Arquivo para novembro \24\UTC 2010

O boneco virou gente

Por Viviane Shinzato

“Quem sabe eu ainda sou uma garotinha”… Esta foi a trilha sonora de Natália Janaina Lopes, quando ainda na adolescência, aos 17 anos, engravidou de seu primeiro filho. A história começa no bar da cidade, quando uma paquera vira paixão, e a euforia da noite leva à aventura que mudaria para sempre a sua vida. Do amor à ilusão, do sonho ao pesadelo.  A brincadeira acabou. Um mês depois, a gravidez acabava de ser anunciada.

Medo, ansiedade e desespero. Engravidar aos 17 anos não trazia nenhuma tranquilidade. “Não acreditava que fosse verdade, mas era. Quando percebi que estava grávida entrei em desespero por ter que assumir uma responsabilidade muito grande” conta Natália. A vida nunca mais seria a mesma. Baladas, bares, amigos, viagens ficaram no passado, os estudos foram interrompidos, a aventura passou e agora restava viver a realidade.

Infelizmente a realidade não era nada agradável. O pai  da criança queria que abortasse, não assumia compromisso e rejeitava a paternidade. O padrasto de Natália não aceitava a gravidez, em casa as brigas eram constantes e a situação financeira também não ajudava. “Quando eu esperava meu bebê foi uma situação muito difícil porque eu não casei com o pai da criança, eu morava na casa da minha mãe, então eram brigas e confusões com meu padrasto. Passei por várias dificuldades como necessidade de alimentos. Tinha vez que eu não tinha nada para comer e tinha que ir para a casa dos outros”.

O filho nasceu, o pai assumiu a criança e a família passou a aceitar a situação. Ainda assim as preocupações continuavam, devido à falta de alimentação no período da gestação o bebê nasceu com problemas de desnutrição, o que dificulta no ganho de peso. A família do pai não se importava com a criança, e a pensão demorou dois anos para ser paga. Praticamente sozinha para sustentar a criança, Natália precisou fazer serviços de faxina, começou a fazer unha, trabalhou como garçonete e contava com a ajuda da mãe que trabalhava como servente na APAE.

Passaram-se mais de três anos para que a vida ganhasse uma pequena estabilidade. Com o tempo os problemas mais graves foram se acalmando e a vida tomava um rumo melhor. Nem a ausência do pai foi motivo para desanimar, do contrário, batalhar sozinha só fez aumentar a proximidade e o amor de Natália pela criança.

“Hoje, para mim, ter filho é a coisa mais linda da minha vida, porque através dele aprendo muitas coisas e me livro de coisas terríveis deste mundo. Sou muito feliz por tê-lo. Penso em um futuro muito lindo para ele, onde teremos nossa própria casa, e farei o possível para que ele seja estudado e se torne alguém na vida. Vou lutar muito para ele ser alguém bem sucedido”, conta.

Acordar cedo, deixar o filho na escola, trabalhar o dia inteiro, atravessar a cidade para estudar, chegar em casa meia-noite e repetir tudo no dia seguinte. Assim é a vida de Natália atualmente. Hoje, aos 25 anos, mora sozinha com o filho de 6 anos e afirma que ser mãe solteira não é fácil, em alguns momentos se torna ainda mais difícil. “Um dos piores momentos é quando ele está doente e eu fico sempre sozinha jogada no hospital com ele”.

Tanto esforço e tanta luta tem um propósito na vida de Natália. A felicidade do seu filho é a maior recompensa que poderia ter. “Hoje sou uma mãezona, moro só com meu filho em uma casa legal, meu filho adora sua casinha. Trabalho para sustentar e dar a ele uma vida simples, mas boa. Estudo para ser alguém na vida e deixo eles com minha mãe”. A alegria de saber que tem alguém te esperando em casa, é o que incentiva e dá forças para a vida continuar. “Minha vida é muito corrida mas vale a pena quando eu chego e vejo que aquele esforço que fiz foi bom para ele, não meço esforço quando diz  respeito ao meu filho, é minha razão de viver” declara Natália.

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“Descanso levantando pedra”

Por Viviane Shinzato

Serviços pesados e trabalhos braçais também podem ser feitos por mulheres

Massa, latas de concreto, tijolos e carrinho de pedra. Não tem sábado, domingo e nem feriado.  Dia de descanso para uns e de mais trabalho para outros. Assim é a vida de Edileuza Santos, uma mulher de 44 anos, que durante a semana trabalha como babá e nos finais de semana abre mão do descanso, levanta cedo e vai à luta enfrentar o serviço braçal.

Sábado, às 6h da matina, Edileuza levanta espontaneamente, toma seu café e atravessa o bairro para começar o serviço. Capacete, capa de chuva, botas, luvas e inchada na mão… E lá vai ela para o canteiro de obras, trabalhar mais um dia na construção de seu futuro prédio. O trabalho funciona com a colaboração dos moradores que se reúnem no programa de mutirão da Associação dos Trabalhadores Sem Terra da Zona Oeste . Com o intuito de pagar menos pelo apartamento, Edileuza e outras centenas de pessoas -em sua maioria mulheres – prestam seus serviços no setor da construção civil.

Ao longo destes sete anos participando do mutirão, Edileuza viu tijolo por tijolo ser levantado, mas neste tempo todo ainda não viu seu apartamento pronto e enquanto isso não acontece, Edileuza não desiste da batalha e confessa o quanto é difícil persistir. “Neste tempo, não dá nem para contar quantas pessoas já desistiram. Não é qualquer pessoa que consegue chegar aonde eu cheguei hoje, e as pessoas que conseguem são mulheres, porque a maioria dos homens desiste (…) tem que ter muita coragem.Sou uma mulher de fibra, meu descanso é levantando pedra”diz.

Até pouco tempo, este assunto ainda incomodava e Edileuza evitava comentar sobre seu trabalho. A vergonha passou quando uma pessoa lhe disse o quanto se orgulhava de ter conhecido uma mulher tão batalhadora. Esta declaração impressionou tanto, que hoje Edileuza reconhece que o fato de trabalhar em obras não a faz ser menor na vida e nem mal vista pelas pessoas. “Hoje eu me sinto a pessoa mais feliz do mundo, tenho orgulho e não mais vergonha de falar que trabalhei aqui e ergui cada tijolinho desses”desabafa.

O serviço na construção deu à Edileuza a oportunidade de desenvolver novas habilidades e, como mãe de família sozinha, precisou ser tudo ao mesmo tempo e aprender um pouco de cada serviço de casa, inclusive os de parte elétrica. “Troco fio, troco chuveiro, conserto, faço tudo”. Durante todos estes anos envolvida nas obras, Edileuza se orgulha de tudo que aprendeu e todos os obstáculos não são motivos para desanimar. Nem a demora na entrega seria motivo para largar o projeto. “Infelizmente está demorando muito, mas vou fazer o quê? começou tem que terminar”

Desistir? Nunca. O sonho de ver o apartamento pronto é tão grande que os obstáculos deixam de ser vistos como problemas. Os feriados não mais importam, os finais de semana viram dias de serviço, o descanso pode ficar para depois, e a recompensa virá logo mais. “Seria muita covardia você desistir, depois de você dar seu sangue. Nem se eu ganhasse 20 milhões hoje, eu não largaria a obra, ali tem nosso suor, o sangue que a gente deu”conta.

Orgulho e Preconceito

Orgulho e preconceito por parte dos setores conservadores fomentam atitudes homofóbicas na sociedade

Por Viviane Shinzato

Preconceito, falsidade, hipocrisia e manipulação. Esses são os preceitos que baseiam setores mais conservadores que se utilizam de explicações bíblicas e (pré) conceitos particulares para criminalizar a lei que justamente tenta fazer algo por uma classe da população que precisa ter seus direitos reconhecidos, a classe dos homossexuais.

Classes religiosas tendem a desviar o intuito dessa discussão, distorcer o debate e, de forma mal intencionada, tentam taxar um assunto de interesse público como pertencente a uma parte da sociedade. Desta forma se perde a essência da discussão e o caráter do debate que guia o projeto de lei (122/06).

As discussões sobre este projeto de lei têm se propagado em uma série de rumores, que logo são tidos como verdades, que criam uma espécie de embate e polarizam os setores da sociedade como se houvesse o lado do bem e do mal. De um lado os que são contra a lei e, de outro, os que defendem a lei em função da liberdade na prática da sexualidade. De forma manipuladora, determinados setores da sociedade criam medos e temores em cidadãos mais conservadores e alimentam uma luta de classes, fazendo as pessoas acreditarem que os direitos de uma classe prejudicam a outra, como se o mundo fosse dividido entre heterossexuais e homossexuais.

Sem que seja necessário se aprofundar no que diz respeito à hipocrisia alimentada por parte dos setores conservadores, poderíamos refletir de forma mais racional – sem levar em conta valores e ensinamentos religiosos – o quão hipócritas somos quando fechamos os olhos para o número cada vez maior de homossexuais e para as lutas por seus direitos. Mais cegos somos quando fechamos os olhos para a alarmante violência contra homossexuais.

Segundo dados publicados em março deste ano no Relatório Anual de Assassinatos de Homossexuais (LGBT), divulgados pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), foram registradas mais de 380 mortes de homossexuais, entre 2008 e 2009. Só no estado de São Paulo, nos dois últimos anos, a Associação registra mais de 30 casos. Bahia e Paraná foram considerados os estados mais violentos pelo Relatório do GGB, só em 2009, cada um registrou 25 assassinatos. Dados divulgados pelo GGB em março de 2010, indicam que, no Brasil, a cada dois dias um homossexual é assassinado, vítima da homofobia. De acordo com Luiz Mott, fundador do GGB, estes dados tornam o país o campeão mundial de homicídios contra LGBT, com 198 mortes, seguido do México com 35 e dos Estados Unidos com 25 mortes anuais.

É preferível manter os interesses de determinados setores da sociedade ou colaborar na defesa de um grupo grande (mais de 18 milhões de brasileiros – 10% da população Fonte: ABGLT), mas ainda frágil, que precisa de representações legislativas e do sério reconhecimento por parte do Estado e da sociedade? Discute-se o projeto de lei 122/06 como se fosse um jogo de forças, uma disputa entre dois times, quando na verdade deveria ser discutido com base em objetivos que ultrapassam concepções político-religiosas. Falamos não mais de religião e sim, de direitos humanos.

Em redes sociais e blogs, o preconceito chega a níveis alarmantes e mascaram a verdadeira intenção do projeto de lei, como se sua aprovação trouxesse conseqüências ameaçadoras, sendo uma delas – vista no blog “Salvação ao alcance de todos” a perda do direito de recriminar relacionamentos homossexuais em locais públicos, ou então, a perda da liberdade de padres que não mais poderão fazer pregações contra o homossexualismo. Oh, quanta repressão, não? Seria esta a ditadura dos homossexuais? Tudo isso seria cômico se não fosse triste…

Até quando vamos fechar os olhos para o preconceito, até quando vamos fingir que nada aconteceu?Quantos mil homossexuais precisarão perder a vida para que os líderes religiosos abandonem seus discursos preconceituosos?Se a Igreja se mantiver tão convicta de seu discurso, a tendência é que seus adeptos nunca – ou pelo menos não tão cedo – entendam que opções sexuais não tornam um ser melhor ou pior na vida. Quem foi onipotente o suficiente para determinar a existência da diferença entre seres que optam por caminhos diferentes? A Bíblia? Um livro feito por simples mortais? Assim como os Protocolos dos Sábios de Sião foram usados como justificativa ao nazismo, pode ser que o homem tenha criado as regras vindas de Deus para explicar sua “superioridade” e suas diferenças sobre os demais seres vivos.

A vida longe de casa

Imigrantes e espanhóis sofrem com a onda de desempregos que chega a mais de 20% na Espanha

Por Viviane Shinzato

Organizar documentos, arrumar as malas, pegar o vôo e partir.  Difícil não é chegar ao outro país, sim se acostumar com as diferenças e encarar os desafios da vida longe de casa. Viver longe dos amigos, se adaptar a um lugar estranho, não ter domínio do idioma e ter que descobrir os próprios modos para seguir em frente. Mesmo sabendo dos desafios, este é o caminho escolhido por milhares de pessoas que preferem deixar o país de origem em busca de um futuro melhor em países como a Espanha. Cileide Pires é uma dessas pessoas, chegou grávida de 5 meses, e enfrentou os obstáculos iniciais para acompanhar seu marido que mudava para um novo emprego. A brasileira vive na Espanha há mais de 11 anos, trabalha como geriatra e vive com seu marido e os dois filhos, na cidade de Bilbao.

A ansiedade e o medo passaram. Hoje, o que preocupa Cileide são as incertezas sobre o futuro dos que vivem na Espanha, a Espanha que não se vê nos cartões postais, a Espanha afetada pela crise. Cileide diz que este é um período difícil para a população, que passa por uma onda de desemprego e desestabilidade da moeda. “Cada dia que saímos para comprar, sentimos que a inflação está mais alta, os alimentos subiram muito, os impostos também subiram e o salário nada”.

Cileide trabalha com idosos, atualmente cuida de uma senhora de 82 anos com Alzheimer, e teme que seu trabalho esteja com dias contados. “Não sei por quanto tempo mais terei trabalho, sei que lá fora [mercado de trabalho] a coisa está complicada. Tenho amigas que trabalham em asilos e comentam que está bem difícil. Tem famílias que estão tirando seu pai, mãe do asilo para colocarem uma pessoa para cuidar em casa, pois sai muito mais econômico”

A situação dos imigrantes também não poderia ser diferente, já que em tempos de crise, esta é a parte da população que mais sofre. Cileide conta que neste período as empresas aceitam mão de obra estrangeira mas fazem contratos injustos, que não oferecem boas condições de serviço aos empregados. “De certa maneira, o que [os contratantes] querem é enganar, para que [os estrangeiros] pensem que tem um bom trabalho, mas tiram tudo o que deveríamos ter. Aqui a gente tem 14° salário, mas alguns fazem contratos para que isso fique de fora, e assim perdemos nossos direitos. A atividade econômica está bastante afetada aqui”

Mesmo com todos os problemas gerados pela crise, Cileide diz que já se acostumou com a vida na Espanha, e mesmo passando momentos difíceis não tem vontade de voltar para sua terra. “Apesar da crise, eu me sinto bem aqui, se eu te disser que quero voltar para o Brasil, estarei mentindo. Amo meu país, mas ainda não é o momento. Pretendo ficar por aqui ainda alguns anos da minha vida, pois necessito trabalhar para dar um futuro melhor para meus filhos”.

A situação de Cileide na Espanha pode ser considerada estável, já que tanto ela quanto o marido estão trabalhando. No entanto, esta não é a realidade vivida pela maioria. Dados de 2010, publicados pelo Ministério do Trabalho e Imigração da Espanha, constatam que mais de quatro milhões de pessoas estão desempregadas. A situação é complicada tanto para espanhóis quanto para estrangeiros, e atinge até mesmo os setores mais escolarizados da sociedade. Guilherme Coimbra, 33 anos, é português, mas vive em Madri há dois anos, é jornalista e atualmente está desempregado. A situação de sua vida profissional tem piorado com a crise. “Atualmente não tenho trabalho e está muito difícil conseguir um, bom ou ruim”, conta.

Ter diploma na Espanha em crise, não necessariamente abre portas para melhores empregos. Guilherme afirma que espanhóis com diploma passaram a procurar trabalho como teleoperadores, distribuidores de folhetos de propaganda nas ruas e outros serviços pagos ao dia. Ainda sobre o desemprego, o jornalista conta que lojas de bairro acabam fechando por falta de clientes e muitas pessoas vivem um momento de desespero, “há famílias em que todos os membros estão sem renda, há gente sem trabalho há mais de 18 meses, e os números não melhoram”.

Guilherme conta que “os jornalistas estão entre as classes que mais sofrem com ou sem crise, pois em todo o mundo somos desorganizados e explorados. Aqui, por exemplo, uma pessoa que tenha terminado a faculdade pode chegar a trabalhar por mais três anos como estagiário, ganhando às vezes menos de 500 euros e sem qualquer benefício, o que atrasa a idade de aposentadoria e dificulta a conquista da independência financeira. Tenho muitos amigos jornalistas que são de “pueblos” e tiveram que ir embora de Madri por não encontrar trabalho na área. Outros, como eu, aceitaram trabalhar em outras atividades.

Sobre a imigração na Espanha, Guilherme afirma que o país não tem tradição de ódio e violência como França e Alemanha, mas ainda assim, a desconfiança com estrangeiros cresceu e o preconceito aumentou com a crise. Guilherme explica que as campanhas que incentivam imigrantes a retornarem ao país de origem são parte de um “efeito-sanfona”, já que nos anos 90 incentivavam a entrada dos estrangeiros. “Depois de um ano tendo contribuído ou não, era muito fácil pedir o visto de permanência. E com isso a Espanha cresceu assustadoramente e equilibrou a previdência. É melhor ser sincero e lançar campanhas como essa que fazer como Sarkozy, que deporta imigrantes europeus como gado.”