A viagem quase perfeita

Os olhos estão cheios d’água, o arrepio percorre os braços abertos, um incontido sorriso de emoção escapa entre os lábios trêmulos divididos entre o choro e a alegria. Um grito de felicidade e a corrida para o abraço coletivo. Um momento talvez banal em tantos aeroportos e rodoviárias, mas que só sabe explicar quem vivenciou a experiência de estar, por menor tempo que seja, entre rostos e traços desconhecidos, comportamentos estranhos e olhares nunca vistos.

Após 24 dias entre trens e aviões, horas e horas sentada e sem dormir direito Flávia Martins, uma jovem de 25 anos, de volta de suas aventuras de mochileira pela Europa, lembra o sufoco que passou na companhia de sua tia Mônica Martins, 32, para conseguir embarcar de volta ao Brasil.

Depois de visitar Birmingham, Nottingham, Stratford, Liverpool, Salisbury, Londres, Irlanda e a capital Dublin, Irlanda do norte e a capital Belfast, e por fim, Escócia chegava o momento de retornar à cidade de Birmingham na Inglaterra. Enfrentar 7 horas de trem, pegar o avião rumo ao aeroporto de Amsterdã, suportar uma hora de voo, e aguardar o momento de embarcar para o Brasil era, aparentemente, o procedimento comum. Às 20h Flávia e Mônica chegam a Amsterdã e recebem a primeira surpresa da noite: deveriam esperar mais quatorze horas no aeroporto se quisessem voltar ao Brasil no próximo voo, marcado para as 10h da manhã seguinte.

O brilho da lua anuncia o cair da noite enquanto as luzes da cidade se apagam, as pessoas se recolhem e os restaurantes e comércios baixam as portas. E, para os que estão em casa, já é hora de se deitar. O cansaço tomava conta de todo o corpo há tantas horas sem dormir, os olhos fechavam lentamente enquanto fantasias e realidades se misturavam como obra do inconsciente. O relógio era ingrato, as horas demoravam a passar e, durante cada minuto que lhe parecia a eternidade, Flávia sonhava acordada com seu lar em Cotia-SP, com o abraço da família, o reencontro com o namorado e a vida que levava no Brasil. “Foi uma madrugada difícil, só ficava mentalizando a minha caminha. Por um milagre sobrevivemos ao tédio e estávamos embarcando rumo ao Brasil”.
A sensação de poder levantar da poltrona, sair do avião e finalmente pisar em solos brasileiros foi, se não o melhor, um dos melhores momentos da maratona de viagens que teve início em 29 de julho de 2011, quando Flávia concluiu a faculdade.

Retrospectiva

O entusiasmo para a tão sonhada viagem começou no início de 2011, durante as aulas de inglês que fazia com sua tia. Os laços de amizade e confiança fizeram Flávia se alegrar com a possibilidade de viajar ao lado de Mônica, que além de uma grande amiga, é professora de inglês e a ajudaria a enfrentar dificuldades relacionadas ao idioma. Terminada a faculdade e finalmente decretadas as férias de julho, chegava o momento de conhecer o mundo ou, pelo menos, algumas partes como Inglaterra e outros países da Europa. Prestes a sair do país pela primeira vez, sem saber ao certo como agir e com a mente cansada pela fase de defesa de TCC, Flávia não teve muito tempo para pesquisar mais, pensar o que fazer e como se preparar para viajar no dia seguinte.

Em suas viagens pela Europa, a jovem descobriu alguns fatores negativos em que não havia pensado: “Antes de viajar, mesmo sabendo que a nossa moeda comparada com o Euro e a Libra é bem desvalorizada, na minha inocência achava que iria conseguir conhecer todas as atrações turísticas, comprar alguns presentes mais caros, e ainda não gastar todo dinheiro que levei. Doce ilusão, porque no final da viagem se ficasse mais um dia pelo menos, a minha família iria ter que me auxiliar. Mesmo fazendo mochilão, ficando hospedada em albergues, quase não comia em restaurantes, enfim, sem gastos excessivos, não foi uma viagem muito barata”.

Dificuldades enfrentadas

Antes de partir, Flávia confessa que preparar as malas também é uma tarefa difícil, principalmente para as mulheres que têm vontade de levar o armário, e, sabendo que chegaria à época do verão, a jovem arrumou a mochila só com roupas da estação, sem imaginar que esta bolsa se tornaria um empecilho em suas caminhadas: “Tivemos que comprar blusas e cachecóis para aguentar as temperaturas baixas. E as roupas que levamos praticamente não foram usadas, porque levamos mais roupas de verão, que só serviram de peso na mala, o que acabou sendo um ponto negativo na viagem, porque como estávamos fazendo mochilão, era ruim ficar carregando peso extra para vários lugares”.

Acostumada ao verão brasileiro, Flávia sentiu o choque de temperatura logo nos primeiros dias e, durante duas semanas, ficou doente e com dor de garganta. A diferença na  temperatura foi uma surpresa traumatizante para quem pretendia descansar e aproveitar o sol em praias distantes, e em suas memórias o frio ficará guardado como um dos fatores mais marcantes da aventura. Flávia conta que nem imaginava o quanto o verão poderia ser frio e diferente do que conhecia: “Ficamos curiosas e perguntamos para algumas pessoas sobre o clima e quase todos diziam ‘o nosso clima é sempre assim, uma merda’, e respondiam literalmente com essas palavras, e também disseram que quem tem dinheiro normalmente passa o verão em outro país, como Itália, Espanha que são países mais quentes”.

Com tantas surpresas, porém infelizes, outro ponto que deveria ser lembrado como um dos melhores momentos da aventura provavelmente aconteceria no encontro com os estrangeiros hospedados no mesmo local. Situado em uma região industrial e com um clima bem jovial, colorido, o albergue escolhido parecia um ambiente interessante para jovens em busca de novas experiências. Flávia e sua tia já haviam pesquisado na internet e, pelos relatos de outros viajantes, parecia um lugar de bastante interação. Características estas que não tiveram a chance de conhecer. “Agora com tanta tecnologia, ninguém desgrudava de seu celular, notebook… até tiveram algumas pessoas confabulando no albergue, dizendo que ninguém interage mais pessoalmente, somente nas redes sociais”.

Flávia saiu de seu país ciente de que os hábitos alimentares não seriam os mesmos, que nem tão cedo comeria arroz e feijão e não veria comida com tanta facilidade. Por vezes, se adaptou aos lanches, fast food e congelados – hábitos comuns em refeições no Reino Unido – já que não tinha condições de recorrer a restaurantes de outras culinárias, geralmente com preços abusivos.

Passeios e paisagens

Um brilho no olhar em cada palavra dita, os gestos de quem busca nas palavras uma forma de expressar a emoção vivida, e a tentativa de revelar ao mundo das palavras aquilo que um dia os olhos avistaram. Fotos, diário de viagem e longas descrições. Flávia volta no tempo e abre seus sentidos para relembrar as paisagens deslumbrantes e cidades em que os pés, cansados de andar, pisaram pela primeira vez.

Paisagens, cidades turísticas, agitação, tranquilidade e monumentos históricos. Tudo nas proximidades de um só lugar, com direito a visitas em quatro cidades e enriquecedoras descobertas. A chegada em Birmingham representava economia e boa localização para as próximas experiências. A começar pela romântica terra de Shakespeare, Stratford, a primeira paixão de Flávia. Decorações turísticas e paisagens, misturas do velho e novo, belas construções e atrações encantadoras ganham destaque especial nas memórias da viajante. Durante sua passagem por Stratford, o tradicional evento River Festival reunia muitas famílias e tornava o roteiro de viagem mais especial. A cidade de Liverpool, também conhecida pelos Beatles, oferecia um ambiente jovem, mas organizado, com mais agitações.

A terra de Robin Hood também não poderia ficar para trás, Nottingham oferece a cada espaço a oportunidade de reviver o personagem, visitar seu castelo, assistir às dramatizações realizadas em meio ao publico e percorrer o tour totalmente dedicado ao herói.

Na próxima parada, em Salisbury, Flávia conhece o monumento Stonehenge, uma estrutura de pedras com aproximadamente 5 metros de altura, envolto de mistérios em sua origem e função. Para a jovem é uma sensação incrível ver de pessoalmente este monumento que ninguém sabe como foi feito. “Existem várias lendas sobre Stonehenge, lá podemos ouvi-las através de um áudio tour em diferentes línguas, mas é claro”, brinca Flávia, “menos em português”.

Chegando ao fim da maratona de viagens faltava passar pela tão esperada Londres. Com o pensamento distante de quem busca na memória a tentativa de explicar a imagem vista, ela lembra: “Quando vi o Big Ben”, prossegue com um sorriso encabulado, “dei até um grito, de tão suntuoso e diferente  que é, se compararmos com a arquitetura do nosso país”.

Mesmo com tanta euforia, a estadia de quatro dias em Londres não foi das melhores. “Acabou sendo a estadia mais cara da viagem, se levar em conta o pouco tempo que ficamos, e a pior em termos de qualidade, já que os quartos dos albergues eram minúsculos, sem ventilação, as camas pareciam de um presídio, a única coisa boa”, ressalva, “é que eu estava na região central e pude conhecer os principais pontos turísticos”. Sair de São Paulo para conhecer Londres pode não significar muitas surpresas ao viajante que espera encontrar um lugar totalmente diferente. Segundo Flávia, as diferenças não se destacam em grande escala. Por ser Londres uma cidade com turistas e imigrantes das mais diversas fronteiras, “acaba perdendo um pouco sua essência, é um pouco suja, violenta. O interessante é que Londres foi o primeiro lugar em que vimos brasileiros, e, tirando os monumentos importantes, não se difere muito de São Paulo”.

As experiências e os dias vividos longe de casa, Flávia garante, “foram momentos únicos, de felicidade, medo, insegurança, uma mistura de emoções, que sempre serão lembrados, através de fotos, vídeos e na minha própria memória, através de cheiros, paladar”. Ao refletir sobre os dias de aventura, a jovem é incisiva e deixa a mensagem que aprendeu em sua viagem quase perfeita: “Nós temos que agradecer todos os dias pela diversidade e fartura que temos em nosso país”.

 

 

 

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1 Response to “A viagem quase perfeita”


  1. 1 Carol 13 de novembro de 2012 às 1:04 PM

    suahsuss historia da Flavinha, que engraçado ne….mas que bom que deu td certo, que nem minha viagem, cheeeia de aventuras rs


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