Arquivo para maio \29\UTC 2011

Cachorrinha com partes do corpo queimadas precisa de ajuda

Pedimos ajuda para uma cachorrinha que encontramos na rua, perto de uma favela da região que moramos. Ele está com partes do corpo em pele viva. Ela foi queimada com alguma substância quente (óleo ou água) e está com partes do corpo com pele e carne viva, totalmente expostas. Uma colega, que também ajuda muito em causas animais, está com ela em casa, dando os primeiros socorros e vem contando com a boa vontade de um veterinário  que também se mobiliza nestas causas e faz o que pode para tratar dos animais.

Estamos sempre nos envolvendo com estes casos de retirada de animais da rua para possíveis adoções. Dias atrás ajudamos um outro cachorro de rua, que estava sem movimento nas patas traseiras. Fizemos rifa a fim de arrecadar dinheiro para o tratamento, mas, infelizmente, mesmo depois de tudo, não deu certo e ele precisou ser sacrificado. Hoje, não temos mais dinheiro para cuidar de outro animal (também em terríveis condições), não temos mais meios para arrecadar dinheiro e precisamos recorrer a ONGs e protetores que possam nos ajudar neste caso.

A ajuda pode ser até mesmo o contato com pessoas que possam assumir o caso. Alguém precisa adotar a cachorrinha e creio que, em primeiro lugar, seja necessária uma internação ou assistência em clínica veterinária que faça parte de ONGs ou que façam trabalhos de assistência.

As consultas veterinárias ajudam, mas ainda assim precisam ser frequentes, precisamos mesmo é encontrar uma clínica para interná-la, como os próprios veterinários aconselharam até o momento. A questão que dificulta neste caso é o valor cobrado por internações de veterinários. Se a internação se resumir a um valor fixo para ser pago ao fim do tratamento, tudo bem, mas as clínicas cobram por DIA e não há doação que dê conta de pagar diariamente. Recebemos algumas doações e outras ajudas com produtos e materiais usados na limpeza da cachorrinha, mas todo dia a Mirian usa a pomada na cachorrinha e a cada semana vai 2 tubinhos de pomada. Para os que puderem ajudar, seguem os meios:
Contatos:
Fones: 11 3782 5006 /11 9161 411511 / 3397 4530
e-mail: vivis.shinzato@gmail.com
ou vshinzato@prefeitura.sp.gov.br

Mirian (SP)
tel celular OI: 11 6208-6297
Vivo: 11 7235-2352
Fixo: 11 3497-3552
Do Davi: 11 6999-7799 / 11 3785-2316
Conta para quem quiser contribuir
Banco do Brasil
Ag.0637-8
C.C 804-4
Mirian da Silva Ferreira

cachorrinha queimada na parte traseira do corpo

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Começo do resto do fim

É um tanto estranha a sensação de visitar um lugar no qual você já passou diversas vezes, mas, assim como todos os viajantes, nunca viu nada além daquilo que os breves olhares de dentro do carro lhe permitem ver. As rápidas passagens aos finais de semana não seriam suficientes para imaginar o cenário que ali existia. Um cenário da vida real, com personagens que se apresentam como moradores que, de tão esquecidos, se tornam meros figurantes de uma cena que aparece em todos os palcos da cidade. Esquecidos e descartados como o lixo que compõe seu próprio ambiente, os personagens que dão vida à cena, cada dia mais ganham ar de invisibilidade e se tornam indiferentes aos olhos dos visitantes e habitantes da cidade de Ibiúna.

Ruas sem movimento, quilômetros e quilômetros de vegetação e matos gigantescos que não acabam mais. Eis que surge neste meio – entre mato, terra e asfalto – um vasto e amplo terreno que confunde aqueles que tentam decifrar o que se passa ali. De um lado, uma caçamba de lixo, um toco de árvore entrelaçado por pneus e partes de um cercado de arame largados em um canto; de outro, uma espécie de barraca de madeira desmontada, montes de lixo, matos não aparados, fezes de animais e cachorros abandonados. No meio, um caminho de terra permeado de pedras, matos e restos. Restos do que parecia ser um sofá, restos de pedaços de vidro, de embalagens, brinquedos e tantos outros objetos que, devido à ação do tempo, se tornam irreconhecíveis.

Muros feitos com pedaços de madeira criam uma espécie de corredor que adentra o terreno com a casa. Um olhar de longe dá uma prévia da amplitude do espaço que se tem à frente, mas não te deixa mensurar ou sequer imaginar a diversidade, a particularidade e o mundo de coisas e detalhes que fazem parte daquele horizonte. Sem barreiras físicas que impeçam seguir adiante, a entrada se torna simbólica. Em um ambiente pouco movimentado, onde as pessoas estão sempre de passagem e suas paradas se traduzem em “lixo para as caçambas”, minha presença como observadora logo foi notada.

Desconfiado, mas interessado em descobrir quem era a estranha visita, surge – dos fundos do terreno em direção à frente – um pequeno garoto que enquanto se apresenta equilibra-se com seus pés descalços sobre uma pedra de tijolo. Caminha por entre pedras e fezes de cachorro no pequeno amontoado de lixo, em um dos lados que contorna o caminho de entrada. O garoto, que logo eu descobrira se chamar Richard, contou-me ter apenas seis anos. Perguntei por sua mãe e ele apenas disse: “Estou na casa da minha babá”. Ainda sem compreender o que o garoto explicava, puxei conversa sobre sua mãe, que Richard explicou estar trabalhando – mesmo sendo sábado, e que por este motivo estavam ele e seu irmão mais novo na casa da Nina, a babá, até que sua mãe voltasse para buscá-los mais tarde. Sendo assim, quis conhecer a única pessoa responsável pela casa: a babá do Richard. Mas descobri que ela também não estava e quem cuidava das crianças “no momento” – que durou a tarde inteira – eram as filhas da Nina.

Enquanto olho para o fundo daquele terreno separado pelos cercados de madeira com tábuas, uma jovem levanta o gato até o colo e quando o leva ao chão, olha para os lados e percebe a ausência de Richard, que neste momento conversava com a estranha visita. Acanhada e com visível estranhamento, a menina caminha até mim timidamente e assim responde aos cumprimentos. Informa que Nina, sua mãe, não está. Explico o motivo de minha visita e, sem demora, me convido para entrar e ser apresentada ao lugar, de forma a conhecer tudo que pudesse me mostrar e contar.

A jovem chamada Raíssa revela que morar naquele lugar é “normal”. Certamente não é o que gostaria uma menina de 16 anos que preferiria ter amigos por perto e não viver isolada, rodeada por mato, em um terreno à beira da estrada. Mas, como explica, ela e os três irmãos não tiveram opções, já que sua mãe precisou se mudar com os filhos porque, diferentemente da moradia anterior, neste lugar não se paga luz, água nem aluguel. A garota me mostra a grande área verde de um lado do terreno -um projeto de horta que há pouco funcionava como fonte de renda para os antigos moradores. Ali mantinham uma barraca de verduras até que os negócios falissem por falta de dinheiro para manter a plantação.

Em contraste com o verde da horta, o dourado dos pelos brilham à luz do sol. Desconfiada com minha chegada, a cadela se volta para seus dois filhotes que restaram da cria, os poucos que ainda não tiveram o trágico destino reservado aos animais que circulam naquele espaço, onde o fim do terreno e o começo da estrada são quase imperceptíveis. Nascer, procriar, morrer atropelado e apodrecer à espera do recolhimento do corpo, este é o destino comum a todos esses animais.

Uma caçamba carrega um mundo de subjetividades, e acrescenta àqueles que com ela convivem histórias impressionantes em que o ponto de partida e retorno está sempre ligado ao lixo. Neste lugar, animais mortos, e também vivos, são jogados como uma extensão daquilo que se pode descartar. Um exemplo vívido na lembrança de Raíssa é o que sua mãe conta sobre um tempo passado, quando naquela caçamba o corpo de um homem amanhecera entre os lixos.

A existência da caçamba não se resume simplesmente ao espaço físico, mas ao modo como interfere e influencia nos modos de vida, na relação pessoa-ambiente. Os canteiros de lixo não se restringem apenas às proximidades da caçamba – onde a maior parte se concentra – mas continuam por todos os espaços e seguem até o último metro quadrado, desde a divisa com a estrada até os fundos da casa – talvez o quintal.

Material de construção estragado, pé de bota meio enterrado, par de sapatos infantis, carrinho de bebê, embalagem de cigarro, garrafas, pedaços de cano, pote de shampoo, relógios petrificados, móveis, microondas, geladeira, ferro de passar, carrinho de brinquedo, colchão rasgado, e tudo o mais que se pode imaginar, até mesmo o inimaginável, como uma grande porca em um pequeno canteiro de madeira.

A porca é mais uma habitante daquele cenário, mas, ao contrário dos outros animais, não tem o direito de circular, e, assim como os outros moradores- pessoas e animais, nem sempre tem o que comer. A alimentação é como a dos cachorros. Só acontece quando um viajante comovido faz sua doação.

Na casa o cenário é diferente. Já não há móveis espalhados, objetos revirados e a bagunça que se encontra a poucos metros dali. A construção é simples, sem acabamento, com paredes ainda no cimento bruto e cômodos diminutos. Um puxadinho faz-se lavanderia, dá entrada à cozinha, que está ao lado da sala e de frente para dois quartos. Vindo de um dos quartos ouve-se o choro de uma criança, um som então calmo, mas que se torna estridente ao passo que me aproximo. O bebê, de menos de um ano, assim como o irmão Richard, aguardava a mãe na casa da babá, sob os cuidados das filhas da babá, as gêmeas Raíssa e Thaíssa.

O cenário de lixo e miséria pode parecer para muitos, à primeira impressão, o local onde a vida termina. Já perto da despedida, depois do Richard e seu irmão, de Raíssa e Thaíssa, depois de gatos, cachorros e a porca … chego a outra reflexão.  Acabo de perceber que ali é tudo ao mesmo tempo: onde o mundo termina em restos, mas sobretudo, onde vidas começam.


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