Cruzando as águas do mundo I

Doze dias atravessando os mares, cruzando as águas do mundo entre Itália, Espanha, Portugal e Brasil, com a mesma finalidade que atraia cerca das 1.800 pessoas que viajavam na mesma embarcação: a esperança de uma vida melhor no exterior. Em meados da década de 60, aos 20 anos de idade, Tommaso Lipari partia de sua terra natal na cidade de Alcamo, região da Sicília – Itália com malas prontas para uma grande viagem que só terminaria no Porto de Santos, São Paulo.

Jovem, corajoso e pronto para enfrentar a vida, aceitou os convites da parte da família italiana já residente no Brasil e veio para São Paulo morar com os tios e avós, a fim de descobrir o tão sonhado território brasileiro. Na década de 60 a Itália vivia o período pós-guerra e as oportunidades de emprego pareciam escassas e restritas aos trabalhos braçais em fazendas. Já no Brasil, a situação parecia diferente. Seus tios já tinham emprego e carro, os avós tinham casa própria e a vida da família no Brasil prosseguia melhor em relação a sua outra parte deixada na Itália .

Hoje, com os cabelos brancos de um senhor beirando os 70 anos de idade, Seu Tommaso relembra a vida na pequena cidade de Alcamo que ainda hoje deixa rastros em sua fala levemente carregada de um sotaque italiano. “A vida era agricultura, trabalhava na roça, na plantação de uva dos pais, de trigo, aveia, favas, milho, girassol, algodão”

A pele clara com a face rosada entrega as origens européias que acompanham sua família. Filho de italianos tradicionais e sendo o mais velho da humilde família, trabalhou na roça desde sua infância até adolescência, vendo o raiar e o por do sol durante muitos anos. “Tinha que trabalhar, quando o sol aparecia até o sol ir embora, dia a dia. Sábado até umas 15h mais ou menos, andava de charrete porque era a 30 km da cidade, descansava domingo e voltava para a plantação na segunda. Ia de volta para a cidade no sábado.”

Dos 11 aos 20 anos de idade a rotina era a mesma. Às 3h30 da madrugada de cada segunda feira já estava de pé para viajar de charrete com o pai e acompanhá-lo no serviço do campo que ficava no interior, a 30 km da cidade. Durante toda a semana, pai e filho permaneciam na fazenda enquanto a mãe cuidava do lar e dos irmãos na cidade. Aos sábados, o trabalho seguia até as 15h. Domingo era o dia que restava para descansar em casa e se divertir um pouco na cidade antes de voltar à plantação na segunda. “De manhã, no domingo, eu limpava o cavalo da família, depois ia para a missa e mais tarde ia passear na avenida. A gente se juntava com os amigos, ficava olhando as meninas de longe. Esse era o nosso passeio naqueles tempos”.

Os tempos eram difíceis, a situação financeira do país não era das melhores e não existia motivação que animasse os habitantes de Alcamo, já cientes da vida que levariam no vilarejo. “Aquele tempo não era legal financeiramente, dava para viver, mas não tinha posse, não tinha dinheiro, carro, nem nada. Tinha as terras e, fora isso, só o cavalo e a charrete. Isso era tudo quando alguém casava. Hoje é mais fácil ter as coisas”.

A diversão dos rapazes era sair para a cidade e às 22h00 já era hora de voltar. “Subir e descer a avenida era o passeio, a distração do dia. Se fizesse frio ia para o cinema, era barato – 100 liras naqueles tempos”. Essa vida era privilégio só para os meninos, as moças mal saiam de casa e quando chegavam aos 15 anos de idade a mãe levava a filha à missa por volta do meio dia, já pensando em exibi-la aos possíveis interessados. Tommaso lembra que ficar em casa era ver o pai e a mãe conversando, um ao lado do outro, sem ao menos poder assistir televisão. “A 1ª TV que eu vi foi em 1958”. Nas ruas a turma frequentava os bares da avenida. “Bar na Itália é chique, não é boteco, é tudo limpinho, envidraçado. Como a gente tinha vinho da plantação de uvas em casa, o bar era ponto de encontro para os colegas homens”

Sem grandes novidades a vida prosseguia. Estudar e brincar como toda criança e adolescente, já não eram atividades possíveis. O amadurecimento logo veio e os estudos foram interrompidos na quinta série do primário para dar lugar ao trabalho na fazenda. Os namoros também não eram possíveis, não só pela falta de tempo para sair, mas principalmente pelos costumes antigos, pela rígida educação e hábitos mais recatados dos anos 50-60. As primeiras aproximações vieram aos 16 anos. Os namoros em segredo geralmente aconteciam em festas de casamento, quando dançavam e falavam sobre futuro e interesses em ficar juntos. “O namoro era conversa e não passava disso. A gente se cruzava quando a mãe levava para a missa, quando passava pela avenida, e quando tinha festas para dançar. Se dançava mais de uma vez, já era buchicho feito, a turma desconfiava muito rápido. Esse já era o tal namoro”

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