Arquivo para agosto \21\UTC 2010

Crônica da vida privada

Por Viviane Shinzato

Em meados dos anos 90, ainda nos primeiros anos de creche, com tão pouca idade e tão pouca vivência uma estranha menina já conseguia ser motivo de risadas. Parecia não entender o mundo e o modo como as coisas funcionavam. Vivia no mundo fora da realidade. Era tão estranha, talvez tivesse problemas mentais. Ainda lembro do dia que a tia da creche nos preparava para apresentar a dança da primavera. Todas as meninas receberam a saia de crepom, e, minutos antes da apresentação, a saia da menina estranha caiu. Motivo de causar ataque de riso em todas as crianças da fila.

Alguns anos se passaram e lá estava a menina, em seu primeiro ano da pré-escola. Nesta nova etapa, a estranha menina causava risos e xingamentos por um simples detalhe: seus olhos eram puxados. Ser descendente de japonês era algo fora do comum. As crianças gostavam de rir de seu sobrenome e de mexer com ela, assim os mais variados apelidos começaram, até surgir o termo “japoronga” e as falas esquisitas, com sons de ruídos e entonações diferentes, tudo para imitar aquilo que imaginavam ser a fala de japonês. Não demorou muito para que outro detalhe fosse descoberto e mais uma vez a menina fosse o centro das gozações.  A mãe dela gostava de cortar seu cabelo de um jeito muito esquisito, fazia um corte chanel e deixava um pedaço de cabelo pendurado, para fazer um “rabinho” de charme, que a acompanharia por mais algumas etapas da vida escolar.

Agora a menina está indo para outra escola, para fazer a primeira série. Não tinha erro nisso, pelo menos não era para ter, mas, se tratando da menina que vivia no mundo da lua a possibilidade de algo dar errado triplicava. A perua escolar acaba de deixar todas as crianças em suas respectivas escolas.  Uma criança sobrou e esta era a menina estranha que acabara de passar em frente a sua escola, mas, como não desceu da combi, foi parar na escola errada. Quando voltou para a escola certa, a menina continuou sendo motivo de graça, desta vez porque, além de ser japa, não sabia se vestir direito. A mãe dela a fazia ir à escola com uma bota de plástico, vermelha, com desenho do pica-pau.

Anos depois, em sua nova escola, para fazer a quarta série, seu destino continuava o mesmo, como se fosse predestinada a sofrer porque tinha olhos puxados. Desta vez, o rabinho do cabelo veio à tona, e todos queriam brincar com o “rabinho da japoronga baixinha”. Em uma das festas à fantasia da escola, a história do rabinho duplicou. A japa não tinha fantasia para ir, e a mãe, inocentemente, vestiu-a com roupa de coelhinha da playboy. Maiô vermelho, com pompom branco para ser o rabinho e longas orelhas de coelhinho na cabeça faziam parte da fantasia. Desde o momento que entrou na perua escolar, até a chegada na escola, os risos continuavam, assim como as piadas de duplo sentido: “Posso pegar no seu rabinho?”

Durante muito tempo o fator “olhos puxados” a perseguiu, até que um dia entrou no ônibus escolar e teve que ouvir um couro de crianças a recebendo com um novo cumprimento: “Oi, ti-ni-ni-ni-ni-nim”. Ao longo dos anos de escola estes e outros apelidos a perseguiram, mas, como se não bastasse, a menina estranha teve que usar óculos e aparelho. Os óculos lhe renderam o apelido de “quatro zóio”, “zaroia”, “fundo de garrafa”; o aparelho lhe fez ser “boca de ferro”, “boca de cavalo”, entre outros. Certas vezes, a menina estranha brigava na escola, mas, sempre apanhava. Até que um dia, a menina estranha cresceu e, por pouco, não ficou traumatizada com tantos preconceitos vindos das crianças da sua infância.

Atualmente, ela estuda jornalismo, e, por sorte passou por tudo isso, pois hoje precisou escrever uma crônica para a aula de criação de texto jornalístico, e teve muito assunto para  escrever uma crônica que satirizasse a si mesma.

Anúncios

Anúncios

Categorias