Arquivo para fevereiro \20\UTC 2011

“Todo carnaval tem seu fim…”

“Moro num país tropical…abençoado por Deus”. Será?

Por Viviane Shinzato

A cada dia que passa fico mais indignada com algumas medidas tomadas pelas autoridades deste país. Sem precisar citar dados e pesquisas, já é do conhecimento de todos que o Brasil é um país POBRE. Por mais que a riqueza exista e as previsões de economistas e estudiosos incluam o Brasil nas grandes potências, nos BRICs e etc, o país ainda é um retrato de miséria, fome e, como não poderia deixar de ser, é um país de muita precariedade na educação, no sistema de saúde, no sistema carcerário e em muitos outros sistemas, inclusive político. (não dá para listar tudo, se não no lugar de um post, vira um livro).

Durante toda semana o assunto mais falado na editoria política era a votação do Salário mínimo; na editoria “Mediocridade coletiva” (palavras de John Stuart Mill )era BBB e Ronaldo; na editoria Saúde era hipotireoidismo; na editoria “Matérias distorcidas” era o confronto covarde entre polícia e manifestantes na sede da prefeitura – SP; e na parte de “Comédia” era a estreia de Tiririca na Câmara.

Sim, sim, inventei algumas editorias. Tudo isso para mostrar os assuntos mais comentados na imprensa, alguns com muita importância e outros de pouca ou nenhuma relevância para a vida de nós seres humanos brasileiros – é importante ressaltar esta classificação. Analisando estes assuntos que ganharam destaque, penso que a discussão do salário mínimo nos fez entender uma coisa: que o governo nunca tem dinheiro para o povo. Sei que as contas públicas não suportariam um valor acima do proposto, sei que existem cálculos que comprovam que não podem subir o mínimo – visto o quanto o país precisa economizar- , mas também sei que, enquanto isso, mais entidades – não só deputados e políticos – ganham em cima do nosso dinheiro.

Além de entregarmos nosso dinheiro às honestas e competentes autoridades deste país, estas queridas figuras também fazem grandes negócios com nosso dinheiro. Como se não bastasse sustentar gastos supérfluos de deputados, ainda (sem nosso consentimento) socorremos (por meio de nossos representantes) escolas de SAMBA que precisam se recuperar até o dia do carnaval. Pobrezinhos!E, para isso, o Governo faz grandes doações e consegue apoio de empresas para não deixar a festa estragar (como são prestativos, não?). É claro…o show tem que continuar.

Enfia mais carnaval e festa no …do povo para que esse bando de ignorantes pare de torrar a paciência pedindo diminuição da passagem e aumento de salário mínimo. Deve ser assim que eles falam nas reuniões. Eita política do pão e circo!!! Não é a toa que o Lippman tinha um carinho especial pelas massas. “A massa de analfabetos absolutos, imbecis, neuróticos grosseiros, indivíduos subnutridos e frustrados […]” (p. 77, LIPPMANN, Walter. Opinião Pública.)

Para quem ainda não entendeu, talvez tenha sido difícil mesmo, estou me referindo às ações de urgência que empresas e governo tomaram para ajudar escolas de samba.

Governo anuncia verba de R$12 milhões para Carnaval do Rio”

Gostaria de lembrar se alguma vez já houve tamanho incentivo para escolas de educação (e não de samba) ou programas de saúde, mas não sei por que não me vem à memória alguma ação deste tipo voltada para a população carente.

Além desta humilde ajuda, o governo também foi muito prestativo quando o galpão de uma escola de samba pegou fogo. Para não deixar os carnavalescos na mão, nossas autoridades e grandes empresas deram um jeitinho e doaram mais um dinheirinho.

Rio consegue de empresas os R$ 3 milhões para escolas de samba

Certo. Esta cidade chamada Rio de Janeiro sofreu uma das piores catástrofes de todos os anos. Famílias perderam tudo que tinham nas enchentes. Pessoas precisavam sair das áreas de risco com uma ajuda de custo em torno de R$300,00. Mães perdem seus filhos para a briga do tráfico. Animais se perdem dos donos durante a tragédia e dobra o número de bichos abandonados. Pessoas de todos os lugares se mobilizam para ajudar na recuperação da cidade que ficou devastada.

Todas essas manchetes e muitas outras foram as notícias do mês inteiro, mas onde está a preocupação das autoridades? E os carnavalescos habitantes desta cidade …conseguem festejar e receber dinheiro para bancar uma festa de mulher pelada enquanto muitos ficaram desabrigados e passam fome?

Não é de hoje, eu sei, mas  o carnaval está passando dos limites. Vendo este tanto de coisas dando erradas,  tem horas que penso que Deus até tentou acabar com essa farra, mas o desvio de dinheiro e o faturamento é tanto que o governo não deixou.Uma festa que movimenta tanto dinheiro e mobiliza tanto as autoridades a ponto de desrespeitar a população, e como vocês verão, até os animais, não deve ser coisa boa.

Jaguatirica no carnaval causa polêmica

Não é possível que até nisso as autoridades vão fazer vistas grossas. Até que ponto o carnaval pode chegar?Levar um animal para um desfile e sem autorização do IBAMA também é normal? De acordo com a matéria, a escola de samba Tom Maior disse que não vai pedir  autorização, já que o IBAMA pode ser contra e assim estragar a festa. (Ah se eu pudesse matar um imbecil desses)

Sei que pode ser egoísmo e uma coisa não tem relação com a outra. Mesmo que eu não concorde com a atitude do motorista, a raiva do carnval chegou a tanto que não consigo me chocar com esta notícia:

Motorista invade avenida com bloco carnavalesco e atropela 18 em Maceió

Em crítica postada em seu twitter, Danilo Gentilli do CQC desaprovou a atitude do governo em gastar com o carnaval. A manifestação do humorista causou indignação entre os organizadores do carnaval do Rio, que alegaram que a putaria, ops, o carnaval, não pode acabar, já que é um impulso para o turismo, fonte de sobrevivência e de renda para muitas famílias e etc. Ok, ok, ok!!! Pode ser que seja mesmo tudo de bom.

Por outro lado…não seria mais interessante fazer esta renda – atualmente gasta em carnaval – ser revertida em ações cotidianas na vida das pessoas? Se o país se levasse a sério, e o dinheiro fosse usado em educação, saúde e transporte- não em futilidades, ver famílias dependerem de festas para sobreviver seria algo muito estranho. E se  fizéssemos uma troca? Empresas destinando 3 milhões de reais para a educação, e governo dividindo os 12 milhões entre transporte, saúde e empregos…não seria uma troca mais justa? Pelo menos assim livraríamos também, como citam os organizadores do carnaval, as famílias que dependem deste evento para viver.

Fiquem com um trecho da música do Los Hermanos, que pode não ter o significado do post, mas serviu para o que eu quis dizer:

Todo o carnaval tem seu fim
E é o fim, e é o fim

Deixa eu brincar de ser feliz,
Deixa eu pintar o meu nariz

Descobri o complemento que eu precisava para ilustrar tudo que penso e tentei expressar neste texto. Para você que leu e ainda tem mais a acrescentar, este vídeo deve satisfazer tudo; para quem leu até metade, o vídeo segue minhas ideias e apresenta outras que eu não havia formulado; para quem não teve saco de ler inteiro e prefere ver imagens, o vídeo fala pelo post. Digamos que este seja o complemento que traduz e reduz todas as palavras que usei aqui. Fico lisonjeada em ver que ainda existem bons críticos e jornalistas que não temem a aversão do povo e a ignorância daqueles que nunca vão entender seus comentários.


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Cotidiano

Olá para as poucas pessoas que ainda entram neste blog…

Hoje o post será um pouco diferente, com autoria de grande nome, um dos melhores escritores brasileiros e um dos melhores cronistas que eu já li….Luis Fernando Veríssimo!!!!

Gosto muito dele porque ele tem um modo especial de desenvolver os diálogos e, na minha humilde opinião, este é um dos maiores desafios de um escritor. Como fazer o diálogo entre diversos personagens (que não existem) acontecer de maneira engraçada, natural e bem próxima da vida real, sem ficar tosco ou artificial?

O Fernando Veríssimo conseguiu retratar muito bem o que seria uma conversa de pensamento entre um homem e uma mulher em uma sala de espera de dentista, um ambiente tão banal. A crônica ficou muito engraçada e bastante natural. Ao ler o texto é possível criar o personagem em sua imaginação, conseguimos pensar até mesmo no ambiente em que eles se encontram.

O que tanto me chamou a atenção para esta crônica é a maneira como os pensamentos se dão durante a “conversa”, de forma tão natural, que é até normal e bem provável vir à mente de qualquer pessoa que aguarda em uma sala de espera. O mais engraçado é que as pessoas invariavelmente devem pensar coisas do gênero, mas ninguém vai pensar nisso poucos segundos depois.

Creio que este seja um pensamento muito comum de vir à nossa fértil imaginação, mas por ser tão rápido e muitas vezes imperceptível, não lembramos que chegamos a pensar assim. Então quando alguém faz uma crônica sobre isso, conseguimos nos identificar com a figura dos personagens, mesmo que de forma distante, e entendemos exatamente o que vem ao pensamento de cada um deles, no caso, o homem e a mulher. A única diferença está na maneira como o autor retrata a imaginação dos dois, trazendo à tona – e em maior amplitude – uma circunstância tão corriqueira, embora pouco notória em nossa vida.

Vale à pena dar um pouquinho do seu tempo para ler uma das melhores crônicas tirada do livro “Comédias da Vida Privada, 101 crônicas escolhidas”, do autor “Mestre do Cotidiano”.

Sala de espera

Sala de espera de dentista. Homem dos seus quarenta anos. Mulher jovem e bonita. Ela folheia uma Cruzeiro de 1950. Ele finge que lê uma Vida dentária.

Ele pensa: que mulherão. Que pernas. Coisa rara, ver pernas hoje em dia. Anda todo mundo de jeans. Voltamos à época em que o máximo era espiar um tornozelo. Sempre fui um homem de pernas. Pernas com meias. Meias de náilon. Como eu sou antigo. Bom era o barulhinho. Suish-suish. Elas cruzavam as pernas e fazia suish-suish. Eu era doido por um suish-suish.

Ela pensa: cara engraçado. Lendo a revista de cabeça para baixo.

Ele: te arranco a roupa e te beijo toda. Começando pelo pé. Que cena. A enfermeira abre a porta e nos encontra nus sobre o carpete, eu beijando o pé. O que é isso?! Não é o que a senhora está pensando. É que entrou um cisco no olho desta moça e eu estou tentando tirar. Mas o olho é na outra ponta! Eu ia chegar lá. Eu ia chegar lá.

Ela: ele está olhando as minhas pernas por baixo da revista. Vou descruzar as pernas e cruzar de novo. Só para ele aprender.

Ele: ela descruzou e cruzou de novo! Ai meu Deus. Foi pra me matar. Ela sabe que eu estou olhando. Também, a revista está de cabeça pra baixo. E agora? Vou ter que dizer alguma coisa.

Ela: ele até que é simpático, coitado. Grisalho. Distinto. Vai dizer alguma coisa…

Ele: o que é que eu digo? Tenho que fazer alguma referência à revista virada. Não posso deixar que ela me considere um bobo. Não sou um adolescente. Finjo que examino a revista mais de perto, depois digo “Sabe que só agora me dei conta de que estava lendo essa revista de cabeça para baixo? Pensei que fosse em russo.” Aí ela ri e eu digo “E essa sua Cruzeiro? Tão antiga que deve estar impressa em pergaminho, é ou não é? Deve ter desenhos infantis do Millôr.” Aí riremos os dois, civilizadamente. Falaremos nas eleições e na vida em geral. Afinal, somos duas pessoas normais, reunidas por circunstância numa sala de espera. Conversaremos cordialmente. Aí eu dou um pulo e arranco toda a roupa dela.

Ela: ele vai falar ou não? É do tipo tímido. Vai dizer que tempo, né? A senhora não acha? É do tipo que pergunta “Senhora ou senhorita?” Até que seria diferente. Hoje em dia a maioria já entra rachando… Vamos variar de posição, boneca? Mas espere, nós ainda nem nos conhecemos, não fizemos amor em posição nenhuma! É que eu odeio as preliminares. Esse é diferente. Distinto. Respeitador.

Ele: digo o quê? Tem um assunto óbvio. Estamos os dois esperando a vez num dentista. Já temos alguma coisa em comum. Primeira consulta? Não, não. Sou cliente antiga. Estou no meio do tratamento. Canal? É. E o senhor? Fazendo meu check-up anual. Acho que estou com uma cárie aqui atrás. Quer ver? Com esta luz não sei se… Vamos para o meu apartamento. Lá a luz é melhor. Ou então ela diz pobrezinho, como você deve estar sofrendo. Vem aqui e encosta a cabecinha no meu ombro, vem. Eu dou um beijinho e passa. Olhe, acho que um beijo por fora não adianta. Está doendo muito. Quem sabe com a sua língua…

Ela: ele desistiu de falar. Gosto de homens tímidos. Maduros e tímidos. Ele está se abanando com a revista. Vai falar do tempo. Calor, né? Aí eu digo “É verão”. E ele: “É exatamente isso! Como você é perspicaz. Estou com vontade de sair daqui e tomar um chope”. “Nem me fale em chope.” “Você não gosta de chope?” “Não, é que qualquer coisa gelada me dói a obturação”. “Ah, então você está aqui para consultar o dentista, como eu. Que coincidência espantosa! Os dois estamos com calor e concordamos que a causa é o verão. Os dois temos o mesmo dentista. É o destino. Você é a mulher que eu esperava todos estes anos. Posso pedir sua mão em noivado?”

Ele: ela está chegando ao fim da revista. Já passou o crime do Sacopã, as fotos de discos voadores… Acabou! Olhou para mim. Tem que ser agora. Digo: “Você está aqui para limpeza de pernas? Digo, de dentes? Ou para algo mais profundo como uma paixão arrebatadora por pobre de mim?”

Ela: e se eu disser alguma coisa? Estou precisando de alguém estável na minha vida. Alguém grisalho. Esta pode ser a minha grande oportunidade. Se ele disser qualquer coisa, eu dou o bote. “Calor, né?” “Eu também te amo!”

Ele: melhor não dizer nada. Um mulherão desses. Quem sou eu? É muita perna pra mim. Se fosse uma só, mas duas! Esquece, rapaz. Pensa na tua cárie que é melhor. Claro que não faz mal dizer qualquer coisinha. Você vem sempre aqui? Gosto do Roberto Carlos? O que serão os buracos negros? Meu Deus, ela vai falar!

– O senhor podia…

– Não! Quero dizer, sim?

– Me alcançar outra revista?

– Ahn… Cigarra ou Revista da Semana?

– Cigarra.

Aqui está.

– Obrigada.

Aí a enfermeira abre a porta e diz:

– O próximo.

E eles nunca mais se vêem.


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