Histórias e estória de um jornalista maratonista – último

Corrida e Jornalismo

 Com a aproximação da reta final, os passos estão mais lentos, as pernas já não se sustentam e não mais obedecem a mente que, daí por diante, só espera o sinal de chegada para se desligar do corpo.

Um pouco exausto, mas já acostumado, Vicent libera as energias com uma característica sua muito conhecida entre seus colegas de treino: o grito de vitória, de missão cumprida. Engana-se quem pensa que esta comemoração só acontece em caso de medalhas. “Vencer uma corrida não é chegar em primeiro, é sentir que você se superou”.

Mesmo tendo mais de cinquenta troféus e aproximadamente 500 medalhas em sua coleção, e sendo o único jornalista que corre 10 km em 37 minutos – o que seria, em média, 1 km em menos de 4 minutos – nem sempre é possível ser o grande vencedor. Mas existem coisas na vida mais importantes que títulos e condecorações. A corrida já é em si a maior prova que Vicent pode ter até hoje. Não fosse seu compromisso com o atletismo, não teria experimentado todas as áreas do jornalismo pelas quais passou – já foi repórter, radialista, fotógrafo, cinegrafista, editor e redator. O grande prêmio que a corrida poderia lhe dar, ele já conquistou: a disciplina. Ser um bom competidor exige treinamentos metódicos e periódicos. “Ao criar uma pauta, uma matéria, um roteiro, o trabalho final de reportagem ou mesmo uma crônica, se complementa com a ordem e disciplina ao pensar e ao escrever”.

Quando se é jovem, as aventuras do jornalismo podem parecer mais atraentes e adequadas ao preparo físico. E o que dizer de um homem baixinho, magrelo e quase sem cabelo, de quarenta e poucos anos correndo entre os carros, alcançando pessoas pelas ruas, se arriscando em lugares desconhecidos e fotografando subúrbios da cidade?

– Ser repórter de rua, coisa que faço até hoje com muito amor, exige que tenhamos uma boa forma física e isso me mantém correndo. Já cai de palco, escalei montanhas, andei muitos quilômetros a pé para conseguir uma boa foto, ou um melhor enquadramento na fotografia.

Ser jornalista e maratonista é um diferencial que nem todos têm, e os que têm, talvez não unam as duas profissões como um bem social. No ano de 2009, a cobertura de uma tragédia na periferia da zona sul de São Paulo, foi a grande prova em seu caminho e a revelação de seu caráter. Na tarde de 24 de setembro, Vicent dirigia de volta para casa quando ouviu no rádio que um incêndio cobria a favela do Real Parque, no Morumbi. De repente, o telefone toca. Era um colega corredor e fotógrafo perguntando se o incêndio não se passava na rua do Nino, o carroceiro que corria entre eles. Desesperadamente muda a direção e vai ao encontro de Nino que desolado mostra as cinzas que restavam de seu barraco. Entre o que conseguira salvar das chamas estava aquilo que abalaria profundamente o experiente jornalista tantas vezes ensinado a ser forte e resistente: uma de suas medalhas suja de cinzas.

– Nino segurava sua medalha ainda quente e derretida com as mãos e roupas sujas de cinzas. A fumaça e poeira de cinza era tanta, que quando olhei no espelho retrovisor de meu carro vi a marca do caminho das lágrimas que chorei escondido lá no alto na Favela.

Após algumas fotos e depoimentos registrados, seu trabalho de fotojornalista já estaria completo, mas Vicent não estava lá simplesmente para satisfazer as exigências impessoais de seu sistema de trabalho. Ele foi além e, momentos depois, juntou seu poder de alcance como jornalista à sua popularidade como maratonista. Fez a matéria para a Contra Relógio, postou a história no blog da revista, pediu divulgações em sites de outros corredores e veículos especializados no assunto, disparou fotos pela internet, e pelas redes sociais lançou a campanha SOS Nino com o intuito de conseguir abrigo e ajuda para o carroceiro e sua família. A divulgação repercutiu em diferentes mídias e as contribuições vieram de todos os estados do país. Logo Nino estava doando boa parte do que tinha para os vizinhos da comunidade, explicando que recebera tantas doações que já era hora de compartilhar. Vicent tornara Nino o carroceiro corredor que marcaria além de sua experiência jornalística, sua consciência humana.

– Sou uma ferramenta social – se eu não conseguir atuar e ajudar a melhorar meu ambiente, o meio que vivo… de nada serve meu trabalho. O jornalista que trabalha sem ideal é meio jornalista, pois é necessário sempre ter causas para defender – causas sociais e não políticas. Sociais porque esse tipo de causa tem o objetivo único de melhorar o homem e seu ambiente.

Esta rotina de trabalho parece até bagunçar a cabeça de Vicent que já não mais se dá conta de chegar aos horários combinados e cumprir os compromissos a que se dispõe com tanta boa vontade. Agendar encontros com ele é estar disposto a esperar alguns atrasos, até mesmo de horas, e entender que a agitada correria de seus dias combina com sua pessoa e faz parte de sua natureza. Esta vida pode parecer loucura, mas é complemento daquilo que Vicent buscou como felicidade e não teve medo de seguir: o trabalho de jornalista e maratonista.

Quando chega ao encontros marcados, mesmo para seus trabalhos eventuais de fotografias para Sergio Rondino, assessor de Kassab, na Prefeitura, traz sempre uma nova história tão interessante que até esquecemos seus atrasos. Histórias, como já é de se imaginar, cheias de acontecimentos incríveis. Como todo bom contador, ele dá um tom surreal às narrativas, tanto que se torna difícil distinguir qual a verdadeira dimensão dos fatos. Talvez, para descobrir este mistério, teria que acompanhá-lo por mais tempo e, como não poderia deixar de ser, estar bem condicionada para correr longos quilômetros ao seu lado.

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