Museu dos óculos é o primeiro e único de toda a América Latina

Acervo tem réplicas de modelos do século 13 e 18

Quando a coleção particular de Miguel Giannini ficou grande demais para ser apenas um passatempo, era hora de transformar a paixão em exposição. Em 2001, ao adquirir o imóvel onde funciona o Centro Ótico, na Rua dos Ingleses, os óculos de sua coleção viraram peças do único Museu dos óculos na América Latina. Hoje o acervo tem cerca de 600 peças, sendo 200 em exposição. A rica coleção tem réplicas de peças raras chinesas que datam 500 anos a.c – podendo ser considerado o primeiro modelo de óculos do mundo. Peças como os óculos usados por Santos Dummond; modelos extravagantes – com destaque para os de cortininhas acima da armação para disfarçar as lentes, entre outras preciosidades, como o modelo usado por Elis Regina, tornam o passeio cultural e divertido. A coleção de Giannini possibilita ao visitante uma verdadeira viagem no tempo contando a história da humanidade através de lentes que refletem o mundo há mais de sete séculos.

Endereço: Rua Dos Ingleses, 108.

Bairro: Bixiga

Tel.: (011) 3149-4000

Mais informações: www.miguelgiannini.com.br

A viagem quase perfeita

Os olhos estão cheios d’água, o arrepio percorre os braços abertos, um incontido sorriso de emoção escapa entre os lábios trêmulos divididos entre o choro e a alegria. Um grito de felicidade e a corrida para o abraço coletivo. Um momento talvez banal em tantos aeroportos e rodoviárias, mas que só sabe explicar quem vivenciou a experiência de estar, por menor tempo que seja, entre rostos e traços desconhecidos, comportamentos estranhos e olhares nunca vistos.

Após 24 dias entre trens e aviões, horas e horas sentada e sem dormir direito Flávia Martins, uma jovem de 25 anos, de volta de suas aventuras de mochileira pela Europa, lembra o sufoco que passou na companhia de sua tia Mônica Martins, 32, para conseguir embarcar de volta ao Brasil.

Depois de visitar Birmingham, Nottingham, Stratford, Liverpool, Salisbury, Londres, Irlanda e a capital Dublin, Irlanda do norte e a capital Belfast, e por fim, Escócia chegava o momento de retornar à cidade de Birmingham na Inglaterra. Enfrentar 7 horas de trem, pegar o avião rumo ao aeroporto de Amsterdã, suportar uma hora de voo, e aguardar o momento de embarcar para o Brasil era, aparentemente, o procedimento comum. Às 20h Flávia e Mônica chegam a Amsterdã e recebem a primeira surpresa da noite: deveriam esperar mais quatorze horas no aeroporto se quisessem voltar ao Brasil no próximo voo, marcado para as 10h da manhã seguinte.

O brilho da lua anuncia o cair da noite enquanto as luzes da cidade se apagam, as pessoas se recolhem e os restaurantes e comércios baixam as portas. E, para os que estão em casa, já é hora de se deitar. O cansaço tomava conta de todo o corpo há tantas horas sem dormir, os olhos fechavam lentamente enquanto fantasias e realidades se misturavam como obra do inconsciente. O relógio era ingrato, as horas demoravam a passar e, durante cada minuto que lhe parecia a eternidade, Flávia sonhava acordada com seu lar em Cotia-SP, com o abraço da família, o reencontro com o namorado e a vida que levava no Brasil. “Foi uma madrugada difícil, só ficava mentalizando a minha caminha. Por um milagre sobrevivemos ao tédio e estávamos embarcando rumo ao Brasil”.
A sensação de poder levantar da poltrona, sair do avião e finalmente pisar em solos brasileiros foi, se não o melhor, um dos melhores momentos da maratona de viagens que teve início em 29 de julho de 2011, quando Flávia concluiu a faculdade.

Retrospectiva

O entusiasmo para a tão sonhada viagem começou no início de 2011, durante as aulas de inglês que fazia com sua tia. Os laços de amizade e confiança fizeram Flávia se alegrar com a possibilidade de viajar ao lado de Mônica, que além de uma grande amiga, é professora de inglês e a ajudaria a enfrentar dificuldades relacionadas ao idioma. Terminada a faculdade e finalmente decretadas as férias de julho, chegava o momento de conhecer o mundo ou, pelo menos, algumas partes como Inglaterra e outros países da Europa. Prestes a sair do país pela primeira vez, sem saber ao certo como agir e com a mente cansada pela fase de defesa de TCC, Flávia não teve muito tempo para pesquisar mais, pensar o que fazer e como se preparar para viajar no dia seguinte.

Em suas viagens pela Europa, a jovem descobriu alguns fatores negativos em que não havia pensado: “Antes de viajar, mesmo sabendo que a nossa moeda comparada com o Euro e a Libra é bem desvalorizada, na minha inocência achava que iria conseguir conhecer todas as atrações turísticas, comprar alguns presentes mais caros, e ainda não gastar todo dinheiro que levei. Doce ilusão, porque no final da viagem se ficasse mais um dia pelo menos, a minha família iria ter que me auxiliar. Mesmo fazendo mochilão, ficando hospedada em albergues, quase não comia em restaurantes, enfim, sem gastos excessivos, não foi uma viagem muito barata”.

Dificuldades enfrentadas

Antes de partir, Flávia confessa que preparar as malas também é uma tarefa difícil, principalmente para as mulheres que têm vontade de levar o armário, e, sabendo que chegaria à época do verão, a jovem arrumou a mochila só com roupas da estação, sem imaginar que esta bolsa se tornaria um empecilho em suas caminhadas: “Tivemos que comprar blusas e cachecóis para aguentar as temperaturas baixas. E as roupas que levamos praticamente não foram usadas, porque levamos mais roupas de verão, que só serviram de peso na mala, o que acabou sendo um ponto negativo na viagem, porque como estávamos fazendo mochilão, era ruim ficar carregando peso extra para vários lugares”.

Acostumada ao verão brasileiro, Flávia sentiu o choque de temperatura logo nos primeiros dias e, durante duas semanas, ficou doente e com dor de garganta. A diferença na  temperatura foi uma surpresa traumatizante para quem pretendia descansar e aproveitar o sol em praias distantes, e em suas memórias o frio ficará guardado como um dos fatores mais marcantes da aventura. Flávia conta que nem imaginava o quanto o verão poderia ser frio e diferente do que conhecia: “Ficamos curiosas e perguntamos para algumas pessoas sobre o clima e quase todos diziam ‘o nosso clima é sempre assim, uma merda’, e respondiam literalmente com essas palavras, e também disseram que quem tem dinheiro normalmente passa o verão em outro país, como Itália, Espanha que são países mais quentes”.

Com tantas surpresas, porém infelizes, outro ponto que deveria ser lembrado como um dos melhores momentos da aventura provavelmente aconteceria no encontro com os estrangeiros hospedados no mesmo local. Situado em uma região industrial e com um clima bem jovial, colorido, o albergue escolhido parecia um ambiente interessante para jovens em busca de novas experiências. Flávia e sua tia já haviam pesquisado na internet e, pelos relatos de outros viajantes, parecia um lugar de bastante interação. Características estas que não tiveram a chance de conhecer. “Agora com tanta tecnologia, ninguém desgrudava de seu celular, notebook… até tiveram algumas pessoas confabulando no albergue, dizendo que ninguém interage mais pessoalmente, somente nas redes sociais”.

Flávia saiu de seu país ciente de que os hábitos alimentares não seriam os mesmos, que nem tão cedo comeria arroz e feijão e não veria comida com tanta facilidade. Por vezes, se adaptou aos lanches, fast food e congelados – hábitos comuns em refeições no Reino Unido – já que não tinha condições de recorrer a restaurantes de outras culinárias, geralmente com preços abusivos.

Passeios e paisagens

Um brilho no olhar em cada palavra dita, os gestos de quem busca nas palavras uma forma de expressar a emoção vivida, e a tentativa de revelar ao mundo das palavras aquilo que um dia os olhos avistaram. Fotos, diário de viagem e longas descrições. Flávia volta no tempo e abre seus sentidos para relembrar as paisagens deslumbrantes e cidades em que os pés, cansados de andar, pisaram pela primeira vez.

Paisagens, cidades turísticas, agitação, tranquilidade e monumentos históricos. Tudo nas proximidades de um só lugar, com direito a visitas em quatro cidades e enriquecedoras descobertas. A chegada em Birmingham representava economia e boa localização para as próximas experiências. A começar pela romântica terra de Shakespeare, Stratford, a primeira paixão de Flávia. Decorações turísticas e paisagens, misturas do velho e novo, belas construções e atrações encantadoras ganham destaque especial nas memórias da viajante. Durante sua passagem por Stratford, o tradicional evento River Festival reunia muitas famílias e tornava o roteiro de viagem mais especial. A cidade de Liverpool, também conhecida pelos Beatles, oferecia um ambiente jovem, mas organizado, com mais agitações.

A terra de Robin Hood também não poderia ficar para trás, Nottingham oferece a cada espaço a oportunidade de reviver o personagem, visitar seu castelo, assistir às dramatizações realizadas em meio ao publico e percorrer o tour totalmente dedicado ao herói.

Na próxima parada, em Salisbury, Flávia conhece o monumento Stonehenge, uma estrutura de pedras com aproximadamente 5 metros de altura, envolto de mistérios em sua origem e função. Para a jovem é uma sensação incrível ver de pessoalmente este monumento que ninguém sabe como foi feito. “Existem várias lendas sobre Stonehenge, lá podemos ouvi-las através de um áudio tour em diferentes línguas, mas é claro”, brinca Flávia, “menos em português”.

Chegando ao fim da maratona de viagens faltava passar pela tão esperada Londres. Com o pensamento distante de quem busca na memória a tentativa de explicar a imagem vista, ela lembra: “Quando vi o Big Ben”, prossegue com um sorriso encabulado, “dei até um grito, de tão suntuoso e diferente  que é, se compararmos com a arquitetura do nosso país”.

Mesmo com tanta euforia, a estadia de quatro dias em Londres não foi das melhores. “Acabou sendo a estadia mais cara da viagem, se levar em conta o pouco tempo que ficamos, e a pior em termos de qualidade, já que os quartos dos albergues eram minúsculos, sem ventilação, as camas pareciam de um presídio, a única coisa boa”, ressalva, “é que eu estava na região central e pude conhecer os principais pontos turísticos”. Sair de São Paulo para conhecer Londres pode não significar muitas surpresas ao viajante que espera encontrar um lugar totalmente diferente. Segundo Flávia, as diferenças não se destacam em grande escala. Por ser Londres uma cidade com turistas e imigrantes das mais diversas fronteiras, “acaba perdendo um pouco sua essência, é um pouco suja, violenta. O interessante é que Londres foi o primeiro lugar em que vimos brasileiros, e, tirando os monumentos importantes, não se difere muito de São Paulo”.

As experiências e os dias vividos longe de casa, Flávia garante, “foram momentos únicos, de felicidade, medo, insegurança, uma mistura de emoções, que sempre serão lembrados, através de fotos, vídeos e na minha própria memória, através de cheiros, paladar”. Ao refletir sobre os dias de aventura, a jovem é incisiva e deixa a mensagem que aprendeu em sua viagem quase perfeita: “Nós temos que agradecer todos os dias pela diversidade e fartura que temos em nosso país”.

 

 

 

Terreno com caçamba de lixo da Prefeitura vira ponto de descarte irregular em Ibiúna

Diariamente animais são abandonados, morrem atropelados à beira da estrada e permanecem expostos até a fase de decomposição

Por Viviane Shinzato

À beira de uma estrada movimentada na região de Ibiúna – na estrada do Verava, mais precisamente no km 56 da Bunjiro Nakao – uma caçamba de lixo comunitário da prefeitura faz do terreno ao redor um ponto vicioso de descarte irregular de entulho.

Objetos de diversas origens, tanto lixos domésticos, como entulhos, transbordam pela caçamba e ocupam as redondezas. Ali, cachorros são abandonados semanalmente e rapidamente procriam. Em condições de vida miseráveis, perambulam pelo terreno poluído, espalham e rasgam os lixos em busca de alimentos. Diariamente, animais são atropelados por veículos que passam em alta velocidade, e sem qualquer tipo de socorro, morrem no terreno à beira da estrada.

Os corpos permanecem jogados durante vários dias, por vezes, até semanas, e aos poucos entram em estado de putrefação. À distância de alguns metros, mais afastada da beira da estrada, avista-se uma casa simples, habitada por uma família, que, de forma precária, se sustenta com o material reciclável que tira do lixo e entulho jogados no mesmo quintal.

As crianças da casa andam descalças, brincam pelo terreno sujo e contaminado, e convivem entre as fezes, os corpos de animais e os restos de lixos espalhados. Os despejos vão desde utensílios domésticos, carrinhos de bebê, garrafas plásticas, materiais de construção, brinquedos, vestimentas, calçados a produtos químicos altamente poluentes, como galões com restos de óleo diesel usado, eletrônicos, pilhas, pneus e até lâmpadas fluorescentes quebradas.

Os moradores do terreno já se habituaram ao mau cheiro e aos resíduos que aumentam a cada dia. A população de Ibiúna se sente impotente diante do problema, e alguns viajantes ajudam como podem, levando mantimentos à família, rações aos animais e até mesmo, improvisando abrigos com materiais (madeiras, ferros, latas, panos) descartados. Este é o caso de Angela Migatta, 55, professora aposentada, proprietária de uma chácara nas proximidades.

Todo final de semana, a aposentada viaja com o marido e as filhas, de São Paulo à Ibiúna, e passa pelo local para dar assistência aos animais abandonados. Angela, junto à sua família, leva água, ração e levanta espécies de barracas na intenção de proteger os animais da chuva. “Fico comovida com a situação e acho que as autoridades deveriam tomar providências como recolher os animais e levá-los a abrigos de doações, fazer campanha de castração e divulgar melhor, porque as pessoas nunca estão informadas de quando vai acontecer [a castração]”.

Visitante da cidade de Ibiúna há mais de dois anos, Angela se diz indignada com o que presencia a cada viagem e acredita ser este um problema social de longa data. “Não tem como ver aquilo e não se envolver. O que eu faço ainda é o mínimo perto do que precisa ser feito, mas a verdade é que a prefeitura não se importa. Outras pessoas já falaram que tudo continua igual era antes, que isso [o terreno] sempre foi assim. Inclusive já vi pessoas atearem fogo ao lixo que sobra da caçamba e, também, restos de animal queimado, porque as pessoas sabem que ninguém virá para recolher”.

Angela lembra que já viu o fogo se propagar até a altura da pista, e diz que é perigoso o risco de incêndio, principalmente em tempos mais secos. “Não existe nenhum controle, o fogo se alastra rapidamente. Existem postes ao redor, é um terreno cercado de muito mato e restos de madeiras.”

A Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Ibiúna, em resposta por e-mail, afirma que a Secretaria do Meio Ambiente verificou a situação local e comunicou a empresa responsável pelas caçambas para recolher o lixo. A assessoria de imprensa alega que, no momento, esta é parte que cabe à Prefeitura, e, caso a empresa não apresente soluções, medidas judiciais entram em vigor.

No entanto, o problema não parece algo simples de ser resolvido. A assessoria afirma que algumas famílias vivem da reciclagem, e, ao procurar objetos na caçamba, descartam os lixos na rua e no terreno ao redor. A Prefeitura de Ibiúna diz que trabalha intensivamente com campanhas de conscientização, e destaca a questão do lixo como algo recorrente em outros pontos do município.

1 homem e 25 cachorros

Mecânico Carlos Alberto convive com os cães abandonados que abriga em sua oficina na zona oeste de São Paulo

 Por Viviane Shinzato

Maloqueira, Pé de galinha, Pé de porco, Madonna e por aí vai…a lista não para por aqui. São mais de 20 cachorros com os mais estranhos nomes. O dono de toda bicharada, o mecânico Carlos Alberto David, 47, explica que os apelidos têm fundamento. A Maloqueira assim foi chamada por sua mania de escapar em busca de saco de lixo na rua. O nome Madonna não é – como muitos imaginam – exatamente uma homenagem a cantora, e sim pelo movimento engraçado das patas que a cachorra exibe em cima dos carros da oficina de Carlos, como se estivesse dançando.

Entre broncas, abraços e carinhos, o mecânico cuida dos 25 cachorros – 20 adultos e 5 filhotes – que atualmente vivem em seu ambiente de trabalho, uma oficina no bairro Parque Ipê, na zona oeste de São Paulo. Carlos cuida de todos da maneira como pode, muitas vezes fazendo até o que não pode. Para sustentar os animais, todos de porte médio-grande, mensalmente retira cerca de 70% de sua renda na oficina para sacos de rações e eventuais medicamentos veterinários. Toda semana, relata, os cachorros comem 6 sacos de 15kg, o que resulta em um gasto mensal de R$600,00.

Dois ambientes construídos com cimento e uma parte a céu aberto cercada com alambrado. No total, são três espaços no mesmo terreno destinados a abrigar e separar os cachorros mais antigos dos mais novos.

Ao longo de 5 a 6 anos de existência, cimento, concreto e alambrado fizeram parte da construção da oficina que aos poucos ganha formas de um canil. As cifras na vida de Carlos são altas, mas infelizmente não representam lucro. Mais da metade da renda que recebe está comprometida em gastos com animais.  Em serviços de construções, inclusive de repartições dos cães, já se foram R$26.000,00; na compra de rações e medicamentos, uma impressionante dívida de seis mil reais, quitada aos poucos. Revoltado, o dono da oficina explica não ter mais condições de investir e tampouco abrigar novos cães. “Já tive que aumentar o muro da oficina para não jogarem mais crias aqui para dentro. Ninguém me ajuda, ninguém quer cachorro, pago tudo com dinheiro do meu bolso. Vendi meu palio 2002 para pagar o banco”.

Rotina

Às 7h30 da manhã Carlos entra na oficina e segue até as 9h30. Limpa a sujeira, troca a água, repõe a comida, lava o terreno e, depois disso, está pronto para iniciar o serviço de mecânico que, por vezes, se torna impossível não misturar com o ambiente dos cachorros. Por volta das 18h dá uma pausa no trabalho e volta aos cuidados animais. “Limpo, dou comida, vejo quem tá com carrapato, cuido das orelhas, dou remédio, porque um deles tem ataque epilético e toma gardenal e então começa tudo de novo. É correria”.

O trabalho de mecânico encerra entre 18h e 19h, horário em que Carlos volta para o apartamento em que mora a poucos kms da oficina, toma um banho, janta, dá uma “desmaiada no sofá” e volta para o trabalho, agora, para se dedicar aos animais. “Saio daqui todo dia meia noite, uma da manhã”.

Na véspera de Natal, Carlos, como de costume, organizou todos os detalhes, conferiu água, acomodação, limpeza deu até ração especial como presente para todos. Depois de todo ritual estava livre para voltar à ceia na companhia da esposa. Dez horas, onze horas, meia noite e… junto aos fogos de comemoração… um recado para o dono da oficina: os cachorros estão brigando. Lá se vai o sossego e o pai dos animais corre para oficina ver o que está acontecendo: “Quase de madrugada e eu aqui separando briga, até levei mordida”, lembra.

Problemas

Tanto zelo e carinho por animais por vezes prejudicam, é claro, a vida pessoal e até mesmo profissional. Atenção à esposa ele mesmo assume já não ter condições de oferecer e, em tom de brincadeira, revela: “Já viramos irmãos”. Clientes menos habituados aos cães desaparecem, talvez por não gostarem de cachorros por perto ou, como já ocorreu, por receio de algum risco no carro – mesmo que seja polido sem custos. “Alguns clientes tem nojo de cachorro, já perdi bastante gente que não volta mais”.

Se comparada a alguns anos, a oficina está com poucos habitantes da família canina. Carlos já abrigou cerca de 40 cachorros de uma só vez e conta mais de 50 entre os que por ali já passaram. “Já fiquei com 38 aqui, cuidando de todos. Houve um tempo em que todos ficaram doentes e eu quase fiquei louco, cheguei a morar aqui. Fiquei uns 30 dias morando aqui direto. Comprei uns 800 comprimidos de amoxilina. Você não imagina o quanto já gastei aqui só com cachorro”
Além dos gastos, do trabalho que tem para cuidar de tudo e entre outras questões ligadas aos animais, Carlos ainda precisa conciliar a relação com os vizinhos da oficina e moradores do bairro. Do prédio residencial na rua ao lado da oficina, a vista que se tem é dos 15 cães adultos que repartem o espaço ao ar livre, com direito a eventuais brigas e muitos latidos. Incomodados com o barulho, os moradores passaram a reclamar, denunciar e até mesmo ameaçar o dono dos animais. Carlos, que prefere não criar caso, conversa humildemente com os moradores e diz estar em busca de soluções para este problema. “Não pego mais cachorro, mas também não tem o que fazer, não vou largar na rua. Mesmo assim já cheguei a ser ameaçado, já teve cara que falou que ia passar com o carro por cima de mim.”

O amor pelos animais é visível no olhar de Carlos que abraça, beija, cheira e acaricia. Para ele, a relação que tem com os animais é algo inexplicável, tanto que não mede esforços para cuidar e defendê-los “Já fiquei sem almoçar para dar comida para os cachorros”. Em outra situação, Carlos arriscou a própria vida ao discutir com um ciclista que, irritado por ter sido derrubado por um dos cachorros, voltou armado para tirar satisfação com o dono dos animais. “Eu já tive que me meter em briga ai na porta, já tive que bater no cara porque o cara deu um chute na cachorra que tinha derrubado ele da bicicleta. Quando fui conversar, o cara já veio para cima e eu também fui com um pedaço de ferro. Então ele foi até a casa dele buscar o revólver e voltou aqui. A gente discutiu, mas ficou para lá”.

Sonhos

Carlos Alberto lembra que tudo começou quando resolveu adotar uma cadela já esperando cria que fora abandona na praça em frente à oficina. Os filhotes nasceram, mais animais foram recolhidos, outros foram abandonados na porta da oficina e desde então não parou mais. O mecânico se sente incapaz de resolver tudo sozinho, já fez dívidas no banco, no pet shop, perdeu clientes, conquistou inimigos, se ausentou da família, não fica mais em casa, gastou o que tinha e o que não tinha, e ultimamente, pensando em uma solução, gostaria de construir mais repartições no terreno para a oficina não se misturar com o canil. Infelizmente não será possível. Com ar de tristeza, Carlos lamenta a notícia de que o aluguel do espaço não mais será renovado para 2012. E enquanto o pior não acontece, sonha mudar-se com os animais para um sítio próximo de São Paulo, onde possam viver tranquilamente, sem problemas de espaço, ameaças e brigas com vizinhos. “Minha vida é uma loucura, não estou aguentando mais. É complicado. Ou eu arrumo um lugar grande, um sítio perto da cidade ou não sei o que fazer”.

Enquanto as novidades não aparecem, Carlos pede ajuda com o que puderem oferecer. “Ração é o principal, o resto eu vou me virando. Se vier medicamento, remédio para dar banho, ajuda claro”.

Serviço:

Local: DM Motors – funilaria, pintura e mecânica.

End:Rua Inácio Cervantes, 1037, Parque Ipê – Butantã/SP

Fone: 11 3782 0722

E-mail: capdavid@hotmail.com

Cruzando as águas do mundo-último

Brasil X Itália

Mesmo com casa comprada e já empregado em sua cidade na Itália, Tommaso optou por ficar no Brasil, onde sua vida parecia caminhar melhor, não fosse a saudade que sentia da mãe e dos irmãos que ficaram na Itália. O contrário também acontecia e ficava difícil suportar a ausência de pessoas tão distantes. “Aqui no Brasil sentia falta da família de lá. Quando eu estava lá, sentia saudades daqui por causa das duas filhas, com a primeira mulher”.

Como nem tudo é perfeito, no Brasil não poderia ser diferente. Em meados de 90, mais especificamente em 1992, Tommaso separava-se da primeira esposa e vivia aquilo que considera sua pior fase no Brasil: A Era Collor. Aos 49 anos, ainda batalhando por uma vida melhor, trabalhava com transporte de material de construção e sua maior fonte de renda era o próprio caminhão que usava para o serviço no depósito de material em Bertioga. O italiano adorador do Brasil neste momento descobria outra realidade com a devastadora política administrativa de Collor de Mello. “Perdi o caminhão porque precisei vender por preço barato para poder viver, perdi o emprego. Em Bertioga, onde eu trabalhava em um depósito de material faliu porque não tinha como comprar, vender”. Nem mesmo a separação da mulher foi possível acontecer. “A vida ficou ruim, não tinha serviço, a gente se ajudava, por isso moramos na mesma casa, por questão de sobrevivência, porque ninguém tinha como ir para outro lugar, então era melhor ficar no mesmo teto”.

Passados os anos, quando a economia começou a dar sinal de melhoras, Tommaso encontrou empregos esporádicos como ajudante de pedreiro. Aos poucos, a vida era retomada. Períodos mais tarde, conseguiu casa separada da ex-esposa, casou-se novamente, teve novos filhos, hoje duas moças casadas, e não abandonou a família na Itália. No próximo ano, talvez, será a vez de suas filhas conhecerem as origens do pai em Álcamo. De tempos em tempos, Tommaso viaja para revê-los, mas só a passeio. Os dias ruins vividos no Brasil ainda não o decepcionaram o bastante para torná-lo menos apaixonado por este país. Perguntado se voltaria atrás, sem pestanejar responde:

– Se tivesse que morar na Itália, não iria mais, a não ser para passear

Valores como amizade e receptividade são pontos fortes que o seguram neste país. E, como todo estrangeiro, não é difícil se surpreender com as relações tropicais: “Lá as pessoas são mais recatadas, aqui as amizades acontecem mais fácil. Aqui a gente tem mais convívio com as pessoas, dá para ser mais familiarizado. Brasileiro se acostuma mais facilmente em qualquer parte do mundo para fazer qualquer coisa”. Hoje, aos 69 anos, trabalhando eventualmente como motorista e vivendo ao lado da esposa, Tommaso garante: “Estou bem aqui. Não há motivos para não gostar”.

Cruzando as águas do mundo II

Chegada ao Brasil e diferenças notadas

Mais quatro anos passaram-se na Itália até que Tommaso chegasse ao Brasil. A recepção calorosa, tipicamente brasileira, foi comemorada com um piquenique na praia de Santos na companhia de tios, avós e primos que há dias esperavam pelo mais novo membro da família que moraria com eles na Vila Bonilha, entre a região da Lapa e Pirituba. Em sua vinda ao Brasil uma única certeza o acompanhava: mudava-se em busca de trabalho. Sem saber ao certo do que trabalhar passou a vender roupas com seus tios pelas ruas. “Foi bom para mim, depois de quatro anos já comprei um carro com este serviço de vender roupa, depois tirei a carta e coloquei o carro para fazer táxi, em meados de 66”.

Acostumar-se com as diferenças estrangeiras aparentemente não foi uma experiência perturbadora para Tommaso. Ao tratar de sua chegada ao Brasil, em momento algum se contradiz em suas opiniões, tanto que custa fazê-lo contar aspectos negativos do choque cultural. “Eu gostei daqui, o tratamento era diferente, era uma conversa mais aberta, não tinha aquele negócio fechado como era lá. Aqui podia conversar com homem e mulher”. Na companhia da prima de 15 anos fez novas amizades e não demorou a se enturmar e desenvolver um novo processo de vida. “As pessoas eram muito boas, agradáveis, boas de conversa”. O idioma também não foi tão complexo como é de se imaginar. “Não foi difícil. De conversa em conversa a gente vai aprendendo. Até agora não sei falar direito. Cheguei em 62, em janeiro faço 50 anos aqui”.

De tempos em tempos Tommaso visitava a família italiana e em uma dessas viagens voltou para morar na casa da mama em Alcamo, onde ficaria por dois anos (94-96). A volta ao Brasil em 1996 não poderia tardar para não perder a cidadania brasileira válida por dois anos. No caso deste retorno os motivos foram mais fortes que problemas burocráticos. “Voltei para o Brasil também porque não gostei mais de lá, não tinha a liberdade que tinha aqui. Trabalhei por lá e tudo, mas não gostei”. O estranhamento agora se dava do outro lado, o de suas origens, que mesmo sendo o lugar onde viveu grande parte de sua vida, neste momento tornava-se um país diferente por coisas que até então S. Tommaso havia esquecido.

– O povo lá não costuma andar a vontade em roupas e vestuário. Aqui me sentia mais a vontade, andava de shorts e camiseta e ninguém me criticava por isso. Lá uma mulher dificilmente usava calça cumprida, era sempre saia.

Já habituado ao povo italiano, mas tendo incorporado à sua pessoa os costumes brasileiros, a inevitável comparação entre os dois povos lembrava Tommaso de que na Itália nunca poderia levar a vida como no Brasil. Em seu retorno percebeu que, além da diferença cultural, a vida profissional também tardaria em começar se optasse permanecer em Alcamo. Com a proximidade da idade, logo viria o momento do jovem italiano alistar-se no exército. A partir deste momento, Tommaso teria que postergar mais alguns anos o início de sua independência financeira. “A vida ia começar com quase 25 anos se eu entrasse no exército [italiano]. Em 75 era uma época pós-guerra, a família estava se reerguendo ainda e eu teria que trabalhar na roça outra vez.”

Romance

A despedida de suas origens não foi um processo fácil. Ao vir para o Brasil, deixou para trás não só família, amigos e vizinhos como uma parte de seu coração. Namorada mesmo não era, mas, para os costumes da época, dançar juntos nas festas, conversar e se entreolhar significava estar quase lá…Nas inocentes conversas, nos pequenos momentos juntos, os planos para o futuro e os sonhos da vida a dois se revelavam a cada palavra dita.

O namoro sério não teve espaço e nem tempo para acontecer, as promessas trocadas ficaram no passado e se tornaram memórias revisitadas por Tommaso em 1975 quando voltou a morar na terra natal. O reencontro não pode ser comemorado, a vida de cada um seguia em rumos diferentes. Tommaso não mais poderia reviver o antigo romance. Aquela menina que conhecera aos 15 anos, em 75 já era uma mulher casada; e aquele rapaz que elegantemente a acompanhava nas danças, agora era um pai de família casado há 4 anos.

 

 

 

Cruzando as águas do mundo I

Doze dias atravessando os mares, cruzando as águas do mundo entre Itália, Espanha, Portugal e Brasil, com a mesma finalidade que atraia cerca das 1.800 pessoas que viajavam na mesma embarcação: a esperança de uma vida melhor no exterior. Em meados da década de 60, aos 20 anos de idade, Tommaso Lipari partia de sua terra natal na cidade de Alcamo, região da Sicília – Itália com malas prontas para uma grande viagem que só terminaria no Porto de Santos, São Paulo.

Jovem, corajoso e pronto para enfrentar a vida, aceitou os convites da parte da família italiana já residente no Brasil e veio para São Paulo morar com os tios e avós, a fim de descobrir o tão sonhado território brasileiro. Na década de 60 a Itália vivia o período pós-guerra e as oportunidades de emprego pareciam escassas e restritas aos trabalhos braçais em fazendas. Já no Brasil, a situação parecia diferente. Seus tios já tinham emprego e carro, os avós tinham casa própria e a vida da família no Brasil prosseguia melhor em relação a sua outra parte deixada na Itália .

Hoje, com os cabelos brancos de um senhor beirando os 70 anos de idade, Seu Tommaso relembra a vida na pequena cidade de Alcamo que ainda hoje deixa rastros em sua fala levemente carregada de um sotaque italiano. “A vida era agricultura, trabalhava na roça, na plantação de uva dos pais, de trigo, aveia, favas, milho, girassol, algodão”

A pele clara com a face rosada entrega as origens européias que acompanham sua família. Filho de italianos tradicionais e sendo o mais velho da humilde família, trabalhou na roça desde sua infância até adolescência, vendo o raiar e o por do sol durante muitos anos. “Tinha que trabalhar, quando o sol aparecia até o sol ir embora, dia a dia. Sábado até umas 15h mais ou menos, andava de charrete porque era a 30 km da cidade, descansava domingo e voltava para a plantação na segunda. Ia de volta para a cidade no sábado.”

Dos 11 aos 20 anos de idade a rotina era a mesma. Às 3h30 da madrugada de cada segunda feira já estava de pé para viajar de charrete com o pai e acompanhá-lo no serviço do campo que ficava no interior, a 30 km da cidade. Durante toda a semana, pai e filho permaneciam na fazenda enquanto a mãe cuidava do lar e dos irmãos na cidade. Aos sábados, o trabalho seguia até as 15h. Domingo era o dia que restava para descansar em casa e se divertir um pouco na cidade antes de voltar à plantação na segunda. “De manhã, no domingo, eu limpava o cavalo da família, depois ia para a missa e mais tarde ia passear na avenida. A gente se juntava com os amigos, ficava olhando as meninas de longe. Esse era o nosso passeio naqueles tempos”.

Os tempos eram difíceis, a situação financeira do país não era das melhores e não existia motivação que animasse os habitantes de Alcamo, já cientes da vida que levariam no vilarejo. “Aquele tempo não era legal financeiramente, dava para viver, mas não tinha posse, não tinha dinheiro, carro, nem nada. Tinha as terras e, fora isso, só o cavalo e a charrete. Isso era tudo quando alguém casava. Hoje é mais fácil ter as coisas”.

A diversão dos rapazes era sair para a cidade e às 22h00 já era hora de voltar. “Subir e descer a avenida era o passeio, a distração do dia. Se fizesse frio ia para o cinema, era barato – 100 liras naqueles tempos”. Essa vida era privilégio só para os meninos, as moças mal saiam de casa e quando chegavam aos 15 anos de idade a mãe levava a filha à missa por volta do meio dia, já pensando em exibi-la aos possíveis interessados. Tommaso lembra que ficar em casa era ver o pai e a mãe conversando, um ao lado do outro, sem ao menos poder assistir televisão. “A 1ª TV que eu vi foi em 1958”. Nas ruas a turma frequentava os bares da avenida. “Bar na Itália é chique, não é boteco, é tudo limpinho, envidraçado. Como a gente tinha vinho da plantação de uvas em casa, o bar era ponto de encontro para os colegas homens”

Sem grandes novidades a vida prosseguia. Estudar e brincar como toda criança e adolescente, já não eram atividades possíveis. O amadurecimento logo veio e os estudos foram interrompidos na quinta série do primário para dar lugar ao trabalho na fazenda. Os namoros também não eram possíveis, não só pela falta de tempo para sair, mas principalmente pelos costumes antigos, pela rígida educação e hábitos mais recatados dos anos 50-60. As primeiras aproximações vieram aos 16 anos. Os namoros em segredo geralmente aconteciam em festas de casamento, quando dançavam e falavam sobre futuro e interesses em ficar juntos. “O namoro era conversa e não passava disso. A gente se cruzava quando a mãe levava para a missa, quando passava pela avenida, e quando tinha festas para dançar. Se dançava mais de uma vez, já era buchicho feito, a turma desconfiava muito rápido. Esse já era o tal namoro”