História e estórias de um jornalista maratonista I

Os participantes se preparam, conferem os últimos detalhes, alongam, se aquecem e seguem rumo à fila para então fazer parte da multidão que se aglomera a espera da largada. Em meio à diversidade de pernas, de todos os tamanhos e cores, lá está uma figura de 1.74 metros de altura. Conversador, como bom comunicador que o é, José Vicent Sobrinho está sempre em movimento. Cumprimenta os colegas de treino, conversa com todos ao redor, e de forma descontraída, mas não menos determinada, volta à concentração para os próximos quilômetros que o aguardam dali a alguns minutos. Levemente calvo e com alguns poucos cabelos brancos, mas com o físico de atleta, o sorriso estampado no rosto e agitação constante, não aparenta os 45 anos vividos.

A largada se aproxima, Vicent se prepara fisicamente e espiritualmente para, mais uma vez, enfrentar sua aventura. Cada prova é um novo desafio e como em toda competição, é um momento de ansiedade, até mesmo para os mais habituados como Vicent que já participou de mais de 600 provas e corre desde os 14 anos de idade. A seriedade com que leva seu esporte já lhe rendeu medalhas de ouro por dois anos consecutivos na categoria Imprensa da Maratona 2010 e na Meia Maratona 2011 no Rio de Janeiro.

Fora das pistas, Vicent lida com pautas e fotos. Ele é jornalista da revista Contra Relógio, especializada, é claro, em corrida, e dedica mais uma parte de seu dia a dia ao fotojornalismo. E assim sua vida se torna uma incessante prova de corrida com obstáculos imprevistos e aventuras inéditas para as quais deve estar preparado para realizar. Seu modo positivo de ver a vida e o gosto com que desenvolve seus ofícios transformam sua jornada em uma combinação de prazer e emoção.

Com mais de 30 anos nas pistas e centenas de competições, já correu tantos quilômetros que teria o equivalente a duas voltas na Terra. Não só é o jornalista mais rápido do Brasil como também um dos maratonistas mais viajados. Trabalhou como jornalista e fotógrafo na Espanha, França, Rússia e Estados Unidos, e em todos esses países aproveitou também para dar suas corridinhas. Quando perguntado sobre idiomas aprendidos, sem hesitar ele responde: “já viajei para 12 países e ainda não sei falar inglês”.

Os grandes números em sua trajetória não param por aí. Como fotojornalista Vicent soma mais de 100 mil flashes, muitos deles publicados em veículos como Jornal do Brasil, Boletim da Subprefeitura Butantã, Diário Oficial de São Paulo e Jornal Caderno SP, além de revistas institucionais como Academia Curves.

Juntamente com o esporte, o jornalismo foi a grande descoberta em sua vida. Aos 18 anos entrou na faculdade Cásper Líbero para cursar jornalismo. “Naquela época (1987) todos achavam que fazer jornalismo era para trabalhar na TV Globo“. Quando Vicent entrou na faculdade já trabalhava no escritório do banco Itaú carimbando e furando cheques. Emocionado com sua nova paixão entendeu que deveria descobrir mais sobre a nova profissão e, para isso, largou o emprego no banco.

Jovem de família humilde morava com os pais e os quatro irmãos no bairro de Itaquera, na Zona Leste de São Paulo, é o primogênito de cinco filhos. Seus pais se casaram jovens, a mãe com 19 e o pai com 20 anos. Como o irmão mais velho tem que servir de exemplo para a família, ele conta que sofreu bastante por ter sido “o primeiro teste do jovem casal”. Hoje, de forma divertida, ele lembra a reação de seu pai ao vê-lo em casa no dia seguinte ao abandono do emprego. “Eu pedi as contas e não avisei meu pai. Fiquei desempregado e meu pai ficou questionando por que eu estava em casa, falando que eu estava louco, que a gente era pobre e não dava para ficar escolhendo”. Passado o momento de tensão, seu pai logo o alertara que pagaria a faculdade por apenas mais um mês e, após este período, o filho deveria estar empregado se quisesse continuar o curso. Vicent conta que após a conversa, ou melhor, a bronca levada do pai, ficou desesperado e seguiu em busca de emprego da maneira que podia.

– E como fez para conseguir?

-Subi na mesa do professor e fiquei falando: Se ninguém me arrumar emprego vou ter que sair da faculdade, vou ter que abandonar todos vocês.

Quando menino, era ainda mais agitado e gostava de conversar com as pessoas, fazia amizade facilmente. Animado e proativo, era quase impossível passar despercebido. Com o entusiasmo de um jovem em busca de aventuras e conhecimentos no mundo, Vicent vivia o ápice de seu encanto com o jornalismo. E com toda essa vontade de desenvolver a prática, se tornava uma figura marcante entre os colegas de classe, ponto que o favoreceu para arrumar o primeiro emprego na área, logo em seu primeiro ano de faculdade, em 1987.

– Na época eu tinha cabelo, era gato, e uma colega de faculdade – uma fã minha – me arrumou um emprego, ela era japonesa e me chamou para trabalhar ao lado dela no Banco América do Sul (BAS), que é o banco da colônia japonesa, e lá aprendi a fazer o jornal do banco, que hoje seria um treinamento para twitter.

– Como twitter naquele tempo?

– Não, não. Eu usei twitter para comparar com os dias de hoje, que você tem que passar o recado em poucos caracteres. Na época, eu tinha que criar haikai, um micro poema japonês com 17 sílabas. Com isso eu aprendi a fazer manchetes, porque era para ser coisa curtinha.

A junção de arte com o jornalismo seria um ponto importante para sua trajetória. Com orgulho e empolgação em cada palavra dita, ele conta que seu poema Espelho foi publicado no Japão, em 1988, e lhe rendeu a premiação de uma bolsa de estudos de 50% por um ano, como reconhecimento por parte do presidente Fujio Tachibana, do BAS.

Nesse período, entra na faculdade, sai do Itaú e consegue seu primeiro emprego, e é principalmente nesta fase que começa grande parte de suas aventuras pelo jornalismo. O emprego no BAS foi a oportunidade de aprendizado para sua carreira. Lá teve seu primeiro grande reconhecimento e seu primeiro furo de reportagem. Quando lembra de tal experiência, o José Vicent de hoje, com o pensamento mais maduro de um jornalista já calejado, passa por suas próprias memórias vendo as cabeçadas do menino ingênuo e novato que era há 23 anos.

– Minha primeira matéria foi fora de São Paulo. Fui pautado para descobrir uma colônia japonesa em Aracajú (Sergipe), para uma matéria especial na revista do BAS – sobre a comemoração dos 80 anos da colônia japonesa. Foi até engraçado. Na época eu era moleque de tudo, sem experiência nenhuma. Era minha primeira reportagem e eu não tinha malícia de nada. Tinha aqueles medos normais de não saber direcionar a pergunta para a pessoa. E outra, eu nunca tinha saído de São Paulo, esta era a primeira vez que eu andava de avião. Fui parar em Sergipe para ficar três dias e estava totalmente despreparado. Só tinha roupa de frio na mala e lá fazia um baita calor.

– E como se achou ao chegar lá?

– Chegando lá, tinha uma equipe me esperando. Fui recepcionado pelo gerente da agência do Banco América do Sul de Aracajú-SE. Fiquei até meio envergonhado, porque para eles era importante alguém de São Paulo fazer entrevista, eles pensavam: “Ohh, é um repórter enviado de São Paulo”.

Ao contar suas histórias, ele fala tão rápido e com diversos acontecimentos ocorrendo no mesmo tempo narrado que por vezes se torna difícil acompanhar o raciocínio de forma linear, sem perder o ponto que é preciso detalhar. Seu jeito animado e inquieto, o torna um admirável contador de histórias da vida real. Vicent conta tudo de um jeito tão impressionante que a primeira coisa que se imagina é que se está ao lado de uma personalidade – há a pretensão de uma entrevista no Programa do Jô.  Enquanto conversamos a caminho dos endereços de suas pautas fotográficas, às vezes se dispersa de nosso papo e ajuda a motorista do carro a encontrar o local, e em tom de brincadeira diz:

– A senhora fique tranquila que já, já chegamos ao lugar certo, depois acaba e a senhora não vai precisar mais me aguentar no carro.

– Imagina, eu adoro ouvir pessoas inteligentes.

Vicent tem esse dom de cativar as pessoas, é um “maximizador”, consegue transformar as aventuras de sua vida em um grande livro que, mesmo sem uma página escrita, já envolve o leitor de tal maneira que não seria difícil imaginar uma fila de seus curiosos espectadores querendo adquirir sua biografia. Todo este fascínio que exerce sobre aqueles ao seu redor se explica através de seu olhar que, neste caso, transcende a fisionomia física e enxerga além de estereótipos. O olhar já treinado pela profissão de fotojornalista poderia estar defasado, mas Vicent trata cada foto como um momento único e especial. E é este o segredo que leva do trabalho para a vida. As pessoas para ele não são meros figurantes de suas fotografias. Seu olhar carrega afeição. Sua passagem pelas pessoas é marcante e transmite àqueles dos quais se aproxima a sensação de unicidade. Por mais simples e rápido que seja o contato, consegue trazer a um momento tão passageiro uma aproximação especial. Como diria Joseph Campbell em O poder do Mito: “a pessoa cheia de vitalidade exerce uma influência vitalizadora”

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2 Responses to “História e estórias de um jornalista maratonista I”


  1. 1 Vicent Sobrinho 6 de novembro de 2011 às 7:14 PM

    Puxa… me sinto lisongeado com esse bonito trabalho. Agradeço humildemente por ter sido escolhido por você. Creio que sou apenas uma ferramenta social. Peço a Deus que mantenha sempre o jovens jornalista com essa luz acessa que você Viviane possui. É essa a centelha do talento. Você com certeza se destacará afinal… sabe realizar uma boa pesquisa e finalizar numa ótima redação.

    Parabéns e sempre que eu puder colaborar… é só avisar.

    abçs

    • 2 zilma 5 de dezembro de 2011 às 7:14 PM

      Você retratou muito bem a figura do Vicent cheio de istórias que envolve a gente e por mais que não tenha tanta intimidade a sensação que se tem é que ele é um membro conhecido da nossa familia.Bonita e intelegente matéria parabéns.


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