Cruzando as águas do mundo II

Chegada ao Brasil e diferenças notadas

Mais quatro anos passaram-se na Itália até que Tommaso chegasse ao Brasil. A recepção calorosa, tipicamente brasileira, foi comemorada com um piquenique na praia de Santos na companhia de tios, avós e primos que há dias esperavam pelo mais novo membro da família que moraria com eles na Vila Bonilha, entre a região da Lapa e Pirituba. Em sua vinda ao Brasil uma única certeza o acompanhava: mudava-se em busca de trabalho. Sem saber ao certo do que trabalhar passou a vender roupas com seus tios pelas ruas. “Foi bom para mim, depois de quatro anos já comprei um carro com este serviço de vender roupa, depois tirei a carta e coloquei o carro para fazer táxi, em meados de 66”.

Acostumar-se com as diferenças estrangeiras aparentemente não foi uma experiência perturbadora para Tommaso. Ao tratar de sua chegada ao Brasil, em momento algum se contradiz em suas opiniões, tanto que custa fazê-lo contar aspectos negativos do choque cultural. “Eu gostei daqui, o tratamento era diferente, era uma conversa mais aberta, não tinha aquele negócio fechado como era lá. Aqui podia conversar com homem e mulher”. Na companhia da prima de 15 anos fez novas amizades e não demorou a se enturmar e desenvolver um novo processo de vida. “As pessoas eram muito boas, agradáveis, boas de conversa”. O idioma também não foi tão complexo como é de se imaginar. “Não foi difícil. De conversa em conversa a gente vai aprendendo. Até agora não sei falar direito. Cheguei em 62, em janeiro faço 50 anos aqui”.

De tempos em tempos Tommaso visitava a família italiana e em uma dessas viagens voltou para morar na casa da mama em Alcamo, onde ficaria por dois anos (94-96). A volta ao Brasil em 1996 não poderia tardar para não perder a cidadania brasileira válida por dois anos. No caso deste retorno os motivos foram mais fortes que problemas burocráticos. “Voltei para o Brasil também porque não gostei mais de lá, não tinha a liberdade que tinha aqui. Trabalhei por lá e tudo, mas não gostei”. O estranhamento agora se dava do outro lado, o de suas origens, que mesmo sendo o lugar onde viveu grande parte de sua vida, neste momento tornava-se um país diferente por coisas que até então S. Tommaso havia esquecido.

– O povo lá não costuma andar a vontade em roupas e vestuário. Aqui me sentia mais a vontade, andava de shorts e camiseta e ninguém me criticava por isso. Lá uma mulher dificilmente usava calça cumprida, era sempre saia.

Já habituado ao povo italiano, mas tendo incorporado à sua pessoa os costumes brasileiros, a inevitável comparação entre os dois povos lembrava Tommaso de que na Itália nunca poderia levar a vida como no Brasil. Em seu retorno percebeu que, além da diferença cultural, a vida profissional também tardaria em começar se optasse permanecer em Alcamo. Com a proximidade da idade, logo viria o momento do jovem italiano alistar-se no exército. A partir deste momento, Tommaso teria que postergar mais alguns anos o início de sua independência financeira. “A vida ia começar com quase 25 anos se eu entrasse no exército [italiano]. Em 75 era uma época pós-guerra, a família estava se reerguendo ainda e eu teria que trabalhar na roça outra vez.”

Romance

A despedida de suas origens não foi um processo fácil. Ao vir para o Brasil, deixou para trás não só família, amigos e vizinhos como uma parte de seu coração. Namorada mesmo não era, mas, para os costumes da época, dançar juntos nas festas, conversar e se entreolhar significava estar quase lá…Nas inocentes conversas, nos pequenos momentos juntos, os planos para o futuro e os sonhos da vida a dois se revelavam a cada palavra dita.

O namoro sério não teve espaço e nem tempo para acontecer, as promessas trocadas ficaram no passado e se tornaram memórias revisitadas por Tommaso em 1975 quando voltou a morar na terra natal. O reencontro não pode ser comemorado, a vida de cada um seguia em rumos diferentes. Tommaso não mais poderia reviver o antigo romance. Aquela menina que conhecera aos 15 anos, em 75 já era uma mulher casada; e aquele rapaz que elegantemente a acompanhava nas danças, agora era um pai de família casado há 4 anos.

 

 

 

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