Cruzando as águas do mundo-último

Brasil X Itália

Mesmo com casa comprada e já empregado em sua cidade na Itália, Tommaso optou por ficar no Brasil, onde sua vida parecia caminhar melhor, não fosse a saudade que sentia da mãe e dos irmãos que ficaram na Itália. O contrário também acontecia e ficava difícil suportar a ausência de pessoas tão distantes. “Aqui no Brasil sentia falta da família de lá. Quando eu estava lá, sentia saudades daqui por causa das duas filhas, com a primeira mulher”.

Como nem tudo é perfeito, no Brasil não poderia ser diferente. Em meados de 90, mais especificamente em 1992, Tommaso separava-se da primeira esposa e vivia aquilo que considera sua pior fase no Brasil: A Era Collor. Aos 49 anos, ainda batalhando por uma vida melhor, trabalhava com transporte de material de construção e sua maior fonte de renda era o próprio caminhão que usava para o serviço no depósito de material em Bertioga. O italiano adorador do Brasil neste momento descobria outra realidade com a devastadora política administrativa de Collor de Mello. “Perdi o caminhão porque precisei vender por preço barato para poder viver, perdi o emprego. Em Bertioga, onde eu trabalhava em um depósito de material faliu porque não tinha como comprar, vender”. Nem mesmo a separação da mulher foi possível acontecer. “A vida ficou ruim, não tinha serviço, a gente se ajudava, por isso moramos na mesma casa, por questão de sobrevivência, porque ninguém tinha como ir para outro lugar, então era melhor ficar no mesmo teto”.

Passados os anos, quando a economia começou a dar sinal de melhoras, Tommaso encontrou empregos esporádicos como ajudante de pedreiro. Aos poucos, a vida era retomada. Períodos mais tarde, conseguiu casa separada da ex-esposa, casou-se novamente, teve novos filhos, hoje duas moças casadas, e não abandonou a família na Itália. No próximo ano, talvez, será a vez de suas filhas conhecerem as origens do pai em Álcamo. De tempos em tempos, Tommaso viaja para revê-los, mas só a passeio. Os dias ruins vividos no Brasil ainda não o decepcionaram o bastante para torná-lo menos apaixonado por este país. Perguntado se voltaria atrás, sem pestanejar responde:

– Se tivesse que morar na Itália, não iria mais, a não ser para passear

Valores como amizade e receptividade são pontos fortes que o seguram neste país. E, como todo estrangeiro, não é difícil se surpreender com as relações tropicais: “Lá as pessoas são mais recatadas, aqui as amizades acontecem mais fácil. Aqui a gente tem mais convívio com as pessoas, dá para ser mais familiarizado. Brasileiro se acostuma mais facilmente em qualquer parte do mundo para fazer qualquer coisa”. Hoje, aos 69 anos, trabalhando eventualmente como motorista e vivendo ao lado da esposa, Tommaso garante: “Estou bem aqui. Não há motivos para não gostar”.

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