ele apenas disse: “Estou na casa da minha babá”. Ainda sem compreender o que o garoto explicava, puxei conversa sobre sua mãe, que Richard explicou estar trabalhando – mesmo sendo sábado, e que por este motivo estavam ele e seu irmão mais novo na casa da Nina, a babá, até que sua mãe voltasse para buscá-los mais tarde. Sendo assim, quis conhecer a única pessoa responsável pela casa: a babá do Richard. Mas descobri que ela também não estava e quem cuidava das crianças “no momento” – que durou a tarde inteira – eram as filhas da Nina.

Enquanto olho para o fundo daquele terreno separado pelos cercados de madeira com tábuas, uma jovem levanta o gato até o colo e quando o leva ao chão, olha para os lados e percebe a ausência de Richard, que neste momento conversava com a estranha visita. Acanhada e com visível estranhamento, a menina caminha até mim timidamente e assim responde aos cumprimentos. Informa que Nina, sua mãe, não está. Explico o motivo de minha visita e, sem demora, me convido para entrar e ser apresentada ao lugar, de forma a conhecer tudo que pudesse me mostrar e contar.

A jovem chamada Raíssa revela que morar naquele lugar é “normal”. Certamente não é o que gostaria uma menina de 16 anos que preferiria ter amigos por perto e não viver isolada, rodeada por mato, em um terreno à beira da estrada. Mas, como explica, ela e os três irmãos não tiveram opções, já que sua mãe precisou se mudar com os filhos porque, diferentemente da moradia anterior, neste lugar não se paga luz, água nem aluguel. A garota me mostra a grande área verde de um lado do terreno -um projeto de horta que há pouco funcionava como fonte de renda para os antigos moradores. Ali mantinham uma barraca de verduras até que os negócios falissem por falta de dinheiro para manter a plantação.

Em contraste com o verde da horta, o dourado dos pelos brilham à luz do sol. Desconfiada com minha chegada, a cadela se volta para seus dois filhotes que restaram da cria, os poucos que ainda não tiveram o trágico destino reservado aos animais que circulam naquele espaço, onde o fim do terreno e o começo da estrada são quase imperceptíveis. Nascer, procriar, morrer atropelado e apodrecer à espera do recolhimento do corpo, este é o destino comum a todos esses animais.

Uma caçamba carrega um mundo de subjetividades, e acrescenta àqueles que com ela convivem histórias impressionantes em que o ponto de partida e retorno está sempre ligado ao lixo. Neste lugar, animais mortos, e também vivos, são jogados como uma extensão daquilo que se pode descartar. Um exemplo vívido na lembrança de Raíssa é o que sua mãe conta sobre um tempo passado, quando naquela caçamba o corpo de um homem amanhecera entre os lixos.

A existência da caçamba não se resume simplesmente ao espaço físico, mas ao modo como interfere e influencia nos modos de vida, na relação pessoa-ambiente. Os canteiros de lixo não se restringem apenas às proximidades da caçamba – onde a maior parte se concentra – mas continuam por todos os espaços e seguem até o último metro quadrado, desde a divisa com a estrada até os fundos da casa – talvez o quintal.

Material de construção estragado, pé de bota meio enterrado, par de sapatos infantis, carrinho de bebê, embalagem de cigarro, garrafas, pedaços de cano, pote de shampoo, relógios petrificados, móveis, microondas, geladeira, ferro de passar, carrinho de brinquedo, colchão rasgado, e tudo o mais que se pode imaginar, até mesmo o inimaginável, como uma grande porca em um pequeno canteiro de madeira.

A porca é mais uma habitante daquele cenário, mas, ao contrário dos outros animais, não tem o direito de circular, e, assim como os outros moradores- pessoas e animais, nem sempre tem o que comer. A alimentação é como a dos cachorros. Só acontece quando um viajante comovido faz sua doação.

Na casa o cenário é diferente. Já não há móveis espalhados, objetos revirados e a bagunça que se encontra a poucos metros dali. A construção é simples, sem acabamento, com paredes ainda no cimento bruto e cômodos diminutos. Um puxadinho faz-se lavanderia, dá entrada à cozinha, que está ao lado da sala e de frente para dois quartos. Vindo de um dos quartos ouve-se o choro de uma criança, um som então calmo, mas que se torna estridente ao passo que me aproximo. O bebê, de menos de um ano, assim como o irmão Richard, aguardava a mãe na casa da babá, sob os cuidados das filhas da babá, as gêmeas Raíssa e Thaíssa.

O cenário de lixo e miséria pode parecer para muitos, à primeira impressão, o local onde a vida termina. Já perto da despedida, depois do Richard e seu irmão, de Raíssa e Thaíssa, depois de gatos, cachorros e a porca … chego a outra reflexão.  Acabo de perceber que ali é tudo ao mesmo tempo: onde o mundo termina em restos, mas sobretudo, onde vidas começam.