Arquivo para setembro \10\UTC 2011

Pensando e se equivocando com o que é ser jornalista…

Impressões de uma universitária em fim de curso e início de carreira são apresentadas e compartilhadas pela autora do post

Por Viviane Shinzato
 

Levando em conta que a prática do jornalismo se dá no exercício de ouvir, transmitir as memórias e entender as pessoas, esta não pode ser uma prática que se resume a tradução de depoimentos. Estudar em uma faculdade de jornalismo pode, a depender do ponto de vista, ser o treino para o colhimento de informações e falas alheias, mas também pode ir além e significar a recusa desta como principal função que, apesar de ter espaço no mercado de trabalho, não representa o fazer jornalístico.

Ao entrar na faculdade, sem saber ao certo o que será estudado, os pensamentos sobre a profissão e a atuação de um jornalista são vagos, por vezes muito pontuais ou até mesmo amplos demais. Ao escolher a profissão, eu pensava em transformação do mundo ou de, pelo menos, algumas coisas erradas que acontecem. Ao longo dos meses, a percepção muda e o contato com os professores nos faz pensar mais e de forma realista, nos abrem caminhos para entender o que pode ser jornalismo e como podemos praticar. Percebi que por todos estes meses de aula, os professores, em sua maioria, nos treinavam para aprender a pensar o que hoje percebo já ser parte de mim: a vontade de conhecer o desconhecido, como Campbell ressalta em O Poder do Mito “os mitos abrem o mundo para a dimensão do mistério, para a consciência do mistério que subjaz a todas as formas”. (CAMPBELL, online, p.44)

Hoje entendo que cada passo dado durante os anos de estudo me fizeram pensar e analisar o mundo, a vida e as pessoas de forma diferente. Se o entendimento de Campbell para o mito valer a comparação com os mestres que encontrei durante as etapas da faculdade, certos professores seriam os mitos que Campbell (p.22) cita como sendo histórias sobre sabedorias de vida. Por vezes, a Universidade me dá a impressão de ser um campo do saber técnico, no entanto, muitos professores que tive contato souberam conduzir as aulas, não como acúmulo de informações e tecnologias, mas, como um caminho que, como diz Campbell, “indica os valores de vida de seus assuntos”. (CAMPBELL, online, p. 22)

Entendo que o jornalista não é apenas o generalista que deve entender as informações para repassá-las, ou aquele ser que lida com a organização de problemas a serem transmitidos em público; o jornalista precisa ser, antes de tudo, humano em sua essência. A melhor coisa, ou uma das melhores, que aprendi com o jornalismo é a prática de como ver a vida, aquela prática que só se percebe quando entramos em um lugar e deixamos que o ambiente propicie-nos a experiência. Entrar em cada lugar e sair com algo a mais, sem descartar a experiência obtida, de modo que volte ao outro lado trazendo consigo algo do outro tempo e contato vividos, é uma maneira de transformação da consciência, bem como a exemplificada por Joseph Campbell.

Apenas como exemplo: eu caminho pela Rua 51 e pela Quinta Avenida, e entro na catedral de St. Patrick. Deixei para trás uma cidade muito agitada, uma das cidades economicamente mais privilegiadas do planeta. Uma vez no interior da catedral, tudo ao meu redor fala de mistérios espirituais. O mistério da cruz – o que vem a ser, afinal? Vejo os vitrais, responsáveis por uma forte atmosfera interior. Minha consciência foi levada a outro nível, a um só tempo, e eu me encontro num patamar diferente. Depois saio e eis-me outra vez de volta ao nível da rua. Ora, posso eu reter alguma coisa da consciência que tive quando me encontrava dentro da catedral? (CAMPBELL, online, p. 29)

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