Arquivo para junho \24\UTC 2010

Carência Cultural

 Evento “Virada Cultural” mostra uma sociedade marcada pela ausência de cultura.

Por: Viviane Shinzato

Voltando ao post da Andréia sobre o evento da Virada Cultural, eu diria que esta  é uma iniciativa interessante por parte da prefeitura, mas ainda assim  não marca como evento cultural. A falta de projetos culturais e programações livres como estas, causa todo este caos que conferimos nos dias de Virada. A carência por estes movimentos na sociedade é expressada desta maneira agressiva, eufórica, exagerada.

O que vemos  nas pessoas, em dias de Virada Cultural, é uma vontade desesperada de aproveitar o momento e usufruir o máximo de cada detalhe que lhes é oferecido. Atitude que gera esta sensação, muito bem representada nas palavras da Andréia, de ver tudo e nada ao mesmo tempo. É a mesma sensação que o zapping (do controle remoto) proporciona. Assiste-se a tudo, mas tudo de forma fragmentada.

Promover eventos como estes por apenas dois dias e achar que a sociedade já teve o suficiente de programação livre e cultural seria um pensamento um tanto quanto ingênuo.  Mesmo com tantas evoluções tecnológicas, culturais e até financeiras, é notável a ineficiência das ações dos formadores de opinião e das autoridades,  como impulsionadores de projetos culturais. O incentivo à cultura ainda é fraco e insuficiente, visto que atinge a poucos grupos da sociedade quando deveria atingir principalmente àqueles que não tem acesso à cultura e, por uma estranha coincidência, se encontram no grupo da maioria pobre do país.

Eventos como a Virada Cultural assemelham-se à política do pão e circo, aparecem de forma estrondosa, causam toda euforia e depois de dois dias de muita esmola e bondade (por parte de nossas amáveis autoridades) desaparecem. Virada Cultural não tem que ser evento de época, não deve ser caracterizado como evento de dois dias em um ano, mas ser um evento que traga participação popular de forma que as pessoas se sintam incentivadas e, a partir disso,  impulsionem e busquem mais atrações culturais (de valores simbólicos, como quilos de alimentos e preços acessíveis).

Existem maneiras de buscar conteúdo de graça ou por preço acessível. Por outro lado não são os mesmos eventos que a maioria quer ver, o que deduz a baixa procura por espaços culturais alternativos.

Filmes de graça existem, assim como peças teatrais. A questão é fazer com que as pessoas se interessem por estes tipos de programas que os locais como Centro Cultural/SP oferecem. Primeiro se educa a população, primeiro se mostra o que pode vir a ser interessante, o que possivelmente pode ser de conteúdo cultural. Seguindo esta linha de raciocínio, outra questão deveria ser discutida: o que pode ser considerado cultura em uma sociedade tão fragmentada e um país tão sem identidade, como o Brasil?

Considerar o samba, o carnaval e o futebol a cultura do país…creio ser esta uma identidade muito taxativa, como se alguém tivesse “dado uma cara” para o nosso país e, como sempre, nós apenas teríamos aceitado e assumido tal característica como nossa, sem que até hoje saibamos quem realmente somos e o que realmente gostamos. Como canta Zé Ramalho em “Vida de Gado“, ” O povo, foge da ignorância, apesar de viver tão perto dela(…) Povo marcado e Povo feliz”.

 A nossa falta de identidade invariavelmente  nos leva a supervalorizar a cultura estrangeira (norte-americana), viver em Shoppings, assitir a filmes de Cinemark e entender por “teatro” peças da Broadway.

Seguindo a citação do escritor e dramaturgo, Nelson Rodrigues, o termo “complexo de vira-lata” é bastante apropriado para definir tal discussão. “Por ‘complexo de vira-lata’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo” . (Nelson Rodrigues)

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Corpus Christi no bairro São Dimas

Por Daniela Kuriyama

Para muitos, ontem (3) não foi um feriado comum. Acordar tarde, viajar, não fez parte da rotina, típica dos feriados, dos fiéis que celebraram o Corpus Christi junto com sua comunidade.

Procissão no bairro São Dimas

 Na Paróquia da Catedral de São Dimas, localizada em São José dos Campos, os preparativos começaram por volta das 7h00. Serragens, pó de café, corantes, até E.V.A. fazia parte da lista de materiais utilizados para fazer o tapete em torno do quarteirão.

A gestante Célia Regina dos Santos, 42 anos, sempre participa das procissões da Catedral de São Dimas. Esse ano não foi diferente. O inchaço dos pés e as dores na coluna não a impediram de caminhar juntamente com os féis.

Célia, que participa da procissão há mais de dez anos, contou que sempre ajuda a enfeitar o tapete. “O ano passado eu não ajudei porque só um pedacinho estreito foi enfeitado por causa da chuva. Esse ano eu nem podia, né”, disse Célia referindo-se à gravidez aos risos.

Fiéis colaboraram com a produção do tapete

À frente da procissão, que teve início por volta das 18h, os ministros, em seguida o Bispo, atrás e ao lado dele os fiéis e, por último, o caminhão aberto que comportava equipamentos (caixas de som e teclado) e carregava também 26 pessoas do Coral Melodimas, entre elas, crianças de dois anos de idade.

Andréia Bustamante, 39 anos, coordena junto com as irmãs Gisele e Cibele da Silva, ambas com 25 anos, e com Mariana Souza, 18 anos, o Coral Melodimas. Faz quatro anos que elas participam cantando na procissão da Catedral de São Dimas.

Andréia, professora de inglês, explicou que o Coral Melodimas tem pessoas de todas as idades. “Tem crianças de 2, 3 anos de idade até adolescentes e velhas como eu. Eu sou a mais velha”, brincou a professora.

Gisele e Cibele contaram que começaram ainda pequenas a cantar no Coral e, mais tarde, passaram a organizar e coordenar os ensaios. O Melodimas tem 50 crianças inscritas, no entanto, “nem todas as crianças vêm todos os sábados [aos ensaios]”, explicou Gisele.

De acordo com Andréia, o Corpus Christi é a “presença de Jesus no pão consagrado, que se torna o corpo dEle, e no vinho, que se torna o sangue de Jesus. Então, para nós [católicos], isso é alimento para nossa alma, é força pra vencer as dificuldades da vida”.

Coral Melodimas

Para as coordenadoras do Coral Melodimas, todas as procissões são marcantes. “Não teve um momento que marcou mais e um que vai marcar menos. Todos os momentos, todas as lembranças, todas as músicas vão marcar”, disse Mariana.

Coral Melodimas: Cibele, Gisele, Mariana e Andréia

Andréia contou que um dos momentos mais marcantes é ver as crianças cantando de olhos fechados, apreciando cada palavra pronunciada e, muitas vezes, sem entender a letra da música. “Depois da procissão, as pessoas vêm comentar o quanto elas se sentiram tocadas pelas vozes das crianças. A voz quebra barreiras. Uma simples ave-maria na voz de uma criança faz a pessoa refletir”, afirmou Andréia.

A mensagem deixada pelo Coral Melodimas é “que Jesus chegue à vida das pessoas através da voz das crianças”, finalizou Andréia.

Crimes que ficaram na memória

Museu da Polícia Civil expõe desde a história da corporação até os objetos originais de crimes que abalaram São Paulo

Por Bárbara Fernandes, Maria Fernanda Scansani e Viviane Shinzato

Eram altas horas da madrugada quando empregada e patroa tiveram o sono interrompido pela presença de um estranho no quarto. Acácio acabava de invadir a residência, localizada em Higienópolis, bairro nobre de São Paulo. Com o auxílio de um macaco de automóvel arrombara as grades e agia com sua lanterna de luz propositalmente vermelha.

Mil cruzeiros novos. Essa era a recompensa para quem capturasse o temido bandido. Conhecido por acordar as pessoas da casa que assaltava e então roubar seus objetos de valor, o delinqüente tinha como marca sua lanterna. O “Bandido da Luz Vermelha“, João Acácio Pereira da Costa, nascido em 1942, era o terror da sociedade paulista da época. Foi condenado pela morte de quatro pessoas, sete tentativas de assassinato e setenta e sete roubos.

Embarque: Porto de Santos (SP). Destino: Bourdeux (França). Era esse o trajeto a ser percorrido pela misteriosa mala que atravessaria o Atlântico dia 07 de outubro de 1928, não fosse um pequeno incidente na hora de acomodar a bagagem. A trava da mala deslizou e ocasionou uma pequena abertura, o suficiente para que o mau-cheiro se espalhasse e a estranha secreção começasse a escorrer.  Assim o Crime da Mala acabava de ser descoberto. Giuseppe Pistone matara sua mulher, Maria Fea. Após esquartejá-la o assassino encaixou-a na mala que, por fim, foi aberta cerca de três dias depois do crime. A mala mais polêmica da década de 30, hoje pode ser vista detalhadamente no Museu da Polícia Civil.

Essa e outras histórias estão expostas no Museu da Polícia Civil, conhecido popularmente como Museu do Crime, que teve início como uma forma de deixar as aulas da academia de polícia mais didáticas. Em 1970 o museu foi transferido do bairro da Liberdade para a Cidade Universitária (atual sede). Foi formado pela reunião de objetos apreendidos nos inquéritos policiais que eram encontrados em locais de crime, suicídios ou mesmo em posse de criminosos.

Cláudia, 35, agente de trânsito da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) visitou o museu durante o intervalo de um curso que fazia na Cidade Universitária. Apesar de se deparar diariamente com acidentes de trânsito ficou impressionada ao ver a sala de “Medicina Legal”: “fiquei chocada ao ver os fetos (consequências de aborto)”.

O Caminho do Crime

O Museu do crime oferece aos visitantes uma sensação de proximidade com a cena dos delitos. No local de entrada há um Fusca de 1963, antiga viatura de polícia. Variados tipos de drogas ilustram, até mesmo para os visitantes de ensino fundamental, os perigos que envolvem o mundo das drogas ilícitas. Além das amostras dos tóxicos, o museu expõe objetos apreendidos que auxiliaram no transporte de maconha e cocaína como sapatos e caixas de doces. A sala de entrada abriga mãos e braços de bonecos que possuem tatuagens feitas na cadeia e a cada uma delas foi dado o significado tido no mundo do crime.

A sala intitulada de “Medicina Legal” oferece o primeiro impacto de imagens que impressionam o visitante. Nela encontram-se imagens cruas de necropsia de pessoas que foram esfaqueadas, por exemplo. Há prateleiras com objetos utilizados em abortos e fetos em variados estágios de desenvolvimento. Outra sala simula uma cela de prisão, que chega a abrigar mais de 30 pessoas. Com instalações precárias e sem higiene tem-se noção de como é o espaço físico do sistema penitenciário. A porta da cela é uma porta trazida das instalações do Carandiru.

O Museu do Crime conta com a exposição de representações dos criminosos mais famosos que aterrorizaram São Paulo como Francisco de Assis Pereira (Maníaco do Parque – 1998), João Acácio Pereira da Costa (O Bandido da Luz Vermelha – 1966), José Pistone (O Crime da Mala – 1928), entre outros.

Dois espaços são dedicados ao treinamento de policiais: é o caso da “Simulação de Local de Estupro” em que uma cena é montada para que o policial identifique os detalhes do crime. O espaço de “Simulação de Local de Crime” traz a representação de cômodos de uma casa com diversos indícios de ação criminosa.

Armas construídas por presos, história da Polícia Civil, configuração antiga de delegacias e informações sobre o Serviço Aerotático da Polícia Civil do estado de São Paulo são temas abordados pelo museu.