Archive for the 'Jornalismo' Category

Museu dos óculos é o primeiro e único de toda a América Latina

Acervo tem réplicas de modelos do século 13 e 18

Quando a coleção particular de Miguel Giannini ficou grande demais para ser apenas um passatempo, era hora de transformar a paixão em exposição. Em 2001, ao adquirir o imóvel onde funciona o Centro Ótico, na Rua dos Ingleses, os óculos de sua coleção viraram peças do único Museu dos óculos na América Latina. Hoje o acervo tem cerca de 600 peças, sendo 200 em exposição. A rica coleção tem réplicas de peças raras chinesas que datam 500 anos a.c – podendo ser considerado o primeiro modelo de óculos do mundo. Peças como os óculos usados por Santos Dummond; modelos extravagantes – com destaque para os de cortininhas acima da armação para disfarçar as lentes, entre outras preciosidades, como o modelo usado por Elis Regina, tornam o passeio cultural e divertido. A coleção de Giannini possibilita ao visitante uma verdadeira viagem no tempo contando a história da humanidade através de lentes que refletem o mundo há mais de sete séculos.

Endereço: Rua Dos Ingleses, 108.

Bairro: Bixiga

Tel.: (011) 3149-4000

Mais informações: www.miguelgiannini.com.br

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1 homem e 25 cachorros

Mecânico Carlos Alberto convive com os cães abandonados que abriga em sua oficina na zona oeste de São Paulo

 Por Viviane Shinzato

Maloqueira, Pé de galinha, Pé de porco, Madonna e por aí vai…a lista não para por aqui. São mais de 20 cachorros com os mais estranhos nomes. O dono de toda bicharada, o mecânico Carlos Alberto David, 47, explica que os apelidos têm fundamento. A Maloqueira assim foi chamada por sua mania de escapar em busca de saco de lixo na rua. O nome Madonna não é – como muitos imaginam – exatamente uma homenagem a cantora, e sim pelo movimento engraçado das patas que a cachorra exibe em cima dos carros da oficina de Carlos, como se estivesse dançando.

Entre broncas, abraços e carinhos, o mecânico cuida dos 25 cachorros – 20 adultos e 5 filhotes – que atualmente vivem em seu ambiente de trabalho, uma oficina no bairro Parque Ipê, na zona oeste de São Paulo. Carlos cuida de todos da maneira como pode, muitas vezes fazendo até o que não pode. Para sustentar os animais, todos de porte médio-grande, mensalmente retira cerca de 70% de sua renda na oficina para sacos de rações e eventuais medicamentos veterinários. Toda semana, relata, os cachorros comem 6 sacos de 15kg, o que resulta em um gasto mensal de R$600,00.

Dois ambientes construídos com cimento e uma parte a céu aberto cercada com alambrado. No total, são três espaços no mesmo terreno destinados a abrigar e separar os cachorros mais antigos dos mais novos.

Ao longo de 5 a 6 anos de existência, cimento, concreto e alambrado fizeram parte da construção da oficina que aos poucos ganha formas de um canil. As cifras na vida de Carlos são altas, mas infelizmente não representam lucro. Mais da metade da renda que recebe está comprometida em gastos com animais.  Em serviços de construções, inclusive de repartições dos cães, já se foram R$26.000,00; na compra de rações e medicamentos, uma impressionante dívida de seis mil reais, quitada aos poucos. Revoltado, o dono da oficina explica não ter mais condições de investir e tampouco abrigar novos cães. “Já tive que aumentar o muro da oficina para não jogarem mais crias aqui para dentro. Ninguém me ajuda, ninguém quer cachorro, pago tudo com dinheiro do meu bolso. Vendi meu palio 2002 para pagar o banco”.

Rotina

Às 7h30 da manhã Carlos entra na oficina e segue até as 9h30. Limpa a sujeira, troca a água, repõe a comida, lava o terreno e, depois disso, está pronto para iniciar o serviço de mecânico que, por vezes, se torna impossível não misturar com o ambiente dos cachorros. Por volta das 18h dá uma pausa no trabalho e volta aos cuidados animais. “Limpo, dou comida, vejo quem tá com carrapato, cuido das orelhas, dou remédio, porque um deles tem ataque epilético e toma gardenal e então começa tudo de novo. É correria”.

O trabalho de mecânico encerra entre 18h e 19h, horário em que Carlos volta para o apartamento em que mora a poucos kms da oficina, toma um banho, janta, dá uma “desmaiada no sofá” e volta para o trabalho, agora, para se dedicar aos animais. “Saio daqui todo dia meia noite, uma da manhã”.

Na véspera de Natal, Carlos, como de costume, organizou todos os detalhes, conferiu água, acomodação, limpeza deu até ração especial como presente para todos. Depois de todo ritual estava livre para voltar à ceia na companhia da esposa. Dez horas, onze horas, meia noite e… junto aos fogos de comemoração… um recado para o dono da oficina: os cachorros estão brigando. Lá se vai o sossego e o pai dos animais corre para oficina ver o que está acontecendo: “Quase de madrugada e eu aqui separando briga, até levei mordida”, lembra.

Problemas

Tanto zelo e carinho por animais por vezes prejudicam, é claro, a vida pessoal e até mesmo profissional. Atenção à esposa ele mesmo assume já não ter condições de oferecer e, em tom de brincadeira, revela: “Já viramos irmãos”. Clientes menos habituados aos cães desaparecem, talvez por não gostarem de cachorros por perto ou, como já ocorreu, por receio de algum risco no carro – mesmo que seja polido sem custos. “Alguns clientes tem nojo de cachorro, já perdi bastante gente que não volta mais”.

Se comparada a alguns anos, a oficina está com poucos habitantes da família canina. Carlos já abrigou cerca de 40 cachorros de uma só vez e conta mais de 50 entre os que por ali já passaram. “Já fiquei com 38 aqui, cuidando de todos. Houve um tempo em que todos ficaram doentes e eu quase fiquei louco, cheguei a morar aqui. Fiquei uns 30 dias morando aqui direto. Comprei uns 800 comprimidos de amoxilina. Você não imagina o quanto já gastei aqui só com cachorro”
Além dos gastos, do trabalho que tem para cuidar de tudo e entre outras questões ligadas aos animais, Carlos ainda precisa conciliar a relação com os vizinhos da oficina e moradores do bairro. Do prédio residencial na rua ao lado da oficina, a vista que se tem é dos 15 cães adultos que repartem o espaço ao ar livre, com direito a eventuais brigas e muitos latidos. Incomodados com o barulho, os moradores passaram a reclamar, denunciar e até mesmo ameaçar o dono dos animais. Carlos, que prefere não criar caso, conversa humildemente com os moradores e diz estar em busca de soluções para este problema. “Não pego mais cachorro, mas também não tem o que fazer, não vou largar na rua. Mesmo assim já cheguei a ser ameaçado, já teve cara que falou que ia passar com o carro por cima de mim.”

O amor pelos animais é visível no olhar de Carlos que abraça, beija, cheira e acaricia. Para ele, a relação que tem com os animais é algo inexplicável, tanto que não mede esforços para cuidar e defendê-los “Já fiquei sem almoçar para dar comida para os cachorros”. Em outra situação, Carlos arriscou a própria vida ao discutir com um ciclista que, irritado por ter sido derrubado por um dos cachorros, voltou armado para tirar satisfação com o dono dos animais. “Eu já tive que me meter em briga ai na porta, já tive que bater no cara porque o cara deu um chute na cachorra que tinha derrubado ele da bicicleta. Quando fui conversar, o cara já veio para cima e eu também fui com um pedaço de ferro. Então ele foi até a casa dele buscar o revólver e voltou aqui. A gente discutiu, mas ficou para lá”.

Sonhos

Carlos Alberto lembra que tudo começou quando resolveu adotar uma cadela já esperando cria que fora abandona na praça em frente à oficina. Os filhotes nasceram, mais animais foram recolhidos, outros foram abandonados na porta da oficina e desde então não parou mais. O mecânico se sente incapaz de resolver tudo sozinho, já fez dívidas no banco, no pet shop, perdeu clientes, conquistou inimigos, se ausentou da família, não fica mais em casa, gastou o que tinha e o que não tinha, e ultimamente, pensando em uma solução, gostaria de construir mais repartições no terreno para a oficina não se misturar com o canil. Infelizmente não será possível. Com ar de tristeza, Carlos lamenta a notícia de que o aluguel do espaço não mais será renovado para 2012. E enquanto o pior não acontece, sonha mudar-se com os animais para um sítio próximo de São Paulo, onde possam viver tranquilamente, sem problemas de espaço, ameaças e brigas com vizinhos. “Minha vida é uma loucura, não estou aguentando mais. É complicado. Ou eu arrumo um lugar grande, um sítio perto da cidade ou não sei o que fazer”.

Enquanto as novidades não aparecem, Carlos pede ajuda com o que puderem oferecer. “Ração é o principal, o resto eu vou me virando. Se vier medicamento, remédio para dar banho, ajuda claro”.

Serviço:

Local: DM Motors – funilaria, pintura e mecânica.

End:Rua Inácio Cervantes, 1037, Parque Ipê – Butantã/SP

Fone: 11 3782 0722

E-mail: capdavid@hotmail.com

Cruzando as águas do mundo-último

Brasil X Itália

Mesmo com casa comprada e já empregado em sua cidade na Itália, Tommaso optou por ficar no Brasil, onde sua vida parecia caminhar melhor, não fosse a saudade que sentia da mãe e dos irmãos que ficaram na Itália. O contrário também acontecia e ficava difícil suportar a ausência de pessoas tão distantes. “Aqui no Brasil sentia falta da família de lá. Quando eu estava lá, sentia saudades daqui por causa das duas filhas, com a primeira mulher”.

Como nem tudo é perfeito, no Brasil não poderia ser diferente. Em meados de 90, mais especificamente em 1992, Tommaso separava-se da primeira esposa e vivia aquilo que considera sua pior fase no Brasil: A Era Collor. Aos 49 anos, ainda batalhando por uma vida melhor, trabalhava com transporte de material de construção e sua maior fonte de renda era o próprio caminhão que usava para o serviço no depósito de material em Bertioga. O italiano adorador do Brasil neste momento descobria outra realidade com a devastadora política administrativa de Collor de Mello. “Perdi o caminhão porque precisei vender por preço barato para poder viver, perdi o emprego. Em Bertioga, onde eu trabalhava em um depósito de material faliu porque não tinha como comprar, vender”. Nem mesmo a separação da mulher foi possível acontecer. “A vida ficou ruim, não tinha serviço, a gente se ajudava, por isso moramos na mesma casa, por questão de sobrevivência, porque ninguém tinha como ir para outro lugar, então era melhor ficar no mesmo teto”.

Passados os anos, quando a economia começou a dar sinal de melhoras, Tommaso encontrou empregos esporádicos como ajudante de pedreiro. Aos poucos, a vida era retomada. Períodos mais tarde, conseguiu casa separada da ex-esposa, casou-se novamente, teve novos filhos, hoje duas moças casadas, e não abandonou a família na Itália. No próximo ano, talvez, será a vez de suas filhas conhecerem as origens do pai em Álcamo. De tempos em tempos, Tommaso viaja para revê-los, mas só a passeio. Os dias ruins vividos no Brasil ainda não o decepcionaram o bastante para torná-lo menos apaixonado por este país. Perguntado se voltaria atrás, sem pestanejar responde:

– Se tivesse que morar na Itália, não iria mais, a não ser para passear

Valores como amizade e receptividade são pontos fortes que o seguram neste país. E, como todo estrangeiro, não é difícil se surpreender com as relações tropicais: “Lá as pessoas são mais recatadas, aqui as amizades acontecem mais fácil. Aqui a gente tem mais convívio com as pessoas, dá para ser mais familiarizado. Brasileiro se acostuma mais facilmente em qualquer parte do mundo para fazer qualquer coisa”. Hoje, aos 69 anos, trabalhando eventualmente como motorista e vivendo ao lado da esposa, Tommaso garante: “Estou bem aqui. Não há motivos para não gostar”.

Cruzando as águas do mundo II

Chegada ao Brasil e diferenças notadas

Mais quatro anos passaram-se na Itália até que Tommaso chegasse ao Brasil. A recepção calorosa, tipicamente brasileira, foi comemorada com um piquenique na praia de Santos na companhia de tios, avós e primos que há dias esperavam pelo mais novo membro da família que moraria com eles na Vila Bonilha, entre a região da Lapa e Pirituba. Em sua vinda ao Brasil uma única certeza o acompanhava: mudava-se em busca de trabalho. Sem saber ao certo do que trabalhar passou a vender roupas com seus tios pelas ruas. “Foi bom para mim, depois de quatro anos já comprei um carro com este serviço de vender roupa, depois tirei a carta e coloquei o carro para fazer táxi, em meados de 66”.

Acostumar-se com as diferenças estrangeiras aparentemente não foi uma experiência perturbadora para Tommaso. Ao tratar de sua chegada ao Brasil, em momento algum se contradiz em suas opiniões, tanto que custa fazê-lo contar aspectos negativos do choque cultural. “Eu gostei daqui, o tratamento era diferente, era uma conversa mais aberta, não tinha aquele negócio fechado como era lá. Aqui podia conversar com homem e mulher”. Na companhia da prima de 15 anos fez novas amizades e não demorou a se enturmar e desenvolver um novo processo de vida. “As pessoas eram muito boas, agradáveis, boas de conversa”. O idioma também não foi tão complexo como é de se imaginar. “Não foi difícil. De conversa em conversa a gente vai aprendendo. Até agora não sei falar direito. Cheguei em 62, em janeiro faço 50 anos aqui”.

De tempos em tempos Tommaso visitava a família italiana e em uma dessas viagens voltou para morar na casa da mama em Alcamo, onde ficaria por dois anos (94-96). A volta ao Brasil em 1996 não poderia tardar para não perder a cidadania brasileira válida por dois anos. No caso deste retorno os motivos foram mais fortes que problemas burocráticos. “Voltei para o Brasil também porque não gostei mais de lá, não tinha a liberdade que tinha aqui. Trabalhei por lá e tudo, mas não gostei”. O estranhamento agora se dava do outro lado, o de suas origens, que mesmo sendo o lugar onde viveu grande parte de sua vida, neste momento tornava-se um país diferente por coisas que até então S. Tommaso havia esquecido.

– O povo lá não costuma andar a vontade em roupas e vestuário. Aqui me sentia mais a vontade, andava de shorts e camiseta e ninguém me criticava por isso. Lá uma mulher dificilmente usava calça cumprida, era sempre saia.

Já habituado ao povo italiano, mas tendo incorporado à sua pessoa os costumes brasileiros, a inevitável comparação entre os dois povos lembrava Tommaso de que na Itália nunca poderia levar a vida como no Brasil. Em seu retorno percebeu que, além da diferença cultural, a vida profissional também tardaria em começar se optasse permanecer em Alcamo. Com a proximidade da idade, logo viria o momento do jovem italiano alistar-se no exército. A partir deste momento, Tommaso teria que postergar mais alguns anos o início de sua independência financeira. “A vida ia começar com quase 25 anos se eu entrasse no exército [italiano]. Em 75 era uma época pós-guerra, a família estava se reerguendo ainda e eu teria que trabalhar na roça outra vez.”

Romance

A despedida de suas origens não foi um processo fácil. Ao vir para o Brasil, deixou para trás não só família, amigos e vizinhos como uma parte de seu coração. Namorada mesmo não era, mas, para os costumes da época, dançar juntos nas festas, conversar e se entreolhar significava estar quase lá…Nas inocentes conversas, nos pequenos momentos juntos, os planos para o futuro e os sonhos da vida a dois se revelavam a cada palavra dita.

O namoro sério não teve espaço e nem tempo para acontecer, as promessas trocadas ficaram no passado e se tornaram memórias revisitadas por Tommaso em 1975 quando voltou a morar na terra natal. O reencontro não pode ser comemorado, a vida de cada um seguia em rumos diferentes. Tommaso não mais poderia reviver o antigo romance. Aquela menina que conhecera aos 15 anos, em 75 já era uma mulher casada; e aquele rapaz que elegantemente a acompanhava nas danças, agora era um pai de família casado há 4 anos.

 

 

 

Histórias e estória de um jornalista maratonista – último

Corrida e Jornalismo

 Com a aproximação da reta final, os passos estão mais lentos, as pernas já não se sustentam e não mais obedecem a mente que, daí por diante, só espera o sinal de chegada para se desligar do corpo.

Um pouco exausto, mas já acostumado, Vicent libera as energias com uma característica sua muito conhecida entre seus colegas de treino: o grito de vitória, de missão cumprida. Engana-se quem pensa que esta comemoração só acontece em caso de medalhas. “Vencer uma corrida não é chegar em primeiro, é sentir que você se superou”.

Mesmo tendo mais de cinquenta troféus e aproximadamente 500 medalhas em sua coleção, e sendo o único jornalista que corre 10 km em 37 minutos – o que seria, em média, 1 km em menos de 4 minutos – nem sempre é possível ser o grande vencedor. Mas existem coisas na vida mais importantes que títulos e condecorações. A corrida já é em si a maior prova que Vicent pode ter até hoje. Não fosse seu compromisso com o atletismo, não teria experimentado todas as áreas do jornalismo pelas quais passou – já foi repórter, radialista, fotógrafo, cinegrafista, editor e redator. O grande prêmio que a corrida poderia lhe dar, ele já conquistou: a disciplina. Ser um bom competidor exige treinamentos metódicos e periódicos. “Ao criar uma pauta, uma matéria, um roteiro, o trabalho final de reportagem ou mesmo uma crônica, se complementa com a ordem e disciplina ao pensar e ao escrever”.

Quando se é jovem, as aventuras do jornalismo podem parecer mais atraentes e adequadas ao preparo físico. E o que dizer de um homem baixinho, magrelo e quase sem cabelo, de quarenta e poucos anos correndo entre os carros, alcançando pessoas pelas ruas, se arriscando em lugares desconhecidos e fotografando subúrbios da cidade?

– Ser repórter de rua, coisa que faço até hoje com muito amor, exige que tenhamos uma boa forma física e isso me mantém correndo. Já cai de palco, escalei montanhas, andei muitos quilômetros a pé para conseguir uma boa foto, ou um melhor enquadramento na fotografia.

Ser jornalista e maratonista é um diferencial que nem todos têm, e os que têm, talvez não unam as duas profissões como um bem social. No ano de 2009, a cobertura de uma tragédia na periferia da zona sul de São Paulo, foi a grande prova em seu caminho e a revelação de seu caráter. Na tarde de 24 de setembro, Vicent dirigia de volta para casa quando ouviu no rádio que um incêndio cobria a favela do Real Parque, no Morumbi. De repente, o telefone toca. Era um colega corredor e fotógrafo perguntando se o incêndio não se passava na rua do Nino, o carroceiro que corria entre eles. Desesperadamente muda a direção e vai ao encontro de Nino que desolado mostra as cinzas que restavam de seu barraco. Entre o que conseguira salvar das chamas estava aquilo que abalaria profundamente o experiente jornalista tantas vezes ensinado a ser forte e resistente: uma de suas medalhas suja de cinzas.

– Nino segurava sua medalha ainda quente e derretida com as mãos e roupas sujas de cinzas. A fumaça e poeira de cinza era tanta, que quando olhei no espelho retrovisor de meu carro vi a marca do caminho das lágrimas que chorei escondido lá no alto na Favela.

Após algumas fotos e depoimentos registrados, seu trabalho de fotojornalista já estaria completo, mas Vicent não estava lá simplesmente para satisfazer as exigências impessoais de seu sistema de trabalho. Ele foi além e, momentos depois, juntou seu poder de alcance como jornalista à sua popularidade como maratonista. Fez a matéria para a Contra Relógio, postou a história no blog da revista, pediu divulgações em sites de outros corredores e veículos especializados no assunto, disparou fotos pela internet, e pelas redes sociais lançou a campanha SOS Nino com o intuito de conseguir abrigo e ajuda para o carroceiro e sua família. A divulgação repercutiu em diferentes mídias e as contribuições vieram de todos os estados do país. Logo Nino estava doando boa parte do que tinha para os vizinhos da comunidade, explicando que recebera tantas doações que já era hora de compartilhar. Vicent tornara Nino o carroceiro corredor que marcaria além de sua experiência jornalística, sua consciência humana.

– Sou uma ferramenta social – se eu não conseguir atuar e ajudar a melhorar meu ambiente, o meio que vivo… de nada serve meu trabalho. O jornalista que trabalha sem ideal é meio jornalista, pois é necessário sempre ter causas para defender – causas sociais e não políticas. Sociais porque esse tipo de causa tem o objetivo único de melhorar o homem e seu ambiente.

Esta rotina de trabalho parece até bagunçar a cabeça de Vicent que já não mais se dá conta de chegar aos horários combinados e cumprir os compromissos a que se dispõe com tanta boa vontade. Agendar encontros com ele é estar disposto a esperar alguns atrasos, até mesmo de horas, e entender que a agitada correria de seus dias combina com sua pessoa e faz parte de sua natureza. Esta vida pode parecer loucura, mas é complemento daquilo que Vicent buscou como felicidade e não teve medo de seguir: o trabalho de jornalista e maratonista.

Quando chega ao encontros marcados, mesmo para seus trabalhos eventuais de fotografias para Sergio Rondino, assessor de Kassab, na Prefeitura, traz sempre uma nova história tão interessante que até esquecemos seus atrasos. Histórias, como já é de se imaginar, cheias de acontecimentos incríveis. Como todo bom contador, ele dá um tom surreal às narrativas, tanto que se torna difícil distinguir qual a verdadeira dimensão dos fatos. Talvez, para descobrir este mistério, teria que acompanhá-lo por mais tempo e, como não poderia deixar de ser, estar bem condicionada para correr longos quilômetros ao seu lado.

História e estórias de um jornalista maratonista II

De volta ao passado jornalístico: o furo

Como sua vida rende um livro de histórias inesgotáveis, é difícil entrevistá-lo sem se deixar envolver pelos relatos que me chegam sem pausa e aumentam rapidamente. Voltei a lembrar de que deveríamos precisar mais a história da pauta em Aracajú e por inúmeras vezes pedi que contasse detalhadamente e me fizesse entender passo a passo de sua história do primeiro furo jornalístico na matéria para o Banco América do Sul. Então ele retoma o assunto e explica que sua pauta era buscar japoneses na região de Aracajú e, inesperadamente, conseguiu descobrir vinte famílias japonesas, e em uma dessas famílias uma criança acabava de nascer.

– Mas por que você considera uma missão encontrar japoneses na região. O que tinha de tão diferente nisso?

– Pensando há 20 anos, quase não existiam japoneses em Aracajú, e eu dei a sorte de encontrar uma criança que acabava de nascer e também uma senhora de 60 anos que com uns 6 anos chegou ao Brasil em um dos primeiros navios que trazia imigrantes japoneses.

Homenagem por divulgação de haikai no Japão

O destaque que torna esta reportagem o furo de sua carreira é a descoberta desta senhora que, quando criança, em meados de 1920, se perdeu da família ao trocar o local de desembarque. A história poderia ser triste, mas aparentemente teve um final feliz também para Vicent que soube aproveitar a história da criança perdida dos pais em Sergipe e foi adotada por uma família japonesa na cidade, crescendo distante de seus semelhantes.

-Esta matéria deu respaldo para mim, porque eu sentia um pouco de preconceito por não ser japonês. Então eu aproveitei a chance, já que tinham japoneses da comunicação social que não gostavam e não se interessavam pela cultura japonesa, aproveitei este território que eu tinha para explorar. Os diretores perceberam que eu realmente gostava e isso me favoreceu.

– E como você vê isso hoje?

– Foi uma parte importante da minha vida. Ensinou muito. Depois disso eu aprendi a ter coragem, que é o principal para o jornalista. Vejo muitos jornalistas profissionais formados em tantos cursos, mas que não têm isso. Ali (no BAS) também foi onde eu comecei a perceber que eu realmente gostava de jornalismo, de ser repórter. Gosto de saber. Acho que o jornalista tem que ter essa veia.

Esta matéria revelaria, além da paixão pela reportagem, o talento para o fotojornalismo. “Com a matéria para o BAS pensei: Eu posso ser mais que repórter, posso ser repórter fotográfico e vídeo-repórter. Me interessei em ser fotógrafo e cinegrafista, então paguei um curso de edição de vídeo, de cinegrafista e também fui atrás de aulas na faculdade”.

História e estórias de um jornalista maratonista I

Os participantes se preparam, conferem os últimos detalhes, alongam, se aquecem e seguem rumo à fila para então fazer parte da multidão que se aglomera a espera da largada. Em meio à diversidade de pernas, de todos os tamanhos e cores, lá está uma figura de 1.74 metros de altura. Conversador, como bom comunicador que o é, José Vicent Sobrinho está sempre em movimento. Cumprimenta os colegas de treino, conversa com todos ao redor, e de forma descontraída, mas não menos determinada, volta à concentração para os próximos quilômetros que o aguardam dali a alguns minutos. Levemente calvo e com alguns poucos cabelos brancos, mas com o físico de atleta, o sorriso estampado no rosto e agitação constante, não aparenta os 45 anos vividos.

A largada se aproxima, Vicent se prepara fisicamente e espiritualmente para, mais uma vez, enfrentar sua aventura. Cada prova é um novo desafio e como em toda competição, é um momento de ansiedade, até mesmo para os mais habituados como Vicent que já participou de mais de 600 provas e corre desde os 14 anos de idade. A seriedade com que leva seu esporte já lhe rendeu medalhas de ouro por dois anos consecutivos na categoria Imprensa da Maratona 2010 e na Meia Maratona 2011 no Rio de Janeiro.

Fora das pistas, Vicent lida com pautas e fotos. Ele é jornalista da revista Contra Relógio, especializada, é claro, em corrida, e dedica mais uma parte de seu dia a dia ao fotojornalismo. E assim sua vida se torna uma incessante prova de corrida com obstáculos imprevistos e aventuras inéditas para as quais deve estar preparado para realizar. Seu modo positivo de ver a vida e o gosto com que desenvolve seus ofícios transformam sua jornada em uma combinação de prazer e emoção.

Com mais de 30 anos nas pistas e centenas de competições, já correu tantos quilômetros que teria o equivalente a duas voltas na Terra. Não só é o jornalista mais rápido do Brasil como também um dos maratonistas mais viajados. Trabalhou como jornalista e fotógrafo na Espanha, França, Rússia e Estados Unidos, e em todos esses países aproveitou também para dar suas corridinhas. Quando perguntado sobre idiomas aprendidos, sem hesitar ele responde: “já viajei para 12 países e ainda não sei falar inglês”.

Os grandes números em sua trajetória não param por aí. Como fotojornalista Vicent soma mais de 100 mil flashes, muitos deles publicados em veículos como Jornal do Brasil, Boletim da Subprefeitura Butantã, Diário Oficial de São Paulo e Jornal Caderno SP, além de revistas institucionais como Academia Curves.

Juntamente com o esporte, o jornalismo foi a grande descoberta em sua vida. Aos 18 anos entrou na faculdade Cásper Líbero para cursar jornalismo. “Naquela época (1987) todos achavam que fazer jornalismo era para trabalhar na TV Globo“. Quando Vicent entrou na faculdade já trabalhava no escritório do banco Itaú carimbando e furando cheques. Emocionado com sua nova paixão entendeu que deveria descobrir mais sobre a nova profissão e, para isso, largou o emprego no banco.

Jovem de família humilde morava com os pais e os quatro irmãos no bairro de Itaquera, na Zona Leste de São Paulo, é o primogênito de cinco filhos. Seus pais se casaram jovens, a mãe com 19 e o pai com 20 anos. Como o irmão mais velho tem que servir de exemplo para a família, ele conta que sofreu bastante por ter sido “o primeiro teste do jovem casal”. Hoje, de forma divertida, ele lembra a reação de seu pai ao vê-lo em casa no dia seguinte ao abandono do emprego. “Eu pedi as contas e não avisei meu pai. Fiquei desempregado e meu pai ficou questionando por que eu estava em casa, falando que eu estava louco, que a gente era pobre e não dava para ficar escolhendo”. Passado o momento de tensão, seu pai logo o alertara que pagaria a faculdade por apenas mais um mês e, após este período, o filho deveria estar empregado se quisesse continuar o curso. Vicent conta que após a conversa, ou melhor, a bronca levada do pai, ficou desesperado e seguiu em busca de emprego da maneira que podia.

– E como fez para conseguir?

-Subi na mesa do professor e fiquei falando: Se ninguém me arrumar emprego vou ter que sair da faculdade, vou ter que abandonar todos vocês.

Quando menino, era ainda mais agitado e gostava de conversar com as pessoas, fazia amizade facilmente. Animado e proativo, era quase impossível passar despercebido. Com o entusiasmo de um jovem em busca de aventuras e conhecimentos no mundo, Vicent vivia o ápice de seu encanto com o jornalismo. E com toda essa vontade de desenvolver a prática, se tornava uma figura marcante entre os colegas de classe, ponto que o favoreceu para arrumar o primeiro emprego na área, logo em seu primeiro ano de faculdade, em 1987.

– Na época eu tinha cabelo, era gato, e uma colega de faculdade – uma fã minha – me arrumou um emprego, ela era japonesa e me chamou para trabalhar ao lado dela no Banco América do Sul (BAS), que é o banco da colônia japonesa, e lá aprendi a fazer o jornal do banco, que hoje seria um treinamento para twitter.

– Como twitter naquele tempo?

– Não, não. Eu usei twitter para comparar com os dias de hoje, que você tem que passar o recado em poucos caracteres. Na época, eu tinha que criar haikai, um micro poema japonês com 17 sílabas. Com isso eu aprendi a fazer manchetes, porque era para ser coisa curtinha.

A junção de arte com o jornalismo seria um ponto importante para sua trajetória. Com orgulho e empolgação em cada palavra dita, ele conta que seu poema Espelho foi publicado no Japão, em 1988, e lhe rendeu a premiação de uma bolsa de estudos de 50% por um ano, como reconhecimento por parte do presidente Fujio Tachibana, do BAS.

Nesse período, entra na faculdade, sai do Itaú e consegue seu primeiro emprego, e é principalmente nesta fase que começa grande parte de suas aventuras pelo jornalismo. O emprego no BAS foi a oportunidade de aprendizado para sua carreira. Lá teve seu primeiro grande reconhecimento e seu primeiro furo de reportagem. Quando lembra de tal experiência, o José Vicent de hoje, com o pensamento mais maduro de um jornalista já calejado, passa por suas próprias memórias vendo as cabeçadas do menino ingênuo e novato que era há 23 anos.

– Minha primeira matéria foi fora de São Paulo. Fui pautado para descobrir uma colônia japonesa em Aracajú (Sergipe), para uma matéria especial na revista do BAS – sobre a comemoração dos 80 anos da colônia japonesa. Foi até engraçado. Na época eu era moleque de tudo, sem experiência nenhuma. Era minha primeira reportagem e eu não tinha malícia de nada. Tinha aqueles medos normais de não saber direcionar a pergunta para a pessoa. E outra, eu nunca tinha saído de São Paulo, esta era a primeira vez que eu andava de avião. Fui parar em Sergipe para ficar três dias e estava totalmente despreparado. Só tinha roupa de frio na mala e lá fazia um baita calor.

– E como se achou ao chegar lá?

– Chegando lá, tinha uma equipe me esperando. Fui recepcionado pelo gerente da agência do Banco América do Sul de Aracajú-SE. Fiquei até meio envergonhado, porque para eles era importante alguém de São Paulo fazer entrevista, eles pensavam: “Ohh, é um repórter enviado de São Paulo”.

Ao contar suas histórias, ele fala tão rápido e com diversos acontecimentos ocorrendo no mesmo tempo narrado que por vezes se torna difícil acompanhar o raciocínio de forma linear, sem perder o ponto que é preciso detalhar. Seu jeito animado e inquieto, o torna um admirável contador de histórias da vida real. Vicent conta tudo de um jeito tão impressionante que a primeira coisa que se imagina é que se está ao lado de uma personalidade – há a pretensão de uma entrevista no Programa do Jô.  Enquanto conversamos a caminho dos endereços de suas pautas fotográficas, às vezes se dispersa de nosso papo e ajuda a motorista do carro a encontrar o local, e em tom de brincadeira diz:

– A senhora fique tranquila que já, já chegamos ao lugar certo, depois acaba e a senhora não vai precisar mais me aguentar no carro.

– Imagina, eu adoro ouvir pessoas inteligentes.

Vicent tem esse dom de cativar as pessoas, é um “maximizador”, consegue transformar as aventuras de sua vida em um grande livro que, mesmo sem uma página escrita, já envolve o leitor de tal maneira que não seria difícil imaginar uma fila de seus curiosos espectadores querendo adquirir sua biografia. Todo este fascínio que exerce sobre aqueles ao seu redor se explica através de seu olhar que, neste caso, transcende a fisionomia física e enxerga além de estereótipos. O olhar já treinado pela profissão de fotojornalista poderia estar defasado, mas Vicent trata cada foto como um momento único e especial. E é este o segredo que leva do trabalho para a vida. As pessoas para ele não são meros figurantes de suas fotografias. Seu olhar carrega afeição. Sua passagem pelas pessoas é marcante e transmite àqueles dos quais se aproxima a sensação de unicidade. Por mais simples e rápido que seja o contato, consegue trazer a um momento tão passageiro uma aproximação especial. Como diria Joseph Campbell em O poder do Mito: “a pessoa cheia de vitalidade exerce uma influência vitalizadora”